Saúde Oral

Perda dentária, um alerta clínico para a hipertensão na menopausa

A perda dentária pode ser um sinal de alerta clínico para a possibilidade de desenvolvimento de hipertensão arterial na população feminina após a menopausa. A SAÚDE ORAL falou com Fernando Gomes da Silva sobre o tema.

Um estudo publicado no American Journal of Hypertension sugere que as mulheres pós-menopáusicas com perda dentária apresentam um risco mais elevado de vir a desenvolver hipertensão arterial (HTA). Intitulado Association of Periodontal Disease and Edentulism With Hypertension Risk in Postmenopausal Women (Associação da Doença Periodontal e Edentulismo com o Risco de HTA em Mulheres Pós-menopáusicas), este estudo, que envolveu 36 692 mulheres do Women’s Health Initiative-Observational Study, EUA, estabelece “uma relação direta entre a perda de dentes e o aumento da HTA em mulheres pós-menopausa, com um risco acrescido de 20% e principalmente em idades mais jovens e com menor Índice da Massa Corporal (IMC)”, refere Fernando Gomes da Silva, diretor clínico das clínicas Inface.

Sinal clínico de alerta

“Com a perda de dentes, as pessoas têm tendência a ingerir alimentos mais macios e processados, e estas mudanças nos padrões alimentares podem ser associadas a um maior risco de HTA”, afirma o especialista, explicando as razões que justificam este quadro. “A perda de peças dentárias pode servir, assim, como sinal clínico de alerta para o aumento do risco de HTA”, frisa.

Para inverter este cenário e reduzir o risco de HTA, a melhoria da higiene oral, e medidas preventivas, como a monitorização mais frequente da pressão arterial, a atividade física, a modificação da dieta alimentar e a perda de peso, são providências a considerar.

São vários os estudos que apontam para uma relação direta entre a HTA e saúde oral. “Um estudo datado de 2014 do American College of Cardiology – refere o mesmo médico dentista – “investigou a influência da doença periodontal na pressão arterial em pacientes hipertensos e os resultados demonstram que a pressão arterial era mais elevada em pacientes sujeitos a tratamento para a HTA com periodontite do que em pacientes não sujeitos a qualquer tratamento. Quanto maior a severidade da periodontite, maior o fracasso do tratamento.”

Fernando Gomes da Silva

Além da HTA, a perda de dentes está associada a um risco acrescido de doenças cardiovasculares, AVC e demência, entre outras, tendo também “influência direta no sistema digestivo, dado que uma deficiente mastigação vai levar a problemas gástricos com alterações significativas na saúde”, recorda o diretor clínico, explicando que “os alimentos mal mastigados provocam problemas ao nível do estômago com refluxo gastroesofágico e azia, condicionando também a posterior absorção de nutrientes, situação que provoca alterações no metabolismo de um modo geral, com um claro prejuízo para o paciente”.

Não menos importante, há que considerar ainda a componente estética, uma vez que “a perda de dentes tem consequências importantes, como a depressão de lábios e da região perioral, alterações fonéticas e de dicção – os pacientes podem ficar condicionados e inibidos de falar ou sorrir de uma forma natural, influenciando negativamente a sua vida social”, salienta o especialista.

Partilha necessária

Apesar da relação da perda dentária com a HTA e outros problemas ou complicações de saúde, não existe “comunicação predefinida e estabelecida entre as diversas especialidades médicas e a medicina dentária”, diz Fernando Gomes da Silva. “É comum o médico dentista pedir informação ao médico assistente sobre o estado de saúde atual de pacientes ou acerca da identificação de alguns medicamentos, principalmente em situações pouco claras na história clínica”, afirma, revelando que “o contrário é menos comum e a importância ou o alerta para uma boa saúde oral é muitas vezes descurada pelos médicos de família ou de especialidade, com repercussões nas patologias existentes”.

Como cada vez existem mais pacientes polimedicados para múltiplas e diversas doenças, “seria importante a criação de equipas multidisciplinares, com comunicação bidirecional, em que o médico dentista tenha um papel fundamental na prevenção e tratamento”.

Para Fernando Gomes da Silva, “as doenças oncológicas e sistémicas, problemas cardiovasculares e adquiridos têm uma relação direta com o estado da saúde oral do paciente. Muitos deles deveriam efetuar uma observação cuidada e tratamentos dentários prévios antes mesmo de iniciarem o seu tratamento”. E acrescenta: “Esta realidade é prejudicial e importante em problemas de HTA, mas também se enquadra nas demais patologias descritas anteriormente. A partilha de informação entre as diversas especialidades é determinante no sucesso do tratamento e deveria ser mais efetiva. É fundamental a criação de programas de saúde pública apropriados para mulheres na menopausa ou após menopausa a fim de garantir uma vida pós reprodutiva saudável e adequada”, sublinha o médico dentista.

Números preocupantes

No que toca à higiene e saúde oral em Portugal, os números deixam bastante a desejar, de acordo com os dados do mais recente Barómetro Nacional da Saúde Oral, da Ordem dos Médicos Dentistas. Apesar de 92,6% dos inquiridos afirmarem escovar os dentes com frequência – “as mulheres são quem escova os dentes e usa fio dentário e elixir com mais frequência”, lê-se no documento –, mais de 30% dos portugueses revelam que nunca vai ao médico dentista ou apenas vai em caso de urgência e 41,6% não visita o médico dentista há mais de um ano. Para o diretor clínico das clínicas Inface, “são vários os motivos para que tal aconteça, desde a falta de condições financeiras à falta de necessidade ou ausência de problemas com dentes”.

Outro aspeto importante é a falta de visitas regulares ao médico dentista. Apenas 29,7% marca uma consulta anual e 13,3% só marca quando o seu médico dentista recomenda. Porém, deve salientar-se a elevada percentagem de pessoas com falta de dentes naturais – 70% da população portuguesa tem falta de dentes naturais e desses 35% já perdeu seis ou mais dentes. Em termos gerais, conclui o especialista, são números preocupantes. “Com o aumento da esperança média de vida e consequente envelhecimento da população, a tendência é uma subida proporcional na percentagem de perdas de dentes naturais na população.

É fundamental a prevenção da saúde oral na educação em idade escolar. Os cheques dentistas nesse aspeto vieram facilitar o acesso de crianças e jovens a cuidados básicos na saúde oral, muitos deles sem capacidade financeira para tal.”

Além disso, insiste o especialista, “a visita ao médico dentista deve ser espontânea, regular e não apenas em caso de urgência, normalmente associada a uma situação de dor, tal como o estudo indica”.

Riscos associados à saúde oral nas mulheres pós-menopáusicas

“As mulheres depois da menopausa estão sujeitas a diversas alterações metabólicas importantes com consequências na saúde oral, alterações estas que se fazem sentir em patologias sistémicas e vasculares”, explica Fernando Gomes da Silva.

Desconforto oral com boca seca, perceção alterada e sensação de boca queimada são consequências destas doenças sistémicas ou da toma de medicamentos para as mesmas, adianta o especialista, referindo haver estudos que “indicam uma diminuição da secreção salivar, com alterações na viscosidade e no pH da saliva total com relação direta nas alterações orais, desenvolvendo distúrbios na mucosa oral, sendo a xerostomia um achado recorrente”.

Segundo o médico dentista, há ainda que considerar a “diminuição de excreção de estrogénios, que vai influenciar o turnover ósseo e potenciar a osteoporose” e os “medicamentos de eleição utilizados no tratamento desta doença, que têm um efeito nefasto na cavidade oral e podem provocar ou aumentar a osteonecrose óssea, denominada osteonecrose dos maxilares”.