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Entrajuda: Favores em cadeia

Entrajuda: Favores em cadeia

A IPSS Entrajuda está a organizar consultas de saúde oral para crianças carenciadas de todo o país. Esta associação conta já com cerca de 7 mil crianças inscritas, mas só ainda conseguiu o apoio médico para 2500. Faltam voluntários que queiram dar o seu contributo para melhorar a vida dos menos afortunados.

Muitas instituições de solidariedade social lutam com grandes dificuldades no cumprimento da sua missão e precisam de ser ajudadas no terreno, de forma a melhorarem a qualidade dos serviços que prestam à população carenciada – existem cerca de 1,9 milhões de pobres em Portugal, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) – que assistem, através da sua capacitação.

«Com a consciência de que é possível melhorar muito o seu desempenho, desde que devidamente ajudadas na área da gestão e da organização, impunha-se a criação de uma nova instituição que fosse ao encontro desse objectivo. E é assim que nasce a Entrajuda (constituída em 2004)», começa por explicar Sofia Pereira Cunha, psicóloga e coordenadora do projecto Entreajuda.

 

Inspirado na actuação do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa, o qual está, aliás, na génese da sua constituição, este projecto de solidariedade social estabelece uma ponte entre «quem quer dar e quem necessita de receber», possibilitando a criação de uma verdadeira cadeia de solidariedade em que cada um dos “actores” assume o papel de protagonista. «Esta ponte é permanentemente dinamizada pela Entrajuda, através de parcerias com pessoas e empresas em áreas que se revelem fundamentais, tendo por base um trabalho contínuo de diagnóstico de necessidades e avaliação de resultados junto das instituições apoiadas», esclarece Sofia Cunha.

De acordo com explicação da jovem responsável – que não gosta de “aparecer”, isto é, assumir protagonismo ante os jornalistas, nem tão-pouco ser fotografada – este projecto tem algo de inovador. «Visa permitir às instituições melhorarem os serviços prestados às pessoas carenciadas que apoiam e mobilizam o envolvimento de pessoas e empresas que se sentem interpeladas a colaborar e pretendem associar-se com a sua boa vontade, colocando à disposição das instituições o seu trabalho, a sua experiência, os produtos e serviços que produzem ou fornecem», reitera a psicóloga, comentando uma pequena inconfidência: «sempre que sou obrigada a dar uma entrevista, fico bastante nervosa, tenho medo de não explicar bem as coisas» – temperamento de quem gosta é de «andar no terreno».

 

"Dentes saudáveis – Saúde Oral"

Nessa lógica, foi lançado o projecto “Dentes Saudáveis – Saúde Oral”, cuja génese assentou na necessidade de minorar uma das mais graves necessidades sentidas pela população de parcos recursos económicos. Isabel Jonet, presidente desta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), está atrasada para a entrevista com a “SO”. Manda dizer que vai chegar um «pouquinho mais tarde». Sofia, solícita, tenta explicar todos os pormenores do projecto, mas vai olhando para a porta, à espera da “salvadora” e líder incontestada desta ideia, que combina acção com planificação. De pronto, está a equipa da “SO” a seleccionar algumas fotos de “terreno”, pois Isabel Jonet também não gosta, mesmo, de ser fotografada, aliás, foge como diabo da cruz do protagonismo – ouvem-se algumas vozes e sorrisos. É Isabel Jonet a chegar. «Olá a todos. O Sr. José está por aqui hoje? Ainda bem que pôde vir». Está comprovado, a economista sabe incentivar a sua equipa de trabalho como deve ser, é uma líder empenhada em combater o flagelo da pobreza nas suas mais variadas formas de luta.

 

Melhorar a auto-estima das crianças 

Do contacto com as IPSS a quem a Entrajuda presta apoio, segundo a responsável, verificou-se que a saúde oral das crianças é muito precária, sendo que quase todas apresentam pelo menos uma cárie (mesmo em dentes de leite) e a maioria dos idosos já quase não tem dentes.  

 

«Portugal é um dos países com pior higiene oral da Europa. Se as crianças forem instruídas desde tenra idade, cumprirão pela vida fora as necessárias regras de saúde e higiene oral. Nesse âmbito, o projecto “Dentes Saudáveis – Saúde Oral” propõe-se constituir uma cadeia de profissionais de Medicina Oral que, por um lado, se comprometem a tratar de forma voluntária e continuada crianças apoiadas por instituições de solidariedade, indicadas pela Entreajuda e, por outro lado, promovam acções de sensibilização junto dos responsáveis e utentes das instituições», diz a presidente, explicando ainda que «na área de intervenção são prestadas gratuitamente consultas de tratamento dentário por médicos dentistas voluntários que, durante um período previamente estabelecido, acompanham várias crianças entre os três e os 16 anos, garantindo todas as consultas necessárias para restituir a saúde oral da criança, de acordo com um plano de tratamento que delineiam previamente».

A este propósito, a economista salienta que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou já para as várias repercussões da falta de cuidados de saúde oral, como a transmissão de doenças, o desenvolvimento de outro tipo de infecções, a falta de auto-estima ou a dificuldade na integração social.

«Não nos podemos esquecer de que estamos a falar de crianças carenciadas. Quando forem mais velhas, quando procurarem um emprego, ainda vai ser mais difícil integrarem-se no mercado de trabalho, uma vez que, se não tiverem uma boa dentição, irão ter pouca auto-estima e será muito mais complicado arranjarem um posto de trabalho. Nenhum empregador dará trabalho a uma pessoa sem saúde oral», dramatiza.

Mais: na opinião de Jonet, estes tratamentos, aplicados a crianças que provêm de quadros familiares socioeconomicamente degradados e desestruturados, têm uma outra vantagem de monta: «as crianças acabam por fazer passar a mensagem da urgência em ter uma higiene oral adequada aos próprios familiares, dado que, muitas vezes, os pais e demais familiares não têm este tipo de hábitos higiénico-sanitários». Sofia Cunha Pereira concorda com Jonet e adianta que já houve casos «que me deixaram verdadeiramente sensibilizada, como o de uma menina de 13 anos que, quando sorria, fechava a boca para esconder a falta de dentes», diz, tapando a boca com duas mãos e comprimindo os lábios, imitando o gesto de vergonha da referida criança. «Há crianças que praticamente têm grande parte dos dentes com cáries dentárias, mesmo os dentes de leite. Já vi vários casos de meninos e meninas com as raízes dos dentes à mostra. São situações gravíssimas e que requerem medidas urgentes», reitera, ilustrando a sua “revolta” apontando para o coração, como que a dizer que estes casos magoam a alma.

Médicos precisam-se!

Isabel Jonet afiança que as acções de sensibilização que estão a ser implementadas pela instituição assumem capital importância na redução de danos, uma vez que, «de uma forma educativa e lúdica», promovem nas crianças e nos jovens o hábito de uma escovagem regular e correcta dos dentes, incutindo-lhes a necessidade de assegurarem diariamente uma fundamental higiene oral. «Estas acções passam por ensinar a escovar os dentes, através de apresentações, projecção de filmes, jogos, concursos, entre outros. No final de cada sessão são entregues a cada criança uma escova de dentes que fica na instituição e passa a ser utilizada diariamente», reitera.

Porém, lembra Jonet, estas acções só surtirão significativo efeito quando a costela “filantrópica” dos médicos dentistas começar a comandar a razão. Porque sem a sua contribuição, perder-se-á a cadeia de “favores” pretendida. «Os médicos dentistas e especialistas podem constituir-se como um elo desta cadeia de solidariedade, disponibilizando um pouco do seu tempo e saber, acompanhando, de forma continuada e durante um período de tempo estabelecido, os pacientes carenciados propostos no respectivo consultório. Ou seja, fazendo da sua profissão uma boa acção», exulta, adiantando ainda que, no final de contas, serão os próprios profissionais que ficarão a ganhar com a nobre experiência de ajudar quem mais precisa, ficarão mais ricos e com o sentido do dever cumprido.    
Neste momento, encontram-se inscritas 104 instituições de todo o país, abrangendo um total de quase 7 mil crianças comprovadamente pobres. Estão actualmente a beneficiar de sessões de prevenção ou de consultas cerca de 2500 petizes. Basta fazer as contas: há ainda 4500 pequenos que estão à espera da benevolência dos médicos dentistas portugueses.

Sofia Cunha Pereira defende que os médicos do Porto têm sido mais solidários do que os de Lisboa. A responsável não tem uma razão cabal para justificar os seus números, mas adianta que o facto da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) estar sedeada na Cidade Invicta poderá explicar o abraço fraterno dos médicos nortenhos a este projecto. De resto, segundo Sofia Cunha, a OMD tem tido um papel de verdadeira cumplicidade com a Entreajuda.
Sem querer fomentar conflitos estéreis entre o Norte e o Sul, lançamos o repto para que os dentistas de Lisboa respondam massivamente às necessidades desta associação, porque, afinal, há guerras pelas quais merece a pena afiar os machados; há guerras justas.

Para mais informações, consulte o site http://www.entrajuda.pt/ ou contacte a associação através do e-mail geral@entrajuda.pt ou do telefone 21 362 04 17.

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