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Congresso EAO – a ponte para o futuro da implantologia

A Associação Europeia de Osteointegração (EAO) vai organizar pela primeira vez a sua 28.ª reunião científica anual na cidade de Lisboa, de 26 a 28 de setembro, sob o mote ‘A ponte para o futuro’. A SAÚDE ORAL falou com o presidente e a vice-presidente do evento, Gil Alcoforado e Susana Noronha – dois colegas e amigos com uma cumplicidade tão divertida quanto sólida – sobre esta travessia para a outra margem da implantologia.

Como é que surgiu a oportunidade de trazer este congresso a Portugal?

Gil Alcoforado: Entrei para o board da EAO há seis anos. Organizei uma série de outras coisas, como os master clinician courses, até que os meetings são rotativos e chegou a altura de ser eu a organizar. Obviamente que seria em Portugal e em Lisboa, porque era a primeira vez que [o congresso] vinha cá. Geralmente, o chair do congresso é sempre coadjuvado por alguém que, às vezes, é mais importante do que o próprio chair [olha, sorrindo, para a colega] e fui buscar a professora Susana Noronha.

Como é que recebeu o convite?

Susana Noronha: Efetivamente, recebi-o como um desafio. É um privilégio poder trabalhar com o professor Gil Alcoforado, meu querido amigo, mas isso é evidente. Para já, considero que este congresso da Associação Europeia de Osteointegração, que é uma sociedade que existe desde 1991 e que foi criada em Munique, é a maior associação que fala de implantes e de osteointegração na Europa e, portanto, tem uma dimensão que tem todo o interesse trazer para Portugal. Há muitos dentistas que se dedicam a esta área em Portugal, neste momento a cirurgia é uma área que tem especialidade pela Ordem dos Médicos Dentistas, há muitos dentistas interessados nos temas da osteointegração, implantologia e da prótese sobre implantes. Lisboa, como capital, faz todo o sentido, embora os congressos no Porto tenham sempre muita assistência.

Mencionam que há muitos médicos a trabalhar em implantologia. Que apreciação é que fazem desta área em Portugal?

GA: É uma área da medicina dentária que seria bom que um dia pudesse ser regulamentada, que não o é. O facto é que estamos a ver cada vez mais speakers portugueses nos melhores palcos do mundo, alguns deles ainda muito jovens, o que nos dá uma perspetiva de que estamos muito bem sob o ponto de vista da qualidade. É algo que me apraz registar. Tem sido o nosso esforço de há uns anos para cá, proporcionar especialidades em que os implantes estão integrados.

Portugal está a ser cada vez mais bem cotado e reconhecido, significa que as nossas faculdades de medicina dentária estão a produzir bem, vede os suecos que vêm cá recrutar, os ingleses que vem para cá recrutar…

SN: Os franceses que vêm para cá estudar…

GA: Mesmo entre jovens recém-formados, a qualidade está a ser reconhecida nestes países.

SN: A implantologia em particular não é uma área dada no ensino pré-graduado com muito detalhe, os implantes existem há poucos anos versus os dentes, que tratamos há muito tempo. Colocamos implantes há 50 anos. Para aprender o diagnóstico, planificação e toda a execução do tratamento com implantes, faz sentido uma formação pós-graduada posterior, seja em cursos modulares ou mais avançados, com um grau de especialização como aquele que eu tive o privilégio de ajudar o senhor professor Gil Alcoforado a formar, que tem a duração de três anos. É da área da periodontologia, mas, tradicionalmente, as pessoas que colocam com implantes são da área da periodontologia, além dos cirurgiões. Acredito […] que a área se vá integrar nos nossos planos de ensino, não só na vertente cirúrgica, mas também prostodôntica.

“Quanto ao programa, está pronto há um ano. É composto por perguntas que lancei a mim mesmo: que problemas vou eu ter na segunda-feira de manhã para os quais ainda tenho dúvidas?” – Gil Alcoforado

Porque é que escolheram este tema para o congresso: “A ponte para o futuro”?

GA: Estamos na [antiga] FIL [atual Centro de Congressos de Lisboa], a olhar para a ponte, e quando fiz essa sugestão no board foi imediatamente aceite. Foi uma ideia que me surgiu de repente, por estar a pensar no layout do congresso e no próprio conteúdo do programa, que obviamente à partida será sempre um chamariz.

SN: A minha leitura da ponte para o futuro vai um pouco mais além. Estamos num período de transição para os implantes. Houve uma fase de boom, em que todos os dentistas faziam cursos de fim de semana e começaram a colocar implantes, e depois começámos a perceber que os implantes têm patologias, problemas, e há complicações biológicas no tratamento com os implantes, que são as peri-implantites, que simplesmente não sabemos tratar. Não sabemos tratar todos os casos.

GA: Pelo menos não temos técnicas e racionalizações fiáveis como temos para o tratamento dos dentes. Temos uma sessão em que pomos em dúvida se na área estética devíamos ou não colocar implantes. Lancei o repto a duas grandes estrelas mundiais, uma do sul da Califórnia, que nos vai explicar como acha que devem ser colocados implantes nessa zona, e a outra, um suíço que trabalha na Alemanha e que, na minha perspetiva, é dos homens que mais tem inovado em microcirurgia na nossa área nos últimos anos, e que vai defender que temos de arranjar outro tipo de soluções que não os implantes para aquela zona, porque a médio e longo prazo podem vir a trazer problemas. Eu quis também basear o meu programa num alerta de que ainda há coisas para resolver, como disse a professora Susana. Portanto, muito do conteúdo do programa está focalizado nessa área, além de que, com tantas sessões, algumas delas paralelas, temos de tentar cobrir tanto quanto possível o estado da ciência.

Entretanto, até agora temos batido sistematicamente todos os recordes de inscritos. Março foi o limite para a entrega de apresentações para as pessoas que se oferecem para trazer os seus trabalhos em comunicações orais ou pósteres e tivemos 25% mais do que [no congresso] em outubro do ano passado, em Viena. Tivemos 859 abstracts entregues, muitos deles não foram aceites, mas geralmente isso dá-nos uma ideia. Nos últimos cinco anos, o fator multiplicador de abstracts para termos um número de inscritos, que foi à volta de 2800 em Viena, é 4,5, portanto, dá 3800 pessoas em Lisboa. As coisas estão muito bem e hoje [19 de junho] já tínhamos 950 inscrições pagas. Ainda faltam três meses para o evento.

A que é que devem esses bons resultados? À localização ou ao programa em si, que engloba “temas quentes” da medicina dentária, como a resistência aos agentes microbianos?

GA: É óbvio que Lisboa é atrativa […] e é óbvio que estes congressos, quando são no sul da Europa, têm sempre um pouco mais participantes do que quando são feitos em sítios em que o tempo é mau. Mas esse era um trunfo que eu tinha [risos].

Quanto ao programa, está pronto há um ano. É composto por perguntas que lancei a mim mesmo: que problemas vou eu ter na segunda-feira de manhã para os quais ainda tenho dúvidas? Porque se eu tiver essas dúvidas, de certeza que pelo menos 50% ou 60% dos participantes vão ter essas dúvidas também. Apareceram alguns temas um bocadinho diferentes, que não são tão “normais” ou frequentes em determinado tipo de congressos, e eu espero também que isso ajude a suscitar o interesse das pessoas.

SN: Este programa científico está extremamente completo, ou seja, vai de facto abordar uma série de temas dentro da implantologia, tanto na parte cirúrgica, como na parte de diagnóstico e de base, falou também na parte da medicação – os antibióticos são uma preocupação e agora, no congresso da Sociedade Espanhola de Periodontologia, em Valência, assisti a uma apresentação em que Portugal está no terceiro lugar dos países europeus com mais resistências aos antibióticos, o que é altamente preocupante. Apesar de os antibióticos atualmente terem de ser prescritos, o sinal é que são prescritos em demasia. Espanha também não está muito melhor, é o quarto, mas, na realidade, a resistência aos antibióticos é importante. Aqui os antibióticos vão ser também revistos para responder à pergunta – faz ou não sentido dar um antibiótico quando fazemos um tratamento com implantes? E quais é que são as preocupações que temos de ter e quando é que está indicado? Isso é adaptado a todas as áreas da medicina dentária, mas na implantologia, que é um procedimento cirúrgico, é adaptado em particular. É um programa muitíssimo abrangente, que tem outra coisa importantíssima: quem nos vai falar sobre os temas são pessoas que são experts ou speakers que se dedicam a trabalhar ou a investigar essas áreas em particular. Também temos muitos colegas portugueses que vão participar como moderadores ou como speakers, o que não poderia ser de outra maneira, embora, evidentemente, o congresso seja internacional e será todo em inglês.

“A implantologia em particular não é uma área dada no ensino pré-graduado com muito detalhe, os implantes existem há poucos anos versus os dentes, que tratamos há muito tempo” – Susana Noronha

Internamente, qual é que tem sido a reação ao congresso?

GA: As perspetivas com os números de hoje não podem ser melhores. Já temos 99 inscritos portugueses. Temos sempre um país ou países especialmente convidados, obviamente escolhi o Brasil, e depois temos também uma rede de embaixadores. Fui eu que escolhi o embaixador para o Brasil, o professor Arthur Novaes Júnior, que é uma pessoa extraordinariamente influente e maneja muito bem as redes sociais; tem feito um trabalho extraordinário. Tivemos 130 abstracts vindos do Brasil.

O Brasil sistematicamente tem sido o terceiro, quarto país mais representado no congresso. Estamos a falar de 88 a 90 países representados nestes meetings anuais. Não sei quantos vamos ter em Lisboa, mas provavelmente vamos ter o que tem sido norma. É uma associação europeia, mas acaba por ser um congresso mundial. Para lhe dar uma ideia, o Japão está sempre no top cinco em número de participantes, a Rússia também quer vir com um grupo que já requisitou tradução simultânea, as coisas estão-se a desenvolver. Eu acho que a marca EAO está a subir muito de apreciação por parte do público e o sistema de comunicação que lançámos este ano também está a funcionar muito bem.

SN: Houve um cuidado da EAO de convidar outras sociedades científicas portuguesas para terem acordos de parceria, nomeadamente com a Sociedade de Periodontologia e Implantes [SPPI, que Susana Noronha atualmente preside], a SPEMD [Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária], SOPIO [Sociedade Portuguesa de Implantologia e Osteointegração], e por aí fora. Envolveram-se as sociedades científicas portuguesas da área da implantologia neste projeto. Essa colaboração é importante também para a Sociedade. Este ano, o congresso da SPPI vai ser integrado dentro do da EAO, com benefícios para os sócios da sociedade e isso também é atrativo. Estou totalmente de acordo que a EAO se expôs muito mais nos últimos anos, com uma aposta grande na comunicação, e isso leva a que exponencialmente o número de presenças nos congressos estejam a aumentar.

GA: A melhor coisa tem sido a qualidade dos programas. Isto é uma questão de boca a boca, os dentistas comentam: “Olha, àquele vale a pena ir.”

*Entrevista publicada na edição de julho-agosto (edição n.º127) da revista SAÚDE ORAL.