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Investigação

E se os estudantes de medicina dentária recebessem formação para trabalhar de forma ergonómica?

impacto das cadeiras ergonómicas na postura dos dentistas

Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina Dentária, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e do laboratório de Biomecânica do Porto está a realizar um estudo em que analisa o impacto das cadeiras ergonómicas na postura dos médicos-dentistas durante a sua prática clínica. A SAÚDE ORAL falou com Vanessa Silva, 33 anos, médica dentista a terminar o doutoramento em Segurança e Saúde Ocupacionais na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. A coordenadora do estudo acredita que os estudantes de Medicina Dentária deveriam receber formação “para trabalhar de uma forma ergonómica” e adquirir “bons hábitos posturais.”

Como surgiu a ideia de avançar para a investigação sobre as lesões músculo-esqueléticas em médicos dentistas?

Após sete anos a exercer medicina dentária percebi que é uma atividade que exige elevada concentração, destreza e precisão de movimentos. É característica comum a trabalhos dependentes da visão, visto que a exigência visual da tarefa requer a adoção de posturas fixas por longos períodos de tempo. Ao longo deste tempo começou a ser comum adotar más posturas e padecer de dores nas costas e no pescoço. Verifiquei também que esta situação é transversal no universo da medicina dentária, afetando tanto colegas mais novos, como colegas mais experientes.

Assim, surgiu a ideia de realizar uma análise biomecânica com recurso a sensores de movimento da atividade clinica dentária. Estes sensores são uma ferramenta de medição cinemática que avalia todos os segmentos corporais, permitindo uma análise biomecânica rigorosa de cada região corporal durante os movimentos realizados. Com este estudo queremos perceber se existem diferenças posturais quando uma cadeira convencional é substituída por uma ergonómica.

O que descobriu com a sua investigação?

Com a minha investigação percebi que não são só os médicos dentistas a sentir dor e incapacidade. Infelizmente os estudantes de medicina dentária já no início da sua atividade revelam sintomas, como está descrito no artigo ‘Musculoskeletal pain and physical workload among dental students’, que foi publicado em 2016 no International Symposium on Occupational Safety and Hygiene.

No que diz respeito à análise biomecânica, já iniciei o processamento dos dados, mas ainda sem resultados definitivos devido à complexidade e quantidade de informação recolhida. Nesta primeira fase já se percebeu que o trabalho do dentista é muito variável e depende da formação/educação postural de cada um, pois cada profissional tem uma abordagem distinta e característica para a mesma tarefa clínica.

De acordo com os dados que investigou, a maioria dos profissionais sofre deste problema? Porquê?

A má postura frequentemente assumida pelo dentista durante a sua atividade clínica pode causar desconforto e dor em determinadas regiões do corpo humano, que posteriormente poderão evoluir para doenças no sistema músculo-esquelético e nervoso, devido a uma excessiva compressão e esforço dos tecidos.

Segundo estudos epidemiológicos, a prevalência das lesões músculo-esqueléticas nos profissionais de medicina dentária tem vindo a aumentar. Estima-se que varie entre 64% e 93% a nível mundial. Dor e desconforto surgem devido a uma excessiva compressão e esforço dos tecidos músculo-esqueléticos e são mais prevalentes na área do pescoço, costas e ombros.

Os sintomas músculo-esqueléticos em dentistas são consequência da carga de trabalho subjacente à prática da clínica em medicina dentária. Uma postura com flexão do tronco, acompanhada de flexão lateral e rotação associada a tarefas estáticas prolongadas são fatores predisponentes para a ocorrência de sintomas na zona inferior das costas.

Quais as soluções para resolver o problema? As cadeiras ergonómicas ajudam?

As cadeiras ergonómicas são uma das soluções para adoção de uma melhor postura, na medida em que promovem uma rotação anterior da pélvis que permite que a coluna vertebral fique com a curvatura adequada na zona lombar. No entanto é fundamental identificar todos os fatores de risco que podem contribuir para o aparecimento destas lesões, nomeadamente as condições laborais inadequadas, assim como fatores psicossociais, além da exposição aos fatores biomecânicos.

O que pretende alcançar com o estudo?

O estudo cinemático da atividade clínica do médico dentista é importante para a identificação dos fatores de risco biomecânicos envolvidos e para a implementação de estratégias preventivas adequadas. É fundamental que o contexto de trabalho esteja adaptado ao médico dentista de forma a promover uma boa postura e, para isso, devem existir equipamentos que permitam ajuste antropométrico, boa acessibilidade dos materiais e instrumentos de acordo com cada procedimento clínico e uma iluminação suficiente.

O principal objetivo do meu estudo, após análise e identificação de todas as variáveis que estão implicadas no desenvolvimento de sintomas músculo-esqueléticos, passa por criar soluções para prevenir o aparecimento destes sintomas que inevitavelmente acarretam consequências socioeconómicas para o médico dentista.

Quais os seus projetos para o futuro?

Um dos meus projetos para o futuro é poder exercer medicina dentária de uma forma mais saudável seja com recurso a equipamentos ergonómicos ou até mesmo desenvolver e criar um dispositivo que melhore a postura durante o trabalho, porque felizmente ainda há muita tecnologia para explorar.

Acho que também seria muito importante que a nossa profissão tivesse formação na área de Ergonomia Dentária. Os médicos dentistas precisam de instrução e treino em princípios de ergonomia assim como equipamento dentário mais funcional. Como medida de prevenção os estudantes deveriam também ser instruídos para trabalhar de uma forma ergonómica e adquirir desde o início da sua atividade profissional bons hábitos posturais.

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