Cancro do colo do útero: O (segundo) pior inimigo das mulheres mata uma portuguesa por dia

Cancro do colo do útero: O (segundo) pior inimigo das mulheres mata uma portuguesa por dia

Anualmente, o Cancro do Colo do Útero é responsável pela morte de, pelo menos, 300 mulheres portuguesas. Especialistas defendem que vacinação e rastreios regulares podem fazer baixar estas famigeradas estatísticas. Isabel Silvestre, médica do IPO, acrescenta que esta patologia requer atenções redobradas e verdadeiras campanhas de informação. A perita afiança ainda que o facto da tutela ter avançado para um plano de vacinação nacional merece o seu aplauso. O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro diz, por outro lado, que o plano apresentado pelo Ministério é insuficiente.

O cancro do colo do útero é um dos carcinomas que mais vidas tem ceifado entre as mulheres de todo o mundo. Os dados epidemiológicos mais recentes sobre a patologia são realmente assustadores. 500 mil mulheres europeias desenvolvem cancro do colo do útero anualmente, sendo que 25 mil morrem desta doença. Na Europa, perecem diariamente 40 mulheres devido a esta doença, provocada pelo vírus do papiloma humano (HPV) e é a segunda forma mais frequente de cancro nas mulheres entre os 15 e os 44 anos.

Como se sabe, este tipo de doença oncológica afecta, sobretudo, as mulheres mais jovens, surgindo na maioria dos casos entre os 30 e os 50 anos de idade, ou seja, aparece numa das “piores” alturas da vida das mulheres afectadas, já que é nesse período das suas vidas que a sociedade moderna mais exige delas, pois estão em plena idade activa e em que mais necessitam de “energia” para levar por diante as suas carreiras profissionais, vida familiar, etc.

Este é um dos dados – tornados públicos pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) e pela Organização Europeia Contra o Cancro (EECO) por ocasião da Semana Europeia de Prevenção Contra o Cancro, em Janeiro passado – que consta do documento da Comissão Europeia que examina a aplicação de uma recomendação do Conselho Europeu, publicada em 2003, que propunha soluções para a detecção precoce do cancro do colo do útero.

Apesar de se terem registado progressos, anualmente, na União Europeia, sublinha a LPCC, fazem-se menos de metade do número mínimo de despistagens recomendadas pelos peritos.

O mesmo documento apresentado em Bruxelas, no âmbito da Semana Europeia de Prevenção do Cancro do Colo do Útero, insiste na necessidade de introduzir a despistagem do cancro da mama, do colo do útero e colorrectal.
Estatísticas recentes, segundo o mesmo relatório, revelam, por outro lado, que apenas sete estados-membros seguiram as recomendações de Bruxelas e implementaram programas nacionais de rastreio desta doença (Reino Unido, Dinamarca, Finlândia, Hungria, Holanda, Eslovénia, Suécia), enquanto outros oito estão na calha, isto é, em processo de desenvolvimento desta iniciativa.

Medida governamental não convenceu LPCC

Em Portugal, o programa de vacinação de jovens contra o HPV, um dos principais responsáveis pelo cancro do colo do útero que mata anualmente 300 mulheres portuguesas e que começou a 27 de Outubro do ano passado – foi antecedido de uma intensa polémica “à portuguesa”, com as habituais trocas de mimos entre a classe política, causada pelo elevado preço da vacina.

O Governo decidiu, contudo, “fazer orelhas moucas” aos detractores da medida e avançou com a implementação da vacinação, adquirindo 400 mil doses de vacinas destinadas às jovens que façam 13 e 17 anos em 2009.

Ainda assim, face à “generosidade” institucional do Ministério da Saúde, o presidente da Liga Contra o Cancro, Vítor Veloso, não se mostrou inteiramente satisfeito com a decisão da tutela e declarou aos meios de Comunicação Social que a referida tomada de posição «deveria ter sido alargada a muito mais grupos etários».

Já Isabel Silvestre, médica do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa e especialista em cancros ginecológicos, em declaração à SAÚDE ORAL, manifesta opinião antagónica, uma vez que «os responsáveis pela saúde estão empenhados na resolução deste problema. A prová-lo está a vacinação e o rastreio, feitos pela tutela e a decorrer a nível nacional». Mas, será que o alegado esforço financeiro feito pela tutela já está a surtir algum efeito? «Os efeitos do esforço financeiro têm de ser vistos a curto e a longo prazo. A curto prazo é o rastreio do colo que tem efeitos imediatos na saúde da mulher, a longo prazo, a vacinação das jovens que conduzirá à diminuição da incidência do cancro», sublinha a perita. 

Este tipo de cancro tem algumas particularidades: é causado por um vírus, é um dos poucos tumores malignos em que pode ser administrada uma vacina profiláctica, que pode ser apontada como, grosso modo, a inibidora dos papilomavírus humanos dos tipos que causam 75% do cancro do colo do útero – estudos aplicando modelos matemáticos nos EUA demonstraram que a vacinação contra o cancro do colo do útero poderia prevenir até 91% dos cancros do colo do útero cujos vírus são cobertos pela vacina, dependendo da estratégia de vacinação.

Vacinação ainda é melhor remédio

A vacinação pode, de facto, reduzir significativamente a incidência de resultados anormais nos rastreios, a necessidade das mulheres se submeterem a exames adicionais, ou a remoção cirúrgica das células cancerosas – o evitável, drástico e derradeiro recurso terapêutico para combater as células infectadas pela patologia.
Assim, a vacinação de raparigas pré-adolescentes e adolescentes, antes da exposição ao papilomavírus humano, bem como de mulheres no pico de exposição, é considerada a abordagem mais benéfica.

Para a especialista do IPO, vale, mesmo, mais prevenir do que remediar. E reitera que urge meter na cabeça das mulheres a ideia de que o cancro do colo do útero é um assunto muito sério, dado que este tipo de cancro, que, lembre-se, mata uma portuguesa por dia, assume contornos verdadeiramente dramáticos e defende que é necessário bater na tecla do «informar, informar, informar, prevenir, prevenir, prevenir. Investir na prevenção primária e secundária: vacinar as jovens, rastrear as mães».

Isabel Silvestre assume, sem pego, que, como médica e como mulher, encara a doença da única forma possível. «Como mulher e como médica inserida numa unidade de oncologia e tendo consciência da importância do diagnóstico precoce, tenho-me empenhado, cada vez mais, na informação das jovens e das mulheres, sobre esta doença, que é rastreável».

Quanto à eficácia da vacinação, a médica oncologista que lida diariamente com doença ginecológica não tem dúvidas: «a vacina é altamente eficaz na prevenção do carcinoma do colo do útero e das lesões genitais pré-cancerosas do colo, vagina e vulva. Evita, também, os condilomas genitais».

Rastreio é fundamental 

A literatura científica aponta que o rastreio do cancro do colo do útero não previne a doença. Todavia, ajuda a detectar a presença de células anormais causadas pelo papilomavírus humano, sendo que o mesmo deve ser mantido, dado que as raparigas ou mulheres podem ter sido infectadas antes da vacinação e a vacinação não oferece uma protecção eficaz contra todos os tipos de cancro do colo do útero. A juntar a esses factores, refira-se ainda que os programas de rastreio, em curso em muitos países europeus, enfrentam desafios como a falta de adesão, baixo nível de sensibilidade e especificidade e ainda amostras inadequadas que requerem uma repetição do exame.
Para agravar o quadro, o rastreio do cancro do colo útero pode causar alguma ansiedade nas mulheres, podendo causar-lhes embaraço ou dor. O período de espera pelos resultados também pode ser um problema. A constatação de um resultado anormal, ou o facto de ter que se repetir o exame para obtenção de um diagnóstico definitivo, causa uma carga emocional adicional e afasta a população-alvo dos programas de rastreio. Contudo, avisa a perita, as mulheres vacinadas «devem continuar a ser rastreadas, dado que o cancro do colo pode ter origem noutros tipos de vírus não incluídos na vacina».

A vacina protege contra dois tipos de HPV (o 16 e o 18) que são responsáveis por cerca de 70% dos casos de cancro do colo do útero. Sabe-se ainda que há reacções cruzadas com outros tipos de HPV de alto risco pelo que poderá proteger contra mais casos. No entanto, a protecção não abrange todos os casos de cancro do colo do útero pelo que é essencial que as mulheres, mesmo as que já estão vacinadas, continuem a fazer o rastreio.

Estima-se que aproximadamente 70% das pessoas sexualmente activas sejam expostas ao papilomavírus humano num determinado momento das suas vidas, frequentemente na adolescência ou na fase de jovens adultos. O papilomavírus humano é muito comum e facilmente transmissível; qualquer actividade sexual que envolva o contacto íntimo ou genital com uma pessoa infectada pode levar à transmissão do supra-citado vírus, até porque nem é necessária haver penetração para que ocorra contágio. Mais: os preservativos não garantem protecção contra o mesmo.

Sabe-se que o papilomavírus humano é referido com sendo “silencioso”, dado que as pessoas infectadas não apresentam frequentemente sintomas e, assim, o vírus pode ser transmitido sem que a pessoa infectada dê conta da sua situação clínica. A frieza dos números não dá margens para dúvidas. Muitas vezes, quando a doença é detectada já é tarde de mais. Só em Portugal, morre uma mulher por dia.

Doença perturbante

Dada a capacidade de camuflagem do vírus e a sua alta taxa de contágio, diz Isabel Silvestre, há todo um conjunto de comportamentos sociais que importa rever. «É de relevar que parte das infecções provocadas pelo vírus do papiloma humano não provoca doença. São infecções transitórias. Alguns factores potenciam o desenvolvimento da infecção: o início precoce da actividade sexual, o número de parceiros, o tabagismo, outras infecções genitais, a multiparidade e a imunossupressão», sublinha.

Nunca é demais lembrar que existem sintomas que não devem ser menosprezados. Sempre que alguém tiver sintomatologia que indique hemorragia vaginal anormal, dor durante o acto sexual, corrimento vaginal anormal, dor na região pélvica, é sinal de preocupação, porque é muito provável que se esteja a desenvolver o segundo pior inimigo das mulheres, isto é, cancro do colo do útero.

Na visão da perita, as implicações desta patologia na vida das mulheres afectadas e da própria sociedade deixa cicatrizes no seio do sítio onde a mulher estiver inserida. «Sendo o cancro do colo do útero a segunda causa de morte por cancro, de mulheres entre os 15 e os 44 anos, pode considerar-se um tumor de mulher jovem. Como tal, o seu impacto na vida da mulher afectada é grande, não só na sua vida pessoal, como familiar e social. A nível pessoal interfere com a sua capacidade fértil, bem como com a sua vida afectiva e sexual. Em termos sociais a mulher vê-se muitas vezes afastada das suas responsabilidades profissionais, pela obrigatoriedade dos tratamentos e também pelas sequelas dos mesmos. O diagnóstico do cancro associa-se quase sempre a angústia e sofrimento».

Quando desafiada para fazer exercício de mera ficção, em que a SAÚDE ORAL lhe propunha a utilização ilimitada de verbas para aplicar na doença, a médica afiança apenas que «as melhores soluções não são as mais dispendiosas, mas sim as mais criativas. Exigem empenhamento individual, mudança de hábitos e a solidariedade», conclui.