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Médicos Dentistas

Este SOL já brilha em Lisboa

Este SOL já brilha em Lisboa
Foi inaugurado em agosto do ano passado com objetivos muito claros: melhorar os índices de saúde oral da cidade de Lisboa e tornar-se num centro de referência. O Serviço Odontopediátrico de Lisboa (SOL) abriu portas para facilitar o acesso de crianças e jovens, residentes ou a estudar no concelho de Lisboa, a cuidados de saúde oral. Um mês depois da abertura, já tinham sido realizadas cerca de 1 500 consultas numa média de 100 por dia.

Quem passa na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, consegue avistar com relativa facilidade uma nova clínica. As cores do Serviço Odontopediátrico de Lisboa (SOL) são apelativas e chamam a atenção. No interior, uma equipa de cerca de 30 profissionais divide-se em 11 gabinetes para prestar cuidados de saúde oral a crianças e jovens até aos 17 anos e 364 dias (a partir dos 18 anos já são considerados adultos). Direcionado a residentes ou estudantes no concelho de Lisboa, este SOL brilha mesmo para todos: os cuidados são prestados de forma gratuita, independentemente da condição social ou económica dos pacientes. Para validar a inscrição, será necessário apresentar o documento de identificação e, através do recurso a um leitor de cartões, será verificada a morada de residência e a idade.

O SOL abriu em agosto do ano passado e, desde então, o crescimento da procura tem sido notório. O acesso é gratuito, exceto nos tratamentos e intervenções em ortodontia, mas os beneficiários de abono de família devidamente comprovado estão isentos do pagamento de qualquer ato, tratamento e intervenção neste serviço.

Antes da inauguração, identificadas as necessidades, escolhido o espaço e feito o recrutamento, foi tempo de abrir concursos públicos para a aquisição de equipamentos. Só depois se começou a operacionalizar um projeto que resulta da vontade do provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), Edmundo Martinho, preocupado com a relativa inacessibilidade da medicina dentária em Portugal. “Confrontámo-nos com a realidade dura de dificuldade de acesso aos serviços médico-dentários ao mesmo tempo que existe um número gigante de dentistas e clínicas privadas em Portugal. Percebeu-se então que esta seria uma área em que a SCML poderia intervir”, explica André Brandão de Almeida, diretor clínico do SOL.

Dados do Barómetro Nacional de Saúde Oral de 2018, elaborado pela consultora independente QSP para a Ordem dos Médicos Dentistas, revelaram que “mais de 30% da população nunca vai ao médico dentista ou apenas vai em caso de urgência”. A conclusão revelou “uma subida de 3% face ao ano passado, sendo que 41% dos portugueses não vão a uma consulta de medicina dentária há mais de um ano”. No dia da reportagem da SAÚDE ORAL, a média era de 100 consultas por dia e, até ao fecho da edição de novembro/dezembro, já tinham sido realizadas cerca de 1 500 consultas desde que o SOL abriu.

O diretor clínico não tem dúvidas de que este “é um serviço pioneiro no País, e talvez, do mundo”. E acrescenta: “Não conheço todas as políticas de saúde oral mundiais, mas julgo que apenas dois a três países podem gabar-se de ter um conceito semelhante ao nosso. Existem serviços mais tradicionais ao nível dos cuidados primários, mas a nossa oferta é mais diferenciadora.” No SOL, realizam-se todo o tipo de tratamentos, incluindo cirurgias.

Em resposta a algumas críticas sobre a área de influência se resumir ao concelho de Lisboa e não ser alargada a outras zonas do País, o médico dentista esclarece. “A SCML é uma organização tutelada pelo Estado, nomeadamente, pelo ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva, e existe uma confusão em relação às Santas Casas espalhadas pelo País, essas, sim, instituições particulares de solidariedade social. Há aqui uma distinção, embora partilhem o mesmo nome, e muitas vezes, os mesmos objetivos.” A SCML só substitui e complementa as funções do Estado, na área da saúde e de ação social, na cidade de Lisboa, sublinha.

“E para quem pensa que não se aplica o dinheiro dos jogos sociais do Estado [explorados pela SCML] em todo o País, também não é verdade. Existe uma lei-quadro que diz que os jogos sociais são cobrados pela SCML, mas cerca de 65% da receita total é canalizada para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social”, explica André Brandão de Almeida.

Dados anunciados em agosto deste ano, no Relatório de Gestão Demonstrações Financeiras e Orçamentais da Administração Central do Sistema de Saúde, referentes ao período de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2018, indicam que os jogos sociais da Santa Casa renderam, nesse ano, 120 milhões de euros ao SNS.

Motivar a equipa

A equipa atual é constituída por dez médicos dentistas, três higienistas orais, dez assistentes dentários, uma auxiliar de ação médica dedicada à esterilização, quatro administrativos, uma secretária clínica, um segurança e uma pessoa que assegura a limpeza. O processo de recrutamento dos médicos dentistas foi muito bem-sucedido: “Recebemos muitas candidaturas”, destaca o médico dentista.

Os profissionais – com elevada formação, experiência, conhecimento em odontopediatria, ortodontia, endodontia e cirurgia oral, além da clara vocação para cuidados de medicina dentária em crianças e jovens – têm a hipótese de integrar um projeto diferenciador, com o claro objetivo de promover a saúde oral, prevenir a doença e apostar na literacia em saúde de familiares e cuidadores para a adoção de comportamentos e estilos de vida saudáveis.

Um dos aspetos importantes do projeto, destaca Almeida, é o estímulo do corpo clínico, o que se traduz em condições de trabalho e incentivos formativos. “Oferecemos trabalho a tempo inteiro com contrato individual de trabalho sem termo. Os funcionários progridem de três em três anos na carreira, com todos os benefícios que isso traz”, explica o diretor clínico, sublinhando a estabilidade profissional que este projeto proporciona. “O nosso corpo clínico trabalha 35 horas semanais, com direito a 25 dias de férias, que podem ser até 28 consoante a boa assiduidade ao longo do ano. Podem ainda usufruir do dia de aniversário e têm um plano de formação caso tenham interesse. Imaginando que um profissional quer realizar uma pós-graduação, apresenta a sua proposta à Direção de Recursos Humanos, e a Santa Casa não só proporciona condições laborais para que a pessoa consiga realizar a formação e articular com os horários profissionais, como também comparticipa uma parte da totalidade do valor”, explica. Dentro do horário semanal de trabalho, os profissionais podem dedicar-se ao estudo e à investigação, num período de tempo que não é obrigatório, mas que pode ser aproveitado por quem demonstrar esse interesse.

“Temos ainda creches da Santa Casa e, se os nossos colaboradores quiserem integrar os filhos até aos cinco anos, podem fazê-lo.” A ideia é proporcionar as melhores condições laborais para que “a equipa se apaixone pelo projeto e vista a camisola”.

Literacia para a saúde

O diretor clínico sublinha a importância da marcação de uma primeira consulta logo aos seis meses de idade de um bebé, por forma a ser dado um acompanhamento regular essencial para corrigir atempadamente patologias que possam surgir.

A clínica, ampla e com uma decoração divertida e colorida, integra gabinetes com frases motivacionais nos gabinetes, adaptadas às faixas etárias dos utentes, como por exemplo: “Os sorrisos não se medem aos palmos”; “O meu sorriso é mais bonito que o teu” ou “Torna o teu sorriso o rei das stories”. A ideia é tornar as visitas ao dentista numa experiência agradável e alegre, havendo algumas áreas de brincadeira para que as crianças possam distrair-se e abstrair-se de eventuais receios relativos a tratamentos orais. Com um horário de segunda a sexta-feira, das 8 h às 20 h, e aos sábados, das 8 h às 13 h, existe ainda “potencial para crescer” em número de consultas.

Os pais / cuidadores podem marcar uma consulta através de e-mail ou telefone. “Ainda não temos lista de espera, e, nas primeiras consultas, asseguramos a marcação até uma semana, e tentamos que o seguimento não ultrapasse as duas a três semanas”, foca André Brandão de Almeida. Para cada criança é definido um plano de tratamento, e, tanto quanto possível, tenta-se que o mesmo médico dentista fique responsável pelo agregado familiar para criar uma relação de proximidade e confiança. “A envolvência com os pais é fundamental, sendo a consulta muito vocacionada para a deteção precoce, a prevenção e literacia familiar, o que é tanto ou mais importante do que qualquer tratamento que realizemos. É preciso mudar hábitos”, defende o médico dentista.

Além dos cuidados médico-dentários prestados, o SOL pretende criar um núcleo de conhecimento e de pesquisa e capacitar os profissionais com formação atualizada e permanente, dando a oportunidade de investigação e apresentação de casos clínicos e publicações científicas em revistas da especialidade e em congressos de sociedades científicas nacionais e internacionais. “Não queremos ser um serviço tradicional”, garante o diretor clínico.

A médio prazo, o objetivo é trabalhar com os agrupamentos de escolas da capital para que este novo serviço seja do conhecimento dos alunos, e também com os centros de saúde, para que encaminhem as crianças que, de outra forma, não teriam acesso a cuidados de saúde oral. “Vamos ter um Boletim de Saúde Oral e pretendemos que as maternidades, ao nascimento dos bebés, o entreguem às recém-mães.” Será uma espécie de passaporte, para que os pais comecem a trazer os bebés desde muito cedo, mais que não seja para recolherem informação útil sobre os melhores cuidados de saúde oral. “Esta rede de referenciação é importante, não obstante de as pessoas terem a liberdade de escolher a oferta que entenderem”, avança André Brandão de Almeida.

A meta do SOL é atingir 50 mil consultas por ano e, até ao ano de 2025, diminuir até 60% da prevalência de cárie dentária, conseguindo 80% de crianças livres de cárie, na dentição mista, na idade dos seis anos, no concelho de Lisboa. “Queremos melhorar os índices de saúde oral da cidade de Lisboa e tornarmo-nos num centro de referência”, conclui o médico dentista.

*Artigo publicado originalmente na edição 129 da revista SAÚDE ORAL
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