Quantcast
 

Flávio Vellini: O estado da Arte

Flávio Vellini: O estado da Arte

Flávio Vellini, professor catedrático da Universidade de São Paulo, que preside ao prestigiado Instituto Vellini, esteve em Portugal para participar num programa de formação avançada. O especialista foi o orador principal da conferência “Ortodontia – Diagnóstico e Planeamento Clínico”, acção fruto de uma parceria entre este instituto brasileiro e o Centro de Educação do Grupo Maló, em Lisboa. A SAÚDE ORAL aproveitou um dos escassos momentos livres daquele que é considerado como um dos mais importantes médicos dentistas do mundo, para conversar sobre o Estado da Arte desta especialidade da Medicina Dentária.       

SAÚDE ORAL – Visitou Portugal ao abrigo de uma parceria com a Maló Clinics. Em que consiste esta parceria?

Flávio Vellini – Estamos a trocar informações técnicas e científicas, porque a Clínica Maló é talvez aquela que chegou mais longe, aquela que pode ser considerada como a mais desenvolvida em todo o mundo no tratamento da doença odontológica. De resto, viemos a Portugal para aprender com o Dr. Maló, uma vez que o Instituto Vellini é um dos melhores no campo científico e académico, mas quisemos contactar de perto com os métodos do nosso anfitrião, ver como é feito o atendimento ao cliente numa das melhores clínicas. Estou convicto que esta parceria irá trazer benefícios para ambas as partes.

 

Deu palestras e acções de formação um pouco por todo o país. Qual a imagem que leva dos profissionais portugueses?

Tenho uma ligação muito fraterna e forte com Portugal. Quando concluí a minha tese de pós-doutoramento, recolhi material de cidades como Lisboa, Coimbra e Porto. De lá para cá, tenho acompanhado a evolução da odontologia portuguesa. Os especialistas brasileiros tinham a informação de que a área tinha sofrido uma certa letargia, que necessitava de um impulso para sair deste estádio, que, de resto, já foi amplamente conseguido. Mas, como em todas as ciências médicas, os vertiginosos avanços nesta área necessitam de um acompanhamento constante, de uma “marcação” que não pode (nem deve) ser descurada. Dito isto, acho que os médicos dentistas portugueses devem ter em atenção que na sua especialidade necessitam de acompanhar o avanço da odontologia que se pratica no país irmão (Brasil). Já viajei e ensinei em vários países e posso afirmar que o meu país é um dos mais avançados do mundo nesta área. Ou seja, importará que Portugal e Brasil comecem rapidamente a aumentar o fluxo da troca de informações – nós também temos muito a aprender convosco, nomeadamente com o trabalho do Dr. Maló. No fundo, acho que a própria odontologia de ambos os países ficará a lucrar com esta união de saberes, com esta partilha de conhecimentos técnicos e científicos.

 

Actualmente, há um intenso debate em torno de algumas questões que marcam o dia-a-dia desta especialidade, como a discussão sobre a ortodontia lingual. Esta técnica é o futuro?

A ortodontia lingual veio para ficar. Hoje em dia, esta técnica está a ser utilizada por pessoas que “vivem” da sua imagem, como os artistas, porque não querem usar aparelhos que estejam à vista, querem disfarçar o seu uso, só utilizam materiais invisíveis. Contudo, a ortodontia lingual necessita do composto da ortodontia, porque os implantes ou micro-implantes precisam da ancoragem e do apoio para movimentar todos os dentes. O casamento entre a ortodontia lingual com o desenvolvimento tecnológico da implantologia, como o que se pratica na Clínica Maló, é perfeito. Estou ciente que esta união de técnicas vai fazer com que esta clínica seja um pólo de desenvolvimento europeu.

 

Até onde se pode ir na ortodontia de dentes inclusos?

O facto de aplicarmos a parte cirúrgica à ortodontia constituiu um avanço enorme. Hoje existe um campo limítrofe entre a ortodontia e a cirurgia plástica, a chamada cirurgia ortognática, onde o cirurgião plástico não pode actuar porque necessitaria ter conhecimentos sobre os aspectos relativos ao entrosamento da articulação dos dentes, ou seja, a ortodontia actual vive da interdisciplinaridade e abrange a arte cirúrgica, arte clínica ou ortodôntica, arte estética. Isto é muito interessante, como costumo dizer nos meus cursos, a ortodontia que estamos a praticar no nosso instituto de São Paulo é uma prática que precisa da mão do esteticista, que irá fazer o acabamento final no tratamento ortodôntico…

 

{mospagebreak}

Que acabamento final é esse?

Vamos supor que uma pessoa tem um dente anómalo ou com formato anormal. O profissional faz a ortodontia e tem de prever o espaço para a recuperação técnica. O paciente, que antes tinha uma deformação facial por causa dos dentes estarem fora do lugar, passa, depois da intervenção, a ter um rosto com um aspecto harmonioso e agradável, porque contou com o trabalho do esteticista.

Quais são os pontos positivos e negativos trazidos pela substituição de dentes ausentes com implantes no decurso do tratamento ortodôntico?

É necessário referir que o número de dentes na boca é um número que deve ser constante, porque dentes superiores e inferiores “casam” na perfeição, formam uma engrenagem perfeita. A natureza assim o prevê. Quando há ausência de dentes, o médico dentista deve recolocar os dentes nas falhas através de implantes. Como os ortodontistas não podem fazer essa reposição, têm de recorrer aos serviços do implantologista…

Até onde se pode ir na cirurgia ortognática?

Este tipo de intervenções evoluiu muito. Actualmente, a cirurgia ortognática é uma realidade que permite modificações faciais muito grandes, porque a parte dos tecidos moles está recobrando sobre o esqueleto ósseo, principalmente sobre a maxila e a mandíbula, que são dois ossos importantíssimos para a harmonia estética. A cirurgia ortognática vai permitir o restabelecimento da harmonia facial com as modificações faciais da mandíbula – não diria que permite um rejuvenescimento, mas ajuda muito. Os jovens com saliência exagerada da mandíbula, por exemplo, ao serem alvo de uma intervenção ortognática melhoram o seu aspecto de uma forma substancial. A cirurgia ortognática – apesar de não fazermos este tipo de trabalhos na Clínica Vellini – pode ser considerada como um tipo de intervenção realmente maravilhoso. De resto, já vi trabalhos verdadeiramente excepcionais.

Concorda que os dentes ausentes sejam substituídos com implante e coroa como ancoragem para tracção ortodôntica?

Sem qualquer dúvida. Actualmente, a esperança média de vida é muito maior. Por isso, necessitamos de ter uma mastigação mais efectiva, para nos mantermos saudáveis. Por outro lado, queremos ser belos e jovens durante muito mais tempo, ninguém quer envelhecer. Tudo isto conduz a que as pessoas recorram à evolução dos implantes, adaptando os micro-implantes como auxiliares da ortodontia, que são uma técnica que veio para ficar no sector da ancoragem.

É partidário de que se faça a tracção ortodôntica de dente a extrair para conservar osso e papila interdentária antes da colocação do implante?

Apesar de não ser especialista na matéria, concordo com este método, porque acredito que essa tracção irá permitir que a natureza faça a reposição do osso, que irá facilitar a colocação do implante. Como académico, não sei se esta técnica é melhor que as restantes, mas sou da opinião que apresenta muitas vantagens e tem sido aplicada com bastante sucesso.

Qual a sua opinião acerca do abandono das bandas e sua substituição pelos brackets para ancoragem posterior?

Quando surgiu o bracket colado e se abandonaram as bandas, ainda me lembro da primeira vez que tive contacto com este tipo de técnicas. O Prof. Miura, japonês que apresentou esta grande novidade no Brasil, espantou toda a gente e convenceu logo a comunidade científica brasileira sobre as suas vantagens. Na altura, eu disse: “isto é o futuro da ortodontia”. Esta colagem directa dos brackets, que antes era considerada como uma utopia, iria permitir que as crianças pudessem aplicar o aparelho directamente no dente. Anteriormente, era uma autêntica tortura colocar as bandas para ancoragem posterior. Por outro lado, as pessoas puderam passar a reabilitar a sua boca com materiais da cor dos seus dentes, ao invés da utilização de ouro ou da amálgama. A parte estética ganhou com estas adesões, que foram feitas na ortodontia e que têm evoluído de uma forma muito rápida. As bandas nos dentes molares foram totalmente substituídas na ortodontia pelas colagens directas, sendo que esta técnica se disseminou à parte estética.

Qual a duração máxima da fase activa do tratamento ortodôntico?

Com a evolução técnica que há hoje, os tempos para realização do tratamento ortodôntico diminuíram drasticamente. Anteriormente, uma criança colocava o aparelho ortodôntico por volta dos 5/6 anos; hoje em dia, as novas tecnologias já permitem que se faça o tratamento aos 12 meses, que representa uma evolução notável.

{mospagebreak} 

Que tipo de evolução é essa?

É uma evolução feita com fios ortodônticos mais modernos, fios que têm memória e que foram desenvolvidos quando o Homem foi à Lua, no âmbito da resolução dos distúrbios da massa que necessitavam de um novo tipo que mantinha a memória. Este trabalho foi condensado pela ortodontia para desenvolver fios mais modernos, que trabalham 24 horas no posicionamento dos dentes. Face a estes desenvolvimentos, o tratamento ortodôntico conquistou uma maior rapidez, desde que, friso, seja feito um bom diagnóstico e um bom planeamento clínico. Recordo que o grande segredo da ortodontia já nada tem a ver com a mecânica. Hoje em dia, desde que o profissional esteja bem preparado, podemos fazer um tratamento ortodôntico no espaço de um ano. Mais: eu próprio lancei um livro sobre esta matéria, que já vai na sétima edição em português, que foi um autêntico sucesso, pois, grosso modo, chamava a atenção para a importância do diagnóstico e do planeamento nestes tratamentos. Acrescento ainda que a indústria tem ajudado nas evoluções técnicas, tem lançado uma panóplia de aparelhos ortodônticos no mercado, mas, repito, o especialista não deve descurar a preparação do diagnóstico e do planeamento do tratamento.

Em que situações se deve optar pela extracção do primeiro molar definitivo?

A ortodontia foi criada com base no “dogma” do molar que não podia ser extraído. Havia essa certeza, mas com o passar do tempo, os especialistas aperceberam-se que a não extracção do molar não resultava, uma vez que a criança voltava a ter problemas. Até que o autor Klint se rebelou contra a teoria vigente, o chamado dogma da não extracção, e impôs uma nova visão, em que defendia que havia a necessidade de proceder ao tratamento dos pré-molares. Com as novas tecnologias, provou-se que em alguns casos de mal-fusão havia necessidade de questionar o paradigma dos tratamentos dos primeiros ou segundos molares. Actualmente, o conceito de Odontologia está completamente diferente, mas há duas directivas que se mantêm actuais: a necessidade de um bom diagnóstico e de um bom planeamento para sabermos que dentes devemos extrair de determinado paciente. Não existe uma regra matemática que dite regras quanto aos dentes que devemos “tirar”; devemos, sim, extrair qualquer dente, após procedermos a um estudo muito bem feito, que demonstre que os resultados que vamos obter são melhores do que a extracção de outro dente, nomeadamente os dentes molares. Existe o mito de que não se devem retirar estes dentes porque são os primeiros a nascer na criança, mas mais vale extrair um dente que esteja em mau estado, do que conservá-lo e pôr em perigo os outros.

Aparelho fixo ou removível para abrir a sutura interpalativa. O que aconselha?

Sou adepto do aparelho fixo, mas, como disse no início da entrevista, os dentes com uma má oclusão estão colocados de forma aleatória, em posições diversas na boca. Precisamos de encaixar perfeitamente os dentes superiores com os inferiores, sendo que esses encaixes só podem ser feitos com total precisão se utilizarmos o aparelho fixo. Mas é claro que durante a fase do tratamento se podem utilizar todo o tipo de aparelhos, nomeadamente removíveis ou disjuntores para abertura do palato. Mas se for possível colocar os disjuntores da sutura fixos, é preferível, porque a criança suporta o tratamento, mas sente-se incomodada e acaba por retirar o aparelho removível ao final do dia. Ou seja, sempre que seja possível recomendo, mesmo, o uso do aparelho fixo. 

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde oral?