DentalBizz 2019

Miguel Stanley: “Estou farto que deixem de pensar na saúde oral quando as pessoas têm doenças inflamatórias crónicas”

Miguel Stanley: “Estou farto que deixem de pensar na saúde oral quando as pessoas têm doenças inflamatórias crónicas”

No próximo dia 26 de junho, no DentalBizz, vamos poder ouvi-lo falar do impacto da tecnologia no desenho do ‘sorriso’. Em entrevista à SAÚDE ORAL, Miguel Stanley, médico dentista, revela-se “ansioso” pelo advento da tecnologia no setor da medicina dentária e diz que temos de deixar de ignorar a conexão entre os problemas da cavidade oral e a saúde em geral.

O que é que podemos esperar da sua apresentação no DentalBizz, no próximo dia 26 de junho?

A minha apresentação no DentalBizz não vai ser muito diferente das que tenho feito pelo mundo já há vários anos.

Como board member da Digital Dentistry Society, na qual sou o único português presente, sinto que tenho uma responsabilidade acrescida de ajudar colegas que procuram melhorar a sua prática diária com auxílio das novas tecnologias. Obviamente, o tempo que nos dão no palco nunca será suficiente para abordar todos os assuntos, mas espero conseguir mostrar alguns casos e contar algumas histórias, e explicar como é que nós integramos as tecnologias, como CBCT, scanners intraorais, impressoras 3D e fresadoras de última geração, no nosso workflow diário, e como certos programas e o auxílio da cloud podem realmente evitar problemas, diminuir o tempo de tratamento e aumentar a qualidade.

Obviamente, tudo o que tenho vindo a desenvolver nestes últimos anos tem sido para acelerar o tratamento, com grande foco no aumento da qualidade e na tentativa de diminuir os custos para a clínica e, consequentemente, para o paciente.

Dispomos de tecnologia ímpar na White Clinic e de uma equipa sénior e jovem interdisciplinar que realmente utiliza a tecnologia para melhorar a vida de todos envolvidos neste processo, desde a equipa até aos pacientes. Penso que conseguirei, desta forma, inspirar outros.

Quais têm sido os maiores benefícios do desenvolvimento e evolução da tecnologia no setor da medicina dentária?

A White Clinic investiu no seu primeiro CBCT digital em 2008, quando, de acordo com a Carestream Dental, nem 1% das clínicas na Europa tinham esta tecnologia. Foi aqui que realmente compreendi a avassaladora diferença de incluir tecnologia digital no nosso fluxo diário. Com o aparecimento das guias cirúrgicas digitais e dos scanners intraorais, que já integramos há mais de quatro anos, o nosso trabalho diário tomou de facto um rumo impressionante.

Tenho a felicidade de trabalhar com várias equipas de todo o mundo na nossa clínica, diariamente, e isto permite-nos fazer tratamentos incrivelmente complexos de uma forma muito fluída e simples.

Obviamente, o investimento é muito grande, mas, felizmente, a White Clinic tem a capacidade de o fazer e de ter, principalmente, uma equipa capaz de retirar 100% das tecnologias que permitem tratar mais pessoas em menos tempo, com muito maior eficácia e muito menor risco.

É conhecido por ser um dos maiores defensores da utilização de fotografia digital na prática clínica. Quais são as principais vantagens?

Começámos a utilizar a fotografia digital em 2004. Aliás, para ser mais preciso, em 1999 comprei câmaras intraorais digitais da Trophy, e ainda hoje, no nosso software, temos fotografias dos nossos pacientes com perto de 19 anos.

“Temos tecnologias incríveis que estão a emergir e a inteligência artificial terá um enorme papel no futuro da nossa profissão.”

Penso que a fotografia digital tem duas grandes vantagens: primeiro, o registo total do caso clínico para que não haja dúvidas sobre as melhorias conseguidas ao longo do tratamento. Isto ajuda em momentos de potencial stresse, quando os pacientes sentem que não houve melhorias e, de facto, com toda a documentação fotográfica conseguimos constatar os incríveis avanços. O facto de também usarmos Invisalign há mais de 16 anos faz com que sejamos obrigados a ter o registo fotográfico para podermos gerir estes casos.

Além disso, destaco a importância na comunicação de tratamentos complexos. Temos mais de três terabytes de casos documentados ao longo dos últimos 16 anos, que nos permitem demonstrar a qualquer paciente que nos procure casos semelhantes, ajudando desta forma a mitigar o receio de que os casos que nos são apresentados são únicos, demonstrando assim que, depois de tantos anos a resolver casos complexos, há pouca coisa que não tenhamos visto.

Penso que a fotografia digital devia ser mais utilizada, porque permite ultrapassar barreiras e deixamos de poder esconder problemas, o que aumenta a qualidade dos tratamentos, uma vez que obriga os dentistas a darem sempre o seu melhor. Reforço ainda que não utilizamos Photoshop na White Clinic, nem temos qualquer tipo de software para melhorar a qualidade fotográfica.

Na série que protagonizou na National Geographic tivemos uma pequena amostra daquilo que será o ‘futuro do sorriso’. Como será, na sua opinião, o futuro da medicina dentária?  

Tenho o maior prazer de ter sido convidado pela American Dental Association e pela FDI (World Dental Federation) para ser keynote em setembro, em São Francisco, nos EUA, para falar precisamente sobre este tema – ‘O Futuro da Medicina Dentária’ – e é uma grande honra e uma enorme responsabilidade, porque estas palestras são gravadas e partilhadas um pouco por todo o mundo. Claro que o que fiz na National Geographic teve um grande impacto e o feedback tem sido incrivelmente positivo, e penso que toda a minha carreira foi pautada pela ética e responsabilidade social e, obviamente, tendo sempre em conta a importância que a medicina dentária tem na saúde geral.

Penso que existe ainda uma enorme desconexão entre a medicina e a medicina dentária, e eu, pessoalmente, estou farto que deixem de pensar na saúde oral quando as pessoas têm doenças inflamatórias crónicas, e penso que a sociedade tem de mudar a sua mentalidade e os médicos e clínicos gerais têm de mudar a sua atitude perante problemas da cavidade oral e problemas da saúde geral. Está mais do que provado que existe uma correlação direta entre as duas.

Acredito que com uma plataforma como a National Geographic mais programas virão. Vou utilizar sempre a minha voz para quebrar esta divisão. Também este ano, em novembro, serei o host de um encontro muito importante em Vancouver, promovido pelo Aurum Group, onde algumas das mentes mais brilhantes da medicina dentária e do negócio da saúde oral mundiais estarão presentes, e o foco mais importante será exatamente esse – demonstrar a importância de conectar a saúde oral com a saúde geral.

Além disso, temos tecnologias incríveis que estão a emergir e a inteligência artificial terá um enorme papel no futuro da nossa profissão. Estou ansioso para que isso aconteça, pois irá eliminar a má prática e longe ficarão os dias em que um dentista pode fazer coisas menos éticas para ganhar dinheiro. Com as tecnologias digitais e a cloud, qualquer paciente vai conseguir perceber se foi bem ou mal tratado e com tecnologias, como o blockchain, a controlar todo o histórico de qualquer tipo de material,  os pacientes conseguirão ver se os materiais que lhes foram colocados em boca são ou não aquilo que lhes foi prometido. Acho que isso vai ser muito interessante e é muito importante que as pessoas estejam preparadas para isso!

Os Prémios Saúde Oral celebram este ano o seu 10.º aniversário. Qual é a importância desta iniciativa para o setor?

Desconheço quais os critérios de seleção, portanto não posso comentar. Mas, para mim, os prémios que realmente interessam são a felicidade da minha equipa e dos meus pacientes.