Quantcast
 

Jorge Perdigão: “Qualidade do ensino pré-graduado diminuiu consideravelmente”

Jorge Perdigão: "Qualidade do ensino pré-graduado diminuiu consideravelmente"

Orador principal de um seminário organizado pela 3M, intitulado “Novas Tecnologias em Dentisteria”, Jorge Perdigão, professor catedrático e investigador da Universidade do Minnesota, nos EUA, mostrou-se igual a si próprio: “sem papas na língua” na hora de criticar determinados procedimentos adoptados por alguns colegas. Envolvido na investigação de novos materiais dentários, principalmente na área de adesivos e das novas resinas compostas, o médico dentista conversou com a Saúde Oral sobre o estado da arte em Portugal.

Saúde Oral – Sempre ambicionou ser médico dentista?
Jorge Perdigão –
Na minha infância sofri muito de problemas dentários, daí que nunca tenha pensado muito em ser médico dentista. Só mais tarde, quando ingressei no curso de Medicina, e soube que havia uma Faculdade de Medicina Dentária é que me entusiasmei com a possibilidade de frequentar este curso. Em 1985 terminei o curso e tornei-me docente na Faculdade de Coimbra e de Lisboa, até que em 1991 decidi fazer um mestrado e especialização e fui para Iowa, nos Estados unidos da América. Após a conclusão desta pós-graduação, em 1993, fui aceite para fazer um doutoramento na Bélgica, na Universidade Católica de Leuven, onde se fazia investigação dentro desta área.

SO – E porque optou pelos EUA?
JP – Na altura, nos EUA fazia-se muita investigação dentro desta área dos novos materiais e da adesividade à dentina, o que me permitiu não só adquirir novos conhecimentos, como aperfeiçoar a minha técnica.

SO – Além de ser professor na Universidade de Minnesota, continua ligado a algumas instituições de ensino portuguesas…
JP –
Em Portugal, sou apenas um colaborador dessas universidades e não um professor.

SO – Mantém também uma colaboração no Brasil…
JP –
Actualmente, vou mais vezes ao Brasil do que venho a Portugal, porque temos lá estudos clínicos a decorrer com várias universidades e também costumo participar em muitos cursos e palestras, bem como participo num mestrado na UNIP, em São Paulo.

Materiais auto-aderentes

SO – Em termos de investigação, quais são as áreas em que tem estado envolvido?
JP –
Temos estado envolvidos nesta polémica dos postes e da adesão à dentina dos canais, bem como no desenvolvimento de protótipos de materiais que ainda não foram lançados e que temos de testar primeiro para que quando forem lançados tenham todo o backup da investigação.

SO – É neste campo que surge a ligação à 3M?
JP –
Também, até porque fica a cerca de 20 km da faculdade e participei em muita da investigação dos materiais da marca que ainda não foram lançados no mercado. Trabalho tanto com a 3M, como com muitas outras marcas mundiais.

SO – Que novidades podemos esperar dentro desta área dos materiais dentários, adesivos e das novas resinas compostas?
JP –
Materiais para restauração dentária que sejam auto-aderentes e talvez, num futuro não tão próximo, possa haver regeneração total da estrutura dentária a partir de células estaminais. Será criar um gérmen em laboratório, quase como se fosse um feto, e depois implantá-lo no alvéolo dentário onde este se poderá desenvolver.

SO – Contudo, há muitos materiais que já estão a ser utilizados nos EUA e que na Europa, nomeadamente em Portugal, ainda não estão disponíveis. Quais são aqueles que vale a pena importar e os que, devido à sua experiência de utilização de performance, podemos passar sem os experimentar?
JP –
Na verdade, não é bem assim que funciona… O que acontece é que as empresas têm perspectivas de mercado diferentes de país para país, até porque o que se vende bem num continente não quer dizer que seja bem aceite em outra parte do mundo.
Então, no fundo, está tudo muito relacionado com a política de mercado e não com o facto de o material ser bom ou não. Até porque há materiais que se vendem bem nos EUA e não são bem aceites na Europa e vice-versa. Então, cabe a cada firma de materiais dentários definir a sua política de vendas.

Diferentes necessidades

SO – Isto também está relacionado com as diferentes necessidades dos pacientes. Há muitas diferenças entre os pacientes americanos e os portugueses?
JP –
A diferença é a estética, porque os pacientes americanos se preocupam muito mais com essa vertente, com o nível de branqueamento e com o modo como os outros vêm os seus dentes.
Além disso, os americanos têm um maior cuidado com as consultas de rotina e vão, religiosamente, ao dentista a cada seis meses.

SO – Existe portanto a chamada “medicina dentária preventiva”?
JP –
Sim, há muito menos aquela ideia de ir apenas ao dentista quando o dente dói e, se encontram qualquer problema no decorrer desse check-up é logo tratado.
Em Portugal, ainda persiste a ideia de ir ao dentista apenas quando há dor de dentes ou para realizar extracções.

SO – Certamente, já ouviu falar no programa cheque-dentista implementado pelo Governo no âmbito do PNSO. Como o avalia?
JP –
Não estou suficientemente dentro do assunto para emitir uma opinião.

Reconhecimento além-fronteiras

SO – No congresso da OMD, o presidente da ADA mencionou acordos entre essa associação e a Ordem. Acha que este tipo de protocolos e parcerias acrescentam valor à medicina dentária portuguesa?
JP –
Acho que sim, desde que seja recíproco, porque entendo que tem de haver sempre mutualidade. A internacionalização da medicina dentária portuguesa passa muito por este reconhecimento além fronteiras.
A eleição do Dr. Orlando Monteiro como presidente da FDI também é um marco importante.

SO – Estando fora do país há alguns anos, como avalia a evolução da medicina dentária em Portugal?
JP –
Em geral, o nível das pessoas qualificadas evoluiu bastante. Contudo, por outro lado, tenho a perfeita noção de que a qualidade do ensino diminuiu bastante ao nível do pré-graduado. O tempo de contacto com o paciente diminuiu, a experiência de cada aluno antes de sair da faculdade diminuiu.
Porém, não tenho qualquer dúvida de que há bons médicos dentistas em Portugal, de topo, que são reconhecidos fora do país.

SO – Não considera que as alterações introduzidas pelo Processo de Bolonha vieram introduzir melhoria no ensino da medicina dentária?
JP –
Não, especialmente pelo tipo de ensino que tínhamos anteriormente. O curso era composto por seis anos e recordo-me, quando era aluno, de ter um paciente e uma cadeira só para mim. Esse tempo de contacto com o paciente foi-se diluindo e hoje temos médicos dentistas que saem da faculdade que nunca fizeram um determinado procedimento clínico, o que considero extremamente grave.

SO – E como se pode então ultrapassar esse problema? Um exame de admissão à Ordem ou até mesmo uma maior exigência na admissão aos cursos, bem como uma avaliação dos cursos existentes poderiam ser solução?
JP –
Há também a questão de haver já um excesso de médicos dentistas em Portugal. Está a acontecer o que se passou no Brasil, em que se atingiu um pico e depois começaram a fechar as faculdades e há muitas pessoas no desemprego.
O exame de admissão pode ser solução, desde que feito com um paciente e nivelado. Ou seja, é igual para todos. Além disso, deve ter carácter anónimo: o examinador não conhece o candidato e vice-versa.