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Opinião

O novo mundo Instadentário e o excesso de confiança

Likes, likes, likes. Na Internet, se a Bitcoin é moeda os likes são valor. Mas será que quem mais likes obtém, mais competente é? Há quem publique para o público em geral e quem o faça para se mostrar aos colegas, mas uma coisa é certa: para se expor nos ‘Instas’ da vida é preciso ter confiança! E como tudo é fatal só dependendo da dose, a confiança em excesso também mata (ou mói)! Por isso, escrevo sobre o efeito Dunning-Kruger, que, além de ser um bom nome para dar a esta rubrica um toque de intelectualidade, é um viés cognitivo que prejudica a evolução técnica e/ou a tomada de decisão.

Há uns quantos anos, Aristóteles disse: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.” Esta frase resume quase por inteiro o viés Dunning-Kruger, que se verifica quando um indivíduo efetua ineficazmente uma tarefa enquanto sobrestima a sua capacidade e conhecimentos nessa área. O nosso colega, o doutor Pynadath George, e a sua equipa, conseguiram observar este efeito em médicos dentistas.

Cortesia doutor Pynadath George

Por questionário, avaliaram a confiança dos colegas nos procedimentos de elevação do seio maxilar e em implantes zigomáticos. O que mostraram os dados? Os colegas com 0-5 anos de experiência demonstram mais confiança que colegas com 6-10 anos de experiência e, no caso dos implantes zigomáticos, até mais que os colegas com 11-20 anos de experiência.

Então, se a média de idades dos médicos dentistas é relativamente jovem, é de se prever um excesso de confiança. O que é que isso implica?

Quem se deixa afetar por este viés cognitivo de nome exótico não aprende com os seus próprios erros por ser um mau autoavaliador, mas é também a pessoa que mais se faz notar e, então, numa equipa multidisciplinar, acaba por ser quem toma as decisões. Porquê? Porque há uma diferença entre a competência percebida (autoavaliação) e competência real (pelos pares).

Mas não deixe já de seguir aquele colega influencer, é que nestes casos isto é um problema duplo: além de não ser totalmente capaz, ele próprio não se apercebe disso! Este fenómeno acaba por proteger a nossa autoestima, tal como os likes que nos afagam o ego. Todos nós podemos sofrer este viés em determinadas tarefas. O nosso cérebro é preguiçoso e recorre a heurísticas para otimizar o esforço, porque questionarmo-nos a nós próprios custa tempo e energia! Quem gostaria de admitir que só tem talento para ver relva crescer? Pois…

Para se fugir a este loop de excesso de confiança, é preciso tomar consciência das próprias limitações, e isso só se consegue por mais formação e conhecimento. Gastar menos tempo nas redes e mais em webinars ou a ler, ou até mesmo a analisar registos dos procedimentos efetuados. Por outro lado, quem mais sabe e mais capaz é, mais duvida das suas próprias capacidades e entra no viés oposto, a síndrome do impostor; em que se acha pouco capaz e merecedor de crédito profissional.

Neste novo mundo dentário, é preciso ter cuidado com o que é viral…passando a piada.

Nota: Agradeço ao doutor Pynadath George pela cedência dos gráficos expostos no artigo e por me ter dado a conhecer o efeito Dunning-Kruger através da sua tese de doutoramento intitulada: What are the factors an implant dentist considers when restoring the extremely athrophic posterior maxilla with either a lateral sinus graft or with zygomatic implants? — George, Pynadath BDS, MFDS RCPS, Msc et al. The University of Edinburg, Scotland, UK

*Coluna de opinião publicada originalmente na edição de setembro/outubro de 2020 da SAÚDE ORAL.

 

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