Implantes dentários

Qual será o futuro da implantologia?

Qual será o futuro da implantologia?

Há uma preocupação crescente com a preservação dos tecidos e, por isso, os tratamentos tendem a ser cada vez mais conservadores, pouco invasivos, biomiméticos e menos dolorosos. Neste contexto vemos surgir as partial extraction therapies (PET) como “um grande avanço e mudança de paradigma na implantologia e cirurgia oral”.

A implantologia é uma das áreas da medicina dentária onde existe um grande dinamismo em matéria de inovação. Assistimos a uma evolução constante a nível dos materiais e até das técnicas. Comecemos por uma perspetiva mais lata do que tem sido a inovação neste campo. Vejamos o que os profissionais de medicina dentária, bem como a própria Indústria, têm a dizer.

Guias cirúrgicas impressas em 3D

Um dos aspetos que mais impacto teve no dia-a-dia em implantologia, como aponta Miguel Stanley foi “a implementação das guias cirúrgicas impressas em 3D”. O diretor-clínico da White Clinic não se refere apenas às “guias de posicionamento, mas às guias de fully guided surgery, isto significa que nos mostram a posição, a profundidade, o ângulo e a posição final do hexágono permitindo confecionar também a coroa provisória antes da própria cirurgia”.

Na White Clinic, estas guias são utilizadas há mais de dois anos, “não só em casos unitários, como em casos de arcada total e os resultados são incríveis”. Obviamente que isto exige, como indica o médico dentista, “uma enorme curva de aprendizagem, uma equipa dedicada e um investimento significativo, mas é algo revolucionário e sem o qual já não conseguimos trabalhar”.

O digital veio para ficar. De tal modo que Dorothee Taurel, responsável pela comunicação e eventos da Dentsply Sirona, avança mesmo que “atualmente, o presente e o futuro da implantologia passam pelas soluções digitais”. Por isso, hoje em dia já “oferecemos uma solução integrada desde o diagnóstico até ao tratamento, passando pela planificação”.

Caminho semelhante segue a Nobel Biocare. Daniel Zimmermann, senior manager public relations communications, argumenta que a “integração das tecnologias digitais na rotina da clínica ou do laboratório está a tornar-se cada vez mais importante”, daí a companhia possuir uma plataforma que “cobre tudo, desde o diagnóstico e plano de tratamento ao laboratório e integra todas as tecnologias e materiais que os clínicos precisam para o workflow do tratamento”.

Também Eduardo Anitua, coordenador científico da BTI, concorda que “o salto mais importante na última década foi a introdução do ciclo digital, mais concretamente da tecnologia CAD/CAM”. Não obstante, nem só do digital “vive o Homem’. Por outras palavras há outros marcos a distinguir no caminho evolutivo dos materiais e das técnicas em implantologia, nomeadamente “a utilização do carbono para reabilitações implantosuportadas totais híbridas”, indica Dárcio Fonseca, diretor-clínico da Beclinique,

Devemos abordar ainda a problemática da osteointegração na medida em que continua a ser um dos grandes desafios da implantologia. Neste sentido têm-se procurado melhorar as soluções existentes, bem como criar novas. Por exemplo Rui Fernandes, diretor-comercial da Sinusmax, aponta o surgimento de “um implante não maquinado, mas totalmente construído a laser”, cuja morfologia “constituída por micro e macro cavidades e poros interligados promovem a troca de fluídos e o desenvolvimento da vascularização, promovendo a colonização por células ósseas”. Para o diretor-comercial, esta técnica de fabrico constitui efetivamente uma “revolução na área da implantologia”. Por outro lado, Rui Fernandes destaca os equipamentos laser porque “permitem o uso de técnicas valiosíssimas em implantologia. A bioestimulação, antes e após a colocação de implantes, o uso do laser para exposição do parafuso de fecho sem sangramento, nas situações de peri-implantite e também na sua prevenção”, são exemplos das ajudas técnicas que o médico dentista tem hoje ao seu alcance.

Uma visão crítica

Mas concentremo-nos mais especificamente no campo dos (novos) materiais. Dárcio Fonseca aponta as barras de carbono, que têm a vantagem de “serem bastante mais leves do que o titânio e o peek”. O médico dentista revela que, neste momento, “temos fresado barras entre 1,5g a 2,5g e mantêm uma alta resistência”.

Para João Pimenta, fundador da Associação Portuguesa de Implantologia e de Biomateriais, “não há nenhum material a destacar em especial”. Contudo, o médico dentista indica: “esperemos que os preconceitos e as normas europeias façam com que as proteínas morfogenéticas sejam rapidamente lançadas no mercado, a bem dos clínicos e dos pacientes”.

Atualmente, existe já uma grande quantidade de biomateriais no mercado aplicados à cirurgia oral e à implantologia, que têm como finalidade acelerar e melhorar o processo de integração do implante. No entanto, como refere Miguel Stanley, “como clínicos devemos ter uma visão crítica em relação a cada um destes materiais e perceber biologicamente de que modo estes interagem com o nosso organismo, para perceber de que forma resultam realmente benéficos”. Nestes últimos quatro anos, o médico dentista tem trabalhado com platelet rich fibrin (PRF) ou fibrina rica em plaquetas, um material 100% biológico e autólogo. “Considero este material importante nas minhas cirurgias, uma vez que aumenta e acelera os níveis de cicatrização dos tecidos moles”. Miguel Stanley revela mesmo que, neste último ano, percebeu que “se prepararmos o paciente antes da cirurgia com a suplementação necessária conseguimos não só melhorar a qualidade do sangue utilizado para fabricar o PRF, e que irá melhorar a qualidade da nossa cirurgia, como aumentamos a taxa de sucesso dos implantes dentários”.

Biological dentistry

Continuando na senda do biológico, Dárcio Fonseca reforça que tem surgido “uma crescente preocupação de preservação dos tecidos, com os tratamentos nas diversas áreas da Medicina Dentária a serem cada vez mais superconservadores, pouco invasivos, biomiméticos e menos dolorosos”. Neste sentido, o médico dentista destaca “as partial extraction therapies (PET) como um grande avanço e mudança de paradigma na implantologia e cirurgia oral”, sendo que o princípio é “preservar o ligamento periodontal para de alguma forma evitar a reabsorção óssea após perda de uma peça dentária”.

Na White Clinic pratica-se mesmo uma biological dentistry há já alguns anos. De acordo com Miguel Stanley, “umas das principais intervenções são problemas de cavitação criadas por extrações que cicatrizam por segunda intenção: a cavitação osteonecrótica”. O diretor-clínico explica que este tipo de lesão, frequentemente associada à extração dos terceiros molares, “ocorre pelo trauma causado durante o procedimento de extração do dente ou por não ter sido eliminado na totalidade a origem da infeção associada ao dente”.

Não obstante, esta lesão também pode ser causada por “restos alimentares em conjunto com bactérias que entram no orifício, deixado pela extração nos dias seguintes, e que ficam dentro do osso criando uma zona de cavitação”. São lesões silenciosas que podem levar a um mau estar geral do paciente muitas vezes inexplicado. “A presença destas lesões pode contribuir para um défice do sistema imunitário”, releva Miguel Stanley. “A medicina dentária convencional não analisa estes problemas”. Para se conseguir evitar esta situação, “os meios de diagnóstico e desinfeção, bem como a aplicação de materiais regeneradores biocompatíveis, são essenciais para a cura e recuperação dos nossos pacientes, e que muitas vezes acabam por tornar a extração mais dispendiosa”. No entanto, segundo o médico dentista, a prevenção é sempre a melhor opção. “Fazendo um balanço do custo-benefício, o paciente deve sempre optar pelo que é melhor para a sua saúde, e neste caso a prevenção de uma possível infeção deve ser a primeira escolha”.

João Pimenta relembra que “durante muito tempo o marketing foi mais importante que a ciência. Lançaram-se produtos sem lógica biológica e o aparecimento das peri-implantites disparou”. Neste sentido, a biologia e a fisiologia “são intemporais e há princípios médicos a respeitar”. De acordo com João Pimenta, “os médicos dentistas conscientes sabem que o periodonto e o osso reagem de forma diferente e que as bases fundamentais médicas têm de ser respeitadas”. Porém, “não basta os implantologistas serem bons técnicos Têm de ser bons médicos dentistas aplicando princípios médicos”.

Perspetiva da Indústria

O futuro é digital

Olhando para o futuro, Eduardo Anitua, coordenador científico da BTI, destaca “o desenvolvimento de todo o ciclo digital”. Se tivermos em conta que a “utilização sistemática dos scanners intraorais está bastante longe de ocupar uma posição preferencial nas consultas dos médicos dentistas, considero que os desenvolvimentos nesta área representarão um grande avanço na próxima década”.

Também Dorothee Taurel aponta que a era digital “mudou a nossa maneira de entender a implantologia”. Daí que o futuro da Dentsply Sirona passa por “uma medicina dentária completamente digital, integrando de um modo fácil os diferentes processos de tratamento”.

Quanto à Nobel Biocare, Daniel Zimmermann afirma que “planeamos sempre a longo prazo, por isso durante os próximos seis a doze meses vamos apresentar um número de inovações revolucionárias que têm o potencial de assinalarem um ponto de viragem”.

 

 

Titânio ou cerâmica?

– “A seleção do material de reabilitação é de extrema importância e
baseio a minha escolha sempre na pessoa que vou reabilitar. Não há uma
preferência, cada caso é um caso. Há que fazer uma correta história
clínica e perceber os hábitos e motivações das pessoas que tratamos”.

Dárcio Fonseca

– “No atual estado de conhecimento, o titânio e as ligas de titânio são biocompatíveis e muito resistentes e permitem a realização de conexões cónica, tipo cone-morse, com todas as vantagens de estabilidade e biológicas daí inerentes. Os implantes de cerâmica poderão, com o desenvolvimento da tecnologia e do tratamento de superfícies, vir a ocupar um lugar importante na implantologia. No entanto, os preços também têm de vir a ser diferentes… Mas esta questão deve ser respondida por quem tenha uma experiência nos dois tipos de implantes. A que eu tenho com implantes cerâmicos (que é pequena) é francamente má. Às vezes nas radiografias parecem que os implantes estão integrados, com um contacto íntimo osso-implante, e o que existe é uma fibrointegração. Acredito que o panorama tenha mudado com o desenvolvimento das superfícies. Mas pergunto: é possível um efeito cone-morse entre duas superfícies cerâmicas? Quem souber que me responda…”

João Pimenta

– “É uma belíssima discussão, tenho andado a acompanhar a evolução dos implantes de cerâmica que são realmente uma ferramenta importante no arsenal da implantologia. O meu percurso tem sido sempre feito com a utilização de implantes em titânio e, obviamente, na importância do tipo e qualidades das suas superfícies. Não obstante, penso que a cerâmica tem notáveis qualidades biológicas”.

Miguel Stanley

 

Titânio e cerâmica

Vantagens e Desvantagens

Para Miguel Stanley, a principal desvantagem da cerâmica é a espessura dos implantes, “o que se torna difícil em casos de tábua óssea fina e também na própria parte protética”. No entanto, “tenho assistido a incríveis avanços em relação a esta característica e penso que, em breve, o mercado irá responder com muito boas opções protéticas em implantes de cerâmica”. É importante ter em conta, contudo, que “se o organismo não estiver com os níveis de vitamina D3 adequados, bem como os níveis de colesterol controlados, os implantes de cerâmica têm mais dificuldade em se integrarem, pois a técnica de integração é diferente de um material para o outro”, alerta.

No âmbito das vantagens do titânio em relação à cerâmica, temos “o fator estético quando há exposição do corpo do implante, pois a sua cor é mais natural e esta característica tem alguma relevância quando o biótipo na zona estética é fino”. Em relação aos benefícios do titânio, um deles é o leque de opções existentes no mercado. Outros são “as incríveis vantagens protéticas e também o custo que, dependendo da marca, podem ser adequadas ao bolso de cada clínica pois os implantes de cerâmica, neste momento, ainda são significativamente mais dispendiosos”, indica Miguel Stanley. Relativamente aos contras do titânio “temos pessoas que apresentam alergia ao metal e algumas superfícies, quando expostas na cavidade oral, o que cria realmente muitos problemas peri-implantares”, acrescenta.

 

Implantes ‘à medida’

“Espera-nos seguramente uma constante inovação, pois as marcas têm como desígnio a pesquisa incansável de novas técnicas e novos produtos que respondam às exigências da nossa área que é tão dinâmica e exigente”, afirma Rui Fernandes.

No que toca às técnicas, João Pimenta crê “nos implantes ‘à medida’ e que além das guias cirúrgicas, os fabricantes fornecerão implantes com as dimensões certas para cada caso”. Porém, o médico dentista acredita no “desenvolvimento de superfícies bioativas verdadeiras e bactericidas” e que a tecnologia “tornará a nossa vida ‘mais fácil’”.

Dárcio Fonseca, por seu turno, destaca a “utilização de fibrina rica em fatores de crescimento, ou fibrina leucoplaquetária, para melhorar cicatrização dos tecidos”.

Mas mais do que falar, quando se espreita o futuro e falamos em técnicas deve-se falar sobretudo, segundo Miguel Stanley, em “tecnologias e software dedicado ao planeamento de casos e em combinação com fresagem e impressão 3D, que cada vez mais vão eliminar o risco em cirurgias complexas”.  Não obstante, o médico dentista vê com bons olhos o facto de “a técnica de socket shield ou partial extraction therapies estarem a ganhar cada vez mais adeptos a nível mundial”, sendo que no seu caso já tem casos com follow-ups de quatro anos. “Quando bem executados trazem enormes vantagens na zona estética. Aqui, sempre complementando com elementos auxiliares como a ozonoterapia, o low level laser therapy e, muito importante, o PRF”.