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Dentistas portugueses pelo mundo

“Os dentistas formados em Portugal têm uma incomparável preparação universitária generalista”

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Daniel Vaz de Sousa

Médico dentista com prática exclusiva em endodontia e docente na mesma área no King’s College London, no Reino Unido

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

A minha área de especialidade é a endodontia, sendo especialista registado no General Dental Council em endodontia. Desde os longínquos tempos de faculdade que sempre tive um particular interesse pela endodontia, interesse esse que se tornou numa paixão e que afortunadamente, com o passar do tempo, tive a felicidade de me especializar e de dedicar a minha prática exclusivamente à endodontia.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual é o seu cargo?

Desde os tenros anos da minha licenciatura que sempre tive interesse em explorar outras culturas. Durante a faculdade tive a oportunidade de fazer um programa Erasmus na Hungria em 2005, e pouco depois em 2006, aquando da conclusão do meu curso, aventurei-me para o Reino Unido. Atualmente sou membro do conselho da British Endodontic Society (BES), cargo que acarreta a representação do Reino Unido na European Society of Endodontology (ESE); sou docente exclusivo em endodontia no King’s College London e exerço também funções em duas clínicas, Blue Sky Dental, em Chelmsford, Essex, e Charing Cross Practice, em Norwich, Norfolk.

O que é que o fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?

Além de uma inata curiosidade de outras realidades, o meu projeto pessoal de vida passava por me expor a outras experiências e éticas profissionais.

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz?

Apesar de normativamente um dia de trabalho no Reino Unido ser das 9 h às 17 h, a minha atividade diária nunca termina dentro desse horário. Num dia em que não tenha que lecionar, inicio a minha rotina logo pelas 8h15. Após o planeamento clínico com toda a equipa, a atividade caracteriza-se geralmente pelo tratamento de casos referenciados complexos que rotineiramente envolvem microcirurgia endodôntica. O intervalo de almoço e a hora imediatamente a seguir à laboração clínica são geralmente ocupados com tarefas administrativas e a contactar colegas e pacientes. Frequentemente, depois do essencial tempo em família e do jantar, invisto um pouco do meu serão a auxiliar alunos e a desempenhar tarefas para as sociedades em que estou envolvido. Resumidamente, muito ocupado, mas muito realizado!

Tem trabalhado sobretudo no Reino Unido. Que diferenças encontrou na prática da medicina dentária? 

Já me encontro no Reino Unido há bem mais de uma década, aquilo que mais me fascina é a organização e a existência de uma real progressão da carreira na área de que se gosta. Clinicamente há também algumas diferenças, mas acho que os dentistas formados em Portugal têm uma incomparável preparação universitária generalista, independentemente de esta ser uma formação obtida no setor privado ou público.

Equaciona regressar a Portugal?

Já me encontro há bastante tempo fora do “nosso” Portugal, confesso que será difícil regressar durante a minha vida profissional ativa, sobretudo por já ter constituído família por cá, mas se houver algum projeto interessante, poderei sem dúvida considerar.

Se sim, qual o trabalho/projeto que gostaria de desenvolver?

Adoro estar envolvido em educação e investigação de ponta. Mas também em projetos de medicina dentária clínica ambiciosa e de qualidade. Se a colaboração ideal surgir, quem serei eu para recusar?

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Olhando para o meu passado recente, por forma a destacarem-se num mercado de trabalho bastante competitivo, recomendo a escolha de uma licenciatura de qualidade em Portugal ou no estrangeiro e tentar adquirir o máximo de competência clínica após a licenciatura. Anos mais tarde, se se proporcionar, progredir nos estudos e porventura especializar numa área de que se goste ou apenas singrar como um tão essencial médico dentista generalista. No entanto, o importante é nunca parar de absorver conhecimento e prosseguir na carreira.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Em Portugal vejo a medicina dentária com bastante preocupação, sobretudo para os mais jovens. Quando parti para o Reino Unido já havia alguma dificuldade em encontrar boas oportunidades de emprego. Desde a minha formatura em 2006 que o número de médicos dentistas mais do que duplicou e continuam-se a formar incontrolavelmente demasiados profissionais para a dimensão de um país como Portugal. Considero que na Europa o mercado já apresenta alguns sinais de estagnação, sobretudo no Sul. Mas, pelo mundo fora, continua a haver imensos desafios e oportunidades para dentistas, particularmente na América e Oceânia, para todos aqueles que desejem partir e descobrir novas realidades.

Artigo publicado originalmente na edição n.º 133 da revista SAÚDE ORAL, de julho-agosto de 2020.

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