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Clínicas Dentárias

Quanto vale uma boa dupla no consultório dentário?

Respeito, comunicação, cooperação e uma boa dose de humor são os segredos para um bom trabalho de equipa entre médicos dentistas e assistentes dentários, pelo menos de acordo com quem conseguiu criar parcerias de sucesso, garantindo que, dentro do consultório, não há espaço para mais nada a não ser o foco na saúde e no bem-estar do paciente.

Considerado um dos maiores quebra-cabeças para os gestores de recursos humanos em todas as áreas de atividade, o trabalho de equipa é, cada vez mais, encarado como a receita secreta para maior criatividade, produtividade e inovação no seio das organizações. Mas e nas clínicas dentárias, que importância tem? Quais os segredos para uma boa relação entre médicos dentistas e assistentes dentários? Quanto vale, afinal, uma boa dupla no consultório? Segundo as duplas de médicos dentistas e assistentes dentárias com quem falámos para este artigo, vale muito, e até há quem diga que trabalhar em equipa no gabinete médico-dentário pode ser tão simples “como uma dança”, mas exige cooperação, coordenação e comunicação.

A trabalhar juntas há cerca de dois anos na clínica OralMED de Algés, a médica dentista Tânia Proença e a sua assistente, Renata Borrelfo, tiveram de descobrir a melhor forma de comunicar uma com a outra para criar uma dinâmica de trabalho que fosse natural para ambas.

“A Renata começou, de forma muito tímida, a dar os primeiros passos aqui na clínica OralMED de Algés. E começou, curiosamente, a trabalhar comigo. Foi fácil, porque apesar da pouca experiência, sempre foi muito responsável, interessada, focada e desenvolta. Evoluiu muito em pouco tempo. Neste momento, é um elemento essencial dentro da equipa. Quando se começa a trabalhar com uma nova assistente, é expectável que a dinâmica não seja a desejável logo à partida, porque cada médico dentista tem os seus métodos de trabalhos. Este conhecimento, de parte a parte, e o à-vontade, vão-se adquirindo com o tempo”, conta Tânia Proença.

“Uma boa assistente deve também ter um papel pedagógico junto dos pacientes, ajudando o médico dentista a sensibilizá-los para boas práticas e cuidados após os tratamentos” – Tânia Proença

“No início, sem conhecer a pessoa, a médica dentista, e a sua forma de trabalhar, tive de aprender a adaptar-me. Mas ela é bastante pró-ativa e muito paciente, o que facilitou a minha, e a nossa, adaptação. Eu tinha pouca experiência, mas muita vontade de aprender. Dia após dia fomo-nos adaptando uma a outra, até ao ponto em que já prevejo o que a Dr.ª vai precisar para determinado procedimento”, acrescenta a assistente Renata Borrelfo.

Prever o que o médico dentista precisa é, aliás, apontada como uma das competências mais importantes de um assistente dentário. Para a médica dentista Tânia Proença, o trabalho de um assistente deve começar ainda antes do tratamento em si.

“Uma boa assistente deve começar a desempenhar o seu papel com rigor desde a receção. Com simpatia, fazendo com que o paciente se sinta confortável, proporcionando-lhe um ambiente acolhedor e seguro, por forma a reduzir a ansiedade do paciente […]. No gabinete, tem de ter habilidade técnica para preparar os pacientes para o atendimento, prestar assistência direta, conhecer a anatomia, os passos clínicos e os protocolos. Além disso, deve ainda estabelecer ligação com o laboratório protético e dar seguimento aos trabalhos solicitados. E, por último, mas de elevada importância, principalmente nos tempos em que vivemos, deve dominar o conceito de assepsia, que inclui a esterilização, desinfeção de materiais e de superfícies. Uma boa assistente deve também ter um papel pedagógico junto dos pacientes, ajudando o médico dentista a sensibilizá-los para boas práticas e cuidados após os tratamentos”, sublinha a médica dentista.

Renata Borrelfo acrescenta ainda que “aquilo que os médicos dentistas procuram num bom assistente é segurança, empenho, dedicação e, acima de tudo, cooperação. Conhecendo cada método de trabalho, tudo se torna mais dinâmico e os procedimentos de cada consulta correm melhor. Como assistentes dentários, devemos conseguir prever o que o médico pode vir a necessitar consoante cada tratamento, caso o conheçamos. Estando um passo a frente, garantimos que o tratamento é feito de forma consistente e fluída”.

“A consulta para o paciente torna-se numa experiência melhor quando existe uma boa relação entre médico e assistente” – Renata Borrelfo

Às competências técnicas devem ainda somar-se as competências emocionais, essenciais a um espaço de trabalho em que poucos pacientes desejam estar. “A interação médico dentista-assistente, a comunicação, a linguagem corporal ou mesmo o eye contact pode ser percetível pelo paciente. Assim, torna-se importante ter uma equipa coesa que trabalhe de forma confiante e interaja de forma positiva e assertiva. Assim, passará, sem dúvida, mais confiança ao paciente e de certa forma acaba por dissipar a sua ansiedade, maximizando também os resultados”, defende Tânia Proença.

“A consulta para o paciente torna-se numa experiência melhor quando existe uma boa relação entre médico e assistente. Se a dinâmica for boa, muitas das vezes o paciente acaba por se acalmar, entrando num estado de conforto e originando por vezes umas gargalhadas de boca aberta. Por outro lado, uma má relação entre assistente e médico deixa o paciente muito mais nervoso e ansioso, e o tratamento acaba por ser mais doloroso e mais demorado. Se o paciente sentir uma boa ‘vibração’ entre médico e assistente, sente-se muito mais confortável e acaba por se deixar levar nessa energia fazendo com que o procedimento seja mais fácil”, lembra ainda Renata Borrelfo.

A importância das competências pessoais
A importância da cooperação, do compromisso, do respeito pelo trabalho do outro e do espírito de união são também sublinhados por Hugo Madeira e pela sua assistente Magda Constâncio, a quem o médico dentista trata carinhosamente por Maggie. A trabalhar juntos há cinco anos, têm aprendido que o tempo passado em consultório é melhor se existir uma relação de amizade.

“Devido à nossa profissão, passamos mais tempo na clínica do que em casa, por isso temos de ter uma boa relação, de amizade e até de conforto. Acho que, antes da relação profissional, tem de haver uma relação pessoal, caso contrário não nos aguentamos. O principal ingrediente da nossa relação é o sentido de humor”, revela Hugo Madeira.

A cumplicidade, a confiança e o profissionalismo “têm de passar para o paciente no gabinete para que as pessoas fiquem confortáveis e se sintam bem… até porque não há muita gente que goste de ir ao dentista” – Magda Constâncio

“E a cumplicidade, e uma grande confiança e muito profissionalismo. E isso tem de passar para o paciente no gabinete para que as pessoas fiquem confortáveis e se sintam bem… até porque não há muita gente que goste de ir ao dentista”, acrescenta a assistente Magda Constâncio.

A importância do trabalho de equipa é tal que Hugo Madeira chega até a compará-lo com uma peça de teatro em que o protagonista só é bom se a sua contracena corresponder.

“Somos muito próximos e, às vezes, quando eu estou a pensar nalguma coisa, a Maggie diz. Há uma grande sintonia. É importante que haja empatia e que falemos a mesma linguagem. Eu acho que funciona um bocadinho como uma peça de teatro e temos de ter a capacidade de sermos o que o paciente precisa. A nossa relação muda perante o paciente que está à nossa frente. Se percebermos que aquele paciente está tenso e precisa que nós sejamos um pouco mais simpáticos, nós somos mais simpáticos e brincamos um bocadinho mais”, explica o médico dentista.

“O que o médico dentista procura de um assistente é, sobretudo, uma parceria. Esperamos que a assistente seja o nosso braço direito. Tem de haver vários papéis e o dentista não consegue, obviamente, cobrir todos. A assistente tem de garantir grande parte da logística de tudo o que acontece não só na consulta, mas também na clínica. Tem de haver uma preocupação com o pré e com o pós-consulta e é muito importante que a assistente consiga criar uma relação com o paciente, até porque nos interessa ter feedbacks, fazer follow-ups… A assistente acaba por ser muitas vezes a extensão do médico dentista para os pacientes e um elo de ligação entre os pacientes e o médico dentista”, acrescenta ainda.

“É importante ter as competências técnicas, mas também é preciso ter competências pessoais. É aí que reside o grande segredo. Não vale a pena ser o melhor profissional e não nos sabermos relacionar com as pessoas” – Hugo Madeira

Para a dupla da Clínica Hugo Madeira, em Lisboa, mais importante ainda do que as competências técnicas, é possuir competências relacionais que ajudem a tornar a experiência do paciente mais agradável.

“Os pacientes são muito sensíveis e, se não existe uma boa interação na equipa, o ambiente acaba por ficar desconfortável. É importante ter as competências técnicas, mas também é preciso ter competências pessoais. É aí que reside o grande segredo. Não vale a pena ser o melhor profissional e não nos sabermos relacionar com as pessoas. Somos humanos antes de sermos médico dentista ou assistentes. E é preciso sentido de humor. A vida já é muito triste”, conclui Hugo Madeira.

Ser equipa
O sentido de humor é, aliás, um dos ingredientes que tem garantido a continuidade da dupla Carlos Moura Guedes, diretor clínico da Malo Clinic, em Lisboa, e da sua assistente, Rita Guerra, e denuncia os 20 anos de trabalho em parceria. Quando Rita Guerra integrou a equipa da Malo Clinic, em 2000, acabada de sair da faculdade, o médico dentista Carlos Moura Guedes tinha começado a trabalhar há pouco mais de um ano. Juntos descobriram o que significa trabalhar em parceria, com cedências e aprendizagem mútua.

“Sempre foi fácil trabalharmos juntos, o que não quer dizer que não haja questões para resolver e afinações a fazer, mas isso não quer dizer que seja uma tarefa hercúlea. Obviamente que há todo um trabalho por trás ao longo destes 20 anos, com momentos melhores, momentos menos fáceis…mas com um esforço de ambas as partes consegue-se ultrapassar”, conta o médico dentista.

“Acho que, acima de tudo, tem de haver uma confiança enorme entre as pessoas que constituem a equipa. Essa é a chave principal. Depois, talvez a humildade. Se existir isso, as coisas tornam-se muito naturais” – Rita Guerra

“Acho que, acima de tudo, tem de haver uma confiança enorme entre as pessoas que constituem a equipa. Essa é a chave principal. Depois, talvez a humildade. Se existir isso, as coisas tornam-se muito naturais. Um assistente dentário tem de antecipar tudo. Fazer uma preparação de um ato clínico, de uma consulta, para da melhor forma construir detalhadamente todo o procedimento clínico”, acrescenta Rita Guerra.

Antecipar é, na opinião de ambos, o mais importante de uma relação entre médico dentista e assistente dentário. E se o assistente conseguir ler a mente do dentista, tanto melhor. “Eu diria até que tem de antecipar os meus pensamentos [risos]. Há uma coisa muito importante: ambos partilharem um certo brio e uma certa preocupação com o tratamento que estamos a prestar. O objetivo — e aí provavelmente dependerá das duplas — no nosso caso é prestarmos o melhor tratamento possível ao paciente. E isso só é possível trabalhando em conjunto. Tem de haver uma missão comum a ambos. O que a Rita estava a dizer sobre antecipar tudo é extremamente importante, porque no fim de um dia com muitas consultas, se eu ainda tenho de pedir todo o material ou uma série de instrumentos, é extremamente fatigante. Na maior parte das vezes, quando estou a executar um procedimento, não preciso de pedir nada à Rita. Posso estar a conversar sobre outra coisa qualquer que, naturalmente, as coisas aparecem-me ou na mão ou no tabuleiro. Muitas vezes até acontece uma coisa engraçada quando eu estou com as lupas e, por isso, tenho uma visão mais reduzida. Peço alguma coisa que não consegui ver porque estou com as lupas e a Rita pergunta-me: ‘Igual a essa que está aí à sua frente? [risos]’”, explica Carlos Moura Guedes.

Esta ‘dança’ em consultório, garantem, é crucial para que o paciente descontraia e se esqueça que está num sítio onde muito provavelmente preferia não estar. “Acompanhamos a maioria dos nossos pacientes há muitos anos e, por isso, temos uma grande confiança com eles. A verdade é que hoje a medicina dentária não deve ser uma experiência traumática ou dolorosa e não há dúvida nenhuma de que haver uma harmonia e um bom ambiente dentro do gabinete descontrai o paciente, fá-lo pensar noutras coisas e torna a experiência mais fácil”, defende o médico dentista.

“É importante o respeito e a noção de que sozinhos cada um de nós não vale o que valemos em dupla. O papel da assistente tem uma série de valências que ultrapassam em muito aquilo que às vezes ouço de colegas mais inexperientes, que é que a assistente está lá para segurar um aspirador” – Carlos Moura Guedes

“Diria ainda que é importante o respeito e a noção de que sozinhos cada um de nós não vale o que valemos em dupla. O papel da assistente tem uma série de valências que ultrapassam em muito aquilo que às vezes ouço de colegas mais inexperientes, que é que a assistente está lá para segurar um aspirador. Há todo um controlo da agenda que é essencial. A Rita muitas vezes tem de fazer de minha secretária pessoal, porque eu, além da parte clínica, ainda tenho outras responsabilidades na Malo Clinic e essa gestão é extremamente importante. Além disso, o contacto dos pacientes com a assistente muitas vezes ultrapassa o contacto com o próprio médico dentista devido às conversas que têm, nomeadamente na marcação das consultas. Uma assistente que conheça o médico dentista com quem está a trabalhar, que saiba os tempos que ele demora, por forma a permitir encaixar uma urgência e que faça a gestão do stock e dos materiais dentro do gabinete para evitar o desperdício, é extremamente importante. Além disso, eu posso colocar uma coroa extremamente bem-adaptada, com um preparo ótimo, mas se a Rita não me misturar o cimento de acordo com as especificações, o meu trabalho não terá o sucesso que nós queremos. É por isso que a formação é muito importante. Ninguém pode fazer uma coisa sem saber porque é que a está a fazer”, defende ainda Carlos Moura Guedes.

Já Rita Guerra acredita que o gosto pela profissão e pelo trabalho de equipa, aliados a uma aposta na formação e na cooperação, são segredos que podem garantir relação duradoura entre dentistas e assistentes.

“Acho que, acima de tudo, a chave para que tudo possa resultar é gostar muito daquilo que fazemos. O amor à camisola é chave para tudo fluir naturalmente. E a partir daí vem a confiança, o relacionamento com a equipa com que estamos naquele momento, a cooperação, etc.”, afirma a assistente.

“E, gostava ainda de acrescentar que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”, atira Rita Guerra. “Não, não, não… A Rita está completamente errada! Não é atrás, é ao lado! [risos]”, remata Carlos Moura Guedes.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 135 da revista SAÚDE ORAL, de novembro-dezembro de 2020.

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