Investigação

Opinião: a defesa do CPC na redução da carga viral de SARS-CoV-2

Como é bem conhecido, a pandemia de covid-19 é causada pelo coronavírus SARS-CoV-2.

– Foi reportado que o ACE2 é o principal recetor celular hospedeiro do SARS-CoV-2 e desempenha um papel crucial na entrada do vírus na célula para causar a infeção final. A língua (bem como o intestino, coração, rim e pulmão) é um órgão com um grande número de ACE2, Xuetal, International Journal of Oral Science (2020) 12:8.

– Parece que nos primeiros dez dias, em que o doente está assintomático e altamente contagioso, o vírus se acumula principalmente ao nível naso/oral/faríngeo, passando depois para os pulmões (Nature online 2020 https://doi.org/10.1038/s41586-020-2196-x (2020).

– A possibilidade de transmissão de saliva e aerossolização de pacientes infetados tem especial relevância no campo dentário (International Journal of Oral Science 2020; 12:9).

A carga viral do coronavírus está relacionada com a gravidade da covid-19 (Lancet Infect Dis 2020, https://doi.org/10.1016/S1473-3099(20)30232-2). Neste sentido, postula-se que, se a carga patogénica na boca for reduzida, a quantidade de vírus que pode ser expelida pelo transportador é temporariamente reduzida, reduzindo assim o risco de esta infetar outras pessoas.

O cloreto de cetilpiridínio (CPC), um composto antissético quaternário de amónio amplamente conhecido, in vitro, é capaz de eliminar os vírus da gripe A H3N2, da gripe A H1N1, da gripe B e de um vírus da gripe A resistente ao oseltamivir. A ação do CPC ocorre ao nível do revestimento lipídico do vírus, desorganizando-o. Por estas razões, os autores observam que o CPC poderá provavelmente ter um efeito sobre outros vírus revestidos, como o RSV (Respiratory Syncytial Virus), a parainfluenza e o coronavírus (Pathogens and Immunity. 2017;2(2):253-69).

Num ensaio clínico piloto, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, foi avaliado um produto formulado e inalado com CPC para prevenir o aparecimento de infeções do trato respiratório superior, causadas pelo vírus da gripe, vírus respiratório sincítico, metapneumovírus humano, rinovírus e adenovírus. Neste projeto-piloto, observou-se que, nos doentes tratados, sofreram infecções virais com menor gravidade e menor duração dos episódios virais. (BMC Infectious Diseases; 2017;17(74):1-8).

A clorexidina é um antisséptico e desinfetante biguanida com ação contra uma vasta gama de bactérias gram-positivas e gram-negativas, anaeróbias, aeróbias e leveduras opcionais.

Uma meta-análise recente avaliou a eficácia dos bochechos pré-processados na redução do número de microrganismos disseminados por meio do aerossol gerado por procedimentos dentários, demonstrou que os bochechos com clorexidina e cloreto de cetilpiridínio reduziram significativamente o número de unidades formadoras de colónias nos aerossóis dentários. (JADA 2019:150(12):1015-1026)

Com base nestes dados, os protocolos de cuidados na clínica dentária preparados pelas faculdades de dentistas da Lombardia (Itália), Hong-Kong, Holanda e Espanha, recomendam que o paciente seja enxaguado com uma lavagem com clorexidina e/ou CPC antes de se fazer a consulta.

Na Dentaid, acreditamos que o CPC não cura ou impede uma pessoa de ser infetada, mas os dados mostram que poderia desempenhar um papel importante na redução da carga viral na boca e, portanto, na redução da capacidade da doença se propagar de doentes infetados para pessoas saudáveis que entrem em contacto com as partículas espalhadas ou aerossolizadas pelos doentes.

Devido ao exposto, a nossa sugestão é que efetue uma pré-lavagem dos seus pacientes com clorexidina (0.5%-0.12%) + CPC (0,01% – 1%) antes de qualquer tratamento dentário, a fim de reduzir a carga infeciosa.

*Joan Gispert é diretor de R&D&I do Dentaid Research Center

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