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Caso clínico

Tratamento endodôntico de um canino mandibular com duas raízes

Fig

Hugo Sousa Dias
Pós-graduação em Endodontia pela FMDUL
Coordenador Residência Clínica de Endodontia Foramen Dental Education
Prática clínica exclusiva em Endodontia
Fundador Study Club Endodontics – Grupo Português para o Estudo da Endodontia

O objetivo primário do tratamento endodôntico é desinfetar e selar o sistema de canais radiculares de forma tão eficaz quanto possível, com o objetivo de estabelecer ou manter os tecidos periapicais saudáveis1. A abordagem de casos com uma anatomia complexa requer conhecimento da anatomia interna de todos os tipos de dentes antes de dar início ao tratamento endodôntico.

Vários estudos têm reportado a existência de variações anatómicas associadas ao canino mandibular 2,3,4,5. A ocorrência de caninos mandibulares com 2 raízes e 2 canais radiculares é baixa, podendo variar entre 1% a 5% 6. O conhecimento da anatomia canalar é mandatório para o sucesso do tratamento endodôntico. Compete ao clínico estar desperto para este facto e realizar uma avaliação inicial cuidada. O caso clínico apresentado relata a realização do tratamento endodôntico num canino mandibular com duas raízes e dois canais com foraminas apicais independentes.

 

Caso Clínico

Paciente do sexo feminino, com 51 anos, referenciada por dor espontânea na zona do canino mandibular do 3º quadrante (33). Foram realizadas duas incidências radiográficas periapicais (Fig.1 e Fig.2), tendo sido possível verificar a presença de duas raízes. Realizado teste de sensibilidade pulpar ao frio, tendo a paciente referido dor intensa que se manteve após remoção do estímulo, dente adjacente com resposta normal ao teste. Sem queixas à percussão e à palpação dos tecidos moles e com sondagem periodontal dentro dos limites normais. Visível radiograficamente uma restauração justa-pulpar. Diagnóstico pulpar de pulpite irreversível sintomática e diagnóstico periapical de tecidos periapicais normais.

 

 

Fig.1- Radiografia inicial (orto-radial)

Fig.2- Radiografia inicial (mesio-radial)

Proposto tratamento endodôntico não cirúrgico de dente 33, tendo sido realizado em sessão única. Anestesia local com Artinibsa c/ Epi 1:200.000 (Inibsa). Isolamento absoluto com grampo número 212 (Fig.3), abertura da cavidade de acesso com broca esférica número 12, Endo Access número 2 (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland) e Endo-Z (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland). Realizado desgaste compensatório das paredes vestibular (V) e lingual (L) de modo a permitir a visualização de ambos os canais (Fig.4) 7.

Fig.3 – Isolamento absoluto

Fig.4 – Cavidade de acesso

 

Realizado glyde path com lima K#10 (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland) e determinado comprimento de trabalho com recurso a localizador electrónico apical Root ZX (Morita) e confirmação radiográfica (Fig.5).

Fig.5 – Radiografia de odontometria

Realizado glyde path mecanizado com a Proglider (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland). Instrumentação do canal V com limas WaveOne Gold Small e Primary (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland) com 22,5mm e no canal L com limas WaveOne Gold Small e Primary (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland) com 23mm. Irrigação com hipóclorito de sódio 5,25% durante todo o procedimento e protocolo final de irrigação com EDTA 17% (Coltene), hipóclorito de sódio 5,25% e álcool 90º.

 

Obturação de ambos os canais com técnica de condensação termoplástica de onda contínua com o Elements Obturation Unit (Kerr Endodontics) e com o cimento resinoso AH Plus (Dentsply Maillefer, Ballaigues, Switzerland) (Fig. 6, Fig.7 e Fig.8). Seladura intracanalar com Ionoseal (VOCO). Paciente reencaminhada para o colega referenciador para posterior reabilitação. Realizado controlo radiográfico aos 3 meses (Fig.9).

Discussão

O conhecimento das possíveis variações anatómicas em cada grupo dentário é essencial uma vez que o sucesso do tratamento endodôntico está dependente da correta e completa limpeza, desinfeção e obturação do sistema de canais radiculares. A realização de duas incidências radiográficas iniciais é de extrema importância, de modo a auxiliar na identificação de possíveis variações anatómicas, ou mesmo, antever possíveis dificuldades que possam surgir no decorrer do tratamento 6.

Os caninos mandibulares são geralmente referidos como tendo uma raiz e um canal, na maioria dos casos. Segundo D’Arcangelo (2001) 15% dos caninos inferiores apresentam dois canais com um ou dois foraminas. Em casos raros 6, podem apresentar duas raízes, e dois ou três canais (1% a 5%). Mesmo que a anatomia mais comum nos caninos mandibulares seja de uma única raiz e um único canal radicular, o médico dentista deve considerar as possíveis variações e pesquisar sempre a presença de um segundo canal radicular 6.

Conclusão

O facto de não ser tratado um dos componentes do sistema de canais radiculares terá um impacto negativo sobre o outcome do tratamento. Os médicos dentistas devem ter o conhecimento das possíveis variações anatômicas nos diferentes grupos dentários, e nunca devem assumir um tratamento como sendo simples. A maioria dos caninos mandibulares têm uma raiz e um canal radicular, mas 15% podem apresentar dois canais, e numa percentagem menor podem ter duas raízes com canais independentes (1%-5%), sendo importante a sua identificação e tratamento.

O exame radiográfico inicial é uma ferramenta importante para auxiliar na deteção de possíveis variações anatómicas. O clínico hoje em dia tem ao seu dispor uma serie de “ferramentas” que podem auxiliar na abordagem dos casos com maior segurança e de forma mais previsível, como são exemplo o CBCT e o microscópio operatório.

Bibliografia

  1. de Paz, L.C. et al. The Root Canal Biofilm. Vol.9, Springer Series, 2015
  2. Pineda F, Kuttler Y (1972) Mesiodistal and buccolingual. Roentgenographic investigation of 7275 root canals. Oral Surgery, Oral Medicine and Oral Pathology 33, 101–10.
  3. Green D (1973) Double canal in single roots. Oral Surgery, Oral Medicine and Oral Pathology 35, 689 – 96.
  4. Vertucci FJ (1984) Root canal anatomy of the human permanent teeth. Oral Surgery, Oral Medicine and Oral Pathology 58, 589–99.
  5. D’Arcangelo C. et al. Root canal treatment in mandibular canines with two roots:a report of two cases. International Endodontic Journal, 34, 331-334, 2001.
  6. Victorino F.R. et al. Bilateral mandibular canines with two roots and two separate canals – case report. Braz. Dent. J (2009), 20(1): 84-86
  7. Pécora S.R. et al. The external and internal anatomy of human mandibular canine teeth with two roots. Endod Dent Traumatol, 1998; 14: 88-92.
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