Médicos dentistas

Harmonização “dentária”

No mundo dos dentes existem dois tipos de pessoas: as que se pautam pela máxima “a César o que é de César”, e aqueles que tentam sempre inovar e enveredar por outros caminhos.

O mercado atual, selvático em quase todas as áreas, é particularmente duro para com os médicos dentistas, que, não raras vezes, dão por si em autênticas acrobacias e ginásticas de marketing para fazer com que o seu negócio evolua.

Nesta “selva”, a lei da sobrevivência fez com que estes seres, repletos de contraturas e dores de coluna de tanto se debruçarem sobre bocas, procurassem novos habitats, neste caso, a face. Aqui, na busca da harmonia facial, o médico dentista torna-se num híbrido de cirurgião plástico, esteticista e make-up artist. Já não preenche apenas as cavidades dentárias, mas também as faciais. E, como sempre, há quem se oponha e quem a defenda com unhas…e dentes. Mas não é o meu objetivo colocar-me a favor ou contra esta tendência, de momento, apenas me coloco educadamente na plateia.

De onde veio isto? É fácil. Vivemos num mundo de redes sociais em que toda agente parece feliz, viaja para lugares exóticos, come de forma saudável e vai ao ginásio. Não é por acaso que termos como botox e ácido hialurónico quadruplicaram o volume de pesquisas no Google nos últimos cinco anos. Esta nova vertente profissional tem os seus benefícios, é mais do que tornar as caras dos pacientes dignas de revistas cor-de-rosa, lutar contra a gravidade e redesenhar o que a seleção natural atribuiu a um ser. A utilização de toxina botulínica e de outros preenchedores para estética, à parte das contraindicações já enumeradas pela ciência, produz efeitos positivos no próprio paciente e em quem o rodeia. Há quem utilize estas técnicas como a cereja no topo do bolo depois de uma extensa reabilitação oral, ou que as aplique como mais um tratamento do quotidiano clínico. As diferenças não se limitam ao espelho, mas também ao lado psicológico do próprio paciente. O botox, quando aplicado no terço superior da face (como a testa e a região glabelar) pode reduzir os sintomas depressivos e melhorar a autoestima (1; 2), por impedir certas microexpressões mais negativas, como o franzir da testa. Mas os efeitos não ficam por aqui, a primeira impressão que uma pessoa provoca é também importante, seja nos negócios, no amor ou na vida; estudos com ácido hialurónico mostram que, após o preenchimento com este material, a face das pessoas causa uma melhor primeira impressão (3). Tal como o choco, que, quando se sente ameaçado liberta tinta, a harmonização facial é a resposta da medicina dentária ao mercado. O médico dentista evoluiu e, agora, qual Dr. 90210, não se resigna apenas à boca, mas também ao que a rodeia. Os tratamentos são cada vez mais planeados multidisciplinarmente, cada vez mais o paciente procura por soluções mais abrangentes e não apenas o “pôr a massa e tirar o dente”. Se é correto ser aplicado por nós? Não sei. O certo é que esta é cada vez mais a especialidade do dentista millennial.

1. Wollmer MA, de Boer C, Kalak N, Beck J, Götz T, Schmidt T, et al. Facing depression with botulinum toxin: A randomized controlled trial. Journal of Psychiatric

Research. 1 de maio de 2012; 46(5):574-81.

2. Alam M, Barrett KC, Hodapp RM, Arndt KA. Botulinum toxin and the facial feedback hypothesis: Can looking better make you feel happier? Journal of the American Academy of Dermatology. 1 de junho de 2008; 58(6):1061-72.

3. Dayan SH, Arkins JP, Gal TJ. Blinded Evaluation of the Effects of Hyaluronic Acid Filler Injections on First Impressions. Dermatologic Surgery. 1 de novembro de 2010; 36(s3):1866-73.

*Vítor Brás é médico dentista e investigador de neuromarketing em medicina dentária.