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Opinião: Madeira – Das Ilhas, as mais belas e livres

Este arquipélago, algures no Oceano Atlântico e corresponsável pelo vasto território marítimo português, deu recentemente mais exemplos positivos ao País. Vivemos dias difíceis com esta pandemia à escala global. Os sucessivos confinamentos impostos são disso reveladores. Aqueles que, além de confinados por razões pandémicas, se encontram confinados pelo imenso mar, sentem-no duplamente. A insularidade fez dos povos ilhéus gentes resilientes, gentes cientes do seu território. Tivemos, ao longo da história, de resolver os nossos próprios problemas. Vejamos o caso das nossas “Levadas”. Redes de 2500 km de canais de água, criadas para abastecer toda a ilha, escavadas na rocha pela mão do homem e hoje candidatas a Património Mundial da UNESCO. Outro marco histórico são os “socalcos” esculpidos pela mão humana em rocha basalto e emparelhados em autênticos degraus de terra fértil para permitir o cultivo em solo plano, nos declives montanhosos. Estas duas obras colocaram água e comida na mesa dos madeirenses.

Na medicina dentária, esta autonomia possibilitou, ainda durante o século XX, estabelecer uma convenção entre os médicos dentistas privados e o Sistema Regional de Saúde, atribuindo valores de comparticipação para a população sobre grande parte dos atos médico-dentários praticados. Permite-nos prescrever diretamente ao paciente uma TAC, análises, um RX e, até mesmo, um atestado médico.

Também no século passado, no decorrer dos anos 90, alguns centros de saúde já contavam com a colaboração de médicos dentistas e nesta sequência surgiu o Programa Regional de Promoção e Prevenção da Saúde Oral, abrangendo crianças entre os 3 e 13 anos e estendendo-se, em 2005, a maiores de 65 anos e a grávidas.

Hoje, em pleno século XXI, com uma autonomia jovem, mas madura, continuamos a fazer uso do nosso engenho.

Neste período pandémico, surgiu uma esperança no final do ano passado – as tão esperadas vacinas! – e a sua consequente aprovação pela Agência Europeia do Medicamento. Ouvia-se nos telejornais que uma das grandes dificuldades do plano de vacinação seria o armazenamento e conservação destas vacinas a -70ºC. Antecipando o problema, no início de dezembro, chegavam à Madeira duas arcas ultracongeladoras com capacidade para 700L, capacidade essa muito acima do que seria anunciado, devido à disponibilidade de vacinas. Mas, mais uma vez não quisemos, correr atrás do prejuízo.

E, por falar em vacinas, somos também pioneiros neste processo em Portugal.

Durante o mês de fevereiro e até dia 14 março, 90 médicos dentistas e 45 assistentes dentárias/higienistas orais já têm inoculadas duas doses da vacina; todos os restantes já com a primeira dose tomada, perfazendo um total de 431 profissionais vacinados.

Finalizo relembrando que, no dia 4 de fevereiro, foi aprovada em Conselho de Governo a criação de carreira pública para os médicos dentistas. O processo não está concluído, estando neste momento, a pedido do Parlamento Regional, em fase de análise pelo Grupo de Medicina Oral Pública da OMD e respetivos juristas, para que possam dar os seus contributos finais. Acredito que, até ao segundo trimestre de 2021, poderemos ter esta proposta de decreto legislativo finalizada e aprovada pelo Parlamento Regional. Esta será uma forma de diferenciação e dignificação profissional para todos os médicos dentistas em funções no Serviço de Saúde da RAM-Sesaram. Esperamos também que seja este um bom ponto de partida para que possa ocorrer o mesmo em território continental, bem como na Região Autónoma dos Açores.

Perdoem-me, mas é imenso o orgulho em ser madeirense e português.

Das ilhas, as mais belas e livres…

*Fabião de Castro da Silva – Representante da Região Autónoma da Madeira no Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas [1]

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 137 da revista SAÚDE ORAL [2], de março-abril de 2021.