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Medicina Dentária Baseada na Evidência: Nova ferramenta para prática clínica

Com o intuito de fornecer ao médico dentista os conhecimentos básicos para poder responder a questões clínicas segundo a metodologia da Medicina Dentária Baseada na Evidência (MDBE), ao longo do dia, os 62 participantes, oriundos de vários países, tiveram a oportunidade de perceber os princípios básicos desta disciplina. Os oradores do I Curso de Introdução à Medicina Dentária Baseada na Evidência explicaram estes mesmos princípios, que passam por «formulação de questões clínicas, procura da evidência científica em diversos tipos de bases de dados, avaliação crítica da evidência seleccionada e implementação na prática clínica diária», conforme o texto da mensagem de boas-vindas.

De acordo com António Duarte Mata, presidente da comissão organizadora, «o desenvolvimento ímpar a que a profissão tem assistido nas últimas duas décadas é presentemente responsável pelo aparecimento quase diário de novas técnicas, materiais e substâncias para intervenção em diagnóstico ou terapêutica, cujos custos e benefícios o médico dentista é permanentemente chamado a avaliar». Daí que seja nesse contexto, de necessidade «premente de procura pela evidência científica de melhor qualidade, da sua integração com a expertise clínica, considerando os interesses dos pacientes, que se define a MDBE, enquanto paradigma essencial para a harmonização qualitativa da prática clínica actual».

No fundo, este é «um novo instrumento na prática clínica. Portanto, é uma metodologia de procura de resposta a questões médicas», esclareceu. E por que motivo assume este novo método tanta importância? Nas palavras de António Mata, é devido à «influência de diversos factores, com os quais não contávamos há alguns anos e que, normalmente, não equacionamos na nossa prática clínica. Factores esses que podem estar relacionados com as companhias de seguros, com os pacientes e, principalmente, devido à explosão de informação e facilidade de acesso à mesma». É neste ponto que a MDBE assume um papel crucial, uma vez que «é difícil separar o trigo do joio», e esta «ensina a procurar evidência – prova – nas bases de dados com informação científica de qualidade». Além disso, é também um auxiliar na aprendizagem da forma de aplicação nos pacientes, na leitura dessa evidência e para avaliar qualitativamente os artigos.

Conhecimento em evolução

Acreditado pela Ordem dos Médicos Dentistas, o curso foi leccionado por três oradores: António Vaz Carneiro, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Richard Niederman, do The Forsyth Institute, e Derek Richards, da Universidade de Oxford.

António Vaz Carneiro começou por explicar o importante papel desta metodologia na tomada de decisões médicas, tendo elucidado os participantes recorrendo ao exemplo da gripe das aves e aos alertas veiculados pelos media, quando a prevalência da doença registava valores ínfimos.

Além disso, o especialista alertou para os “perigos” do excesso de informação, uma vez que os pacientes pesquisam aleatoriamente sobre a doença e quando chegam ao consultório já têm um pré-diagnóstico. O problema, frisou, é que muita dessa informação está errada ou não se aplica àquele caso. Já o médico deve estar em constante aprendizagem, porque a informação está sempre em evolução.

António Vaz Carneiro considerou ainda que a Medicina baseada na evidência é a «integração do melhor conhecimento científico com a experiência clínica e as preferências do paciente». Assim, para o exercício deste tipo de metodologia há que «definir a questão clínica, seleccionar a prova científica – quer através de fontes primárias ou secundárias -, seguida de apreciação crítica e síntese e aplicação».

Por seu turno, Derek Richards abordou as barreiras existentes à adopção da Medicina baseada na evidência, nomeadamente ao nível do conhecimento e atitudes do médico, que podem ser influenciadas pelo excesso de informação ou pelo conhecimento obsoleto.

Análise de casos

Noutra das suas apresentações, Derek Richards deu exemplos sobre como realizar a análise dos casos e questionou os presentes sobre as opções de tratamento a adoptar. O especialista falou ainda das vantagens de recorrer a um review ao invés de ler a extensa bibliografia, já que assim se «poupa tempo na procura exaustiva de livros sobre o tema». Porém, alertou para os problemas decorrentes da adopção desta medida pois, em seu entender, muitos deles «não usam métodos científicos para identificar, aceder e sintetizar a informação».

Derek Richards recorreu a uma citação de Oxman e Guyatt para explicar a dificuldade em escolher o review a adoptar: «escolher aquele em que acreditar é como decidir qual a pasta de dentes a comprar. É tudo uma questão de gosto, mais do que uma questão de ciência».

De seguida, frisou a importância de Cochrane, que criou uma colecção de fontes de informação «de boa evidência em cuidados de saúde», uma ferramenta indispensável no exercício da MDBE, disponível no site www.cochrane.org [1].

Richard Niederman, do Forsyth Institute nos EUA, começou a sua intervenção definindo a Medicina baseada na evidência num método que assenta em cinco passos: questionar algo questionável; procurar, avaliar criticamente e aplicar as provas; e, por fim, analisar o resultado final. Para melhor exemplificar a sua teoria, o investigador apresentou exemplos práticos na área da Medicina Dentária. O investigador explanou também as diferentes fases de ensaios e testes, bem como a importância da existência de grupos de controlo.

Novos cursos em preparação

A sessão da tarde foi dedicada a trabalhos práticos em que os intervenientes tiveram oportunidade de testar alguns dos conhecimentos adquiridos no curso que, de acordo com António Mata, «ultrapassou completamente todas as expectativas. Exemplo disso foi o espanto do orador Richard Niederman perante uma plateia de mais de 60 médicos dentistas, já que o primeiro curso que deu em Oxford tinha quatro pessoas na sala!».

O presidente da comissão organizadora afirmou que não poderia estar mais contente e que, apesar de esta ser uma área muito nova, «acreditamos que vai ter muita penetração».

De tal forma que o CEMDBE já começou a pensar em outros cursos, «mais pequenos, com menos participantes, mas mais profundos», revelou António Mata. Até porque, de acordo com o médico dentista, «num dia não se aprende MDBE, mas fica-se com a noção do que é e espero que desperte o interesse para aprofundar os conhecimentos nessa área». As novas acções de formação até já estão em preparação e terão «dois módulos, a realizar em três dias, em Maio ou Junho».

Em jeito de conclusão, António Mata só lamentou a falta de apoio das empresas farmacêuticas e de material dentário a este tipo de iniciativas. O professor considera mesmo que estas ainda não perceberam que este tipo de eventos «é muito importante».

CEMDBE: Compilar informação 

Criado em 2007, o Centro de Estudo de Medicina Dentária Baseada na Evidência (CEMDBE) é uma unidade de investigação e formação independente, inserida na estrutura da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL).

Dirigido por António Mata, este centro visa a investigação, desenvolvimento e divulgação de conhecimentos em Medicina Dentária baseados em evidência de melhor qualidade científica. Além disso, pretende leccionar cursos básicos e modulares de MDBE.

De acordo com as palavras do dirigente da instituição, «aí iremos fazer a compilação de informação para português, de guidelines e normas de orientação clínica, que facilitará a vida dos médicos dentistas». E acrescenta que, «ao contrário do que muita gente pensa, a MDBE não é uma coisa para investigadores, mas sim para o clínico que está no consultório, para o ensinar a lidar com os pacientes que chegam repletos de informação recolhida na internet».