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Estudo mostra evidências de que Sars-CoV-2 infeta células na boca

O Sars-CoV-2 [1] infeta células na boca, revelou um estudo de uma equipa de investigadores do National Institutes of Health (NIH) e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos EUA. Em comunicado [2], o NIH informa que o estudo mostra também a possibilidade de a boca desempenhar um papel na transmissão do vírus para os pulmões ou para o sistema digestivo através da saliva (que contenha células infetadas).

Investigação por etapas

A investigação tentou perceber a origem da presença do vírus na saliva. “Com base em dados dos nossos laboratórios, suspeitamos que pelo menos parte do vírus na saliva poderia vir de tecidos infetados na própria boca”, afirmou o co-autor principal do estudo, Blake M. Warner.

Para explorar a possibilidade, a equipa analisou tecidos orais de pessoas saudáveis para identificar regiões da boca suscetíveis á infeção por Sars-CoV-2. O resultado foi: “Os níveis de expressão dos fatores de entrada são semelhantes aos das regiões conhecidas por serem suscetíveis à infeção por SARS-CoV-2, como o tecido que reveste as passagens nasais das vias respiratórias superiores”, avança o investigador.

Após confirmarem essa suscetibilidade, os investigadores procuraram por evidências de infeção na boca, através de amostras de pessoas infetadas. O RNA do vírus estava presente em pouco mais de metade das glândulas salivares examinadas.  No tecido salivar da glândula de uma das pessoas que morreram, bem como de uma pessoa viva com covid-19 agudo, os cientistas detetaram sequências específicas de RNA viral que indicavam que as células estavam ativamente a fazer novas cópias do vírus — reforçando ainda mais as evidências de infeção.

Após essas evidências, a investigação tentou perceber se esses tecidos poderiam ser a fonte do vírus na saliva. Em pessoas com covid-19 leve ou assintomáticas, nas células que passaram da boca para a saliva foi encontrada a presença do vírus, bem como nas proteínas de entradas.

Para perceber se o vírus na saliva era infecioso, a saliva de oito pessoas assintomáticas foi exposta a células saudáveis. A saliva de dois voluntários levou à infeção dessas células. Isso, para os investigadores, pode significar transmissão do vírus através da saliva, mesmo em assintomáticos.

Finalmente, para explorar a relação entre sintomas orais e a presença vírus na saliva, a equipa recolheu saliva de um grupo separado de 35 voluntários do NIH com covid-19 leve ou assintomáticos. Das 27 pessoas que sofreram sintomas, as que tinham vírus na saliva eram mais propensas a relatar perda de sabor e olfato, sugerindo que a infeção oral poderia estar na base de sintomas orais de covid-19.

Conclusões

Segundo os investigadores, as descobertas do estudo sugerem que a boca, através de células orais infetadas, desempenha um papel maior na infeção por SARS-CoV-2 do que se pensava anteriormente.

“Quando a saliva infetada é engolida ou pequenas partículas dela são inaladas, pensamos que pode potencialmente transmitir SARS-CoV-2 mais para as nossas gargantas, pulmões ou até mesmo para os nossos intestinos”, disse o outro investigador principal, Kevin M. Byrd.

A equipa afirma ser necessário mais pesquisa, nomeadamente confirmar as conclusões num grupo maior de pessoas e determinar a natureza exata do envolvimento da boca na infeção por Sars-CoV-2 e na transmissão dentro e fora do corpo.

O estudo, intitulado SARS-CoV-2 infection of the oral cavity and saliva [3] foi publicado online a 25 de março de 2021, na Nature Medicine.