Tecnologia

CAD/CAM: necessidade de integração no ensino da medicina dentária

Aplicar tecnologias CAD (computer-aided design) e CAM (computer-aided manufacturing) na prática odontológica e laboratorial tem várias utilidades, nomeadamente na produção de dispositivos médicos feitos por medida, como as próteses dentárias e ortodontia. A FDI – World Dental Federation, entidade que representa de mais de um milhão de dentistas em todo o mundo, chegou mesmo a afirmar, em 2017, que apoia “a pesquisa e o desenvolvimento de odontologia CAD/CAM para melhorar a qualidade do produto final e permitir a redução de custos”. Mas, qual é o seu papel no ensino da medicina dentária internacional?

Nos EUA, um artigo de 2015, publicado na Inside Dentistry, afirmou que 76% das escolas de odontologia americanas tinham, pelo menos, uma unidade CEREC, uma das peças de equipamento CAD/CAM mais comuns nas clínicas dentárias. Porém, o acesso a essa tecnologia está longe de ser generalizado, segundo um relatório da Dental Tribune International, em 2017. A maioria dos dentistas britânicos afirmou não usar nenhum equipamento CAD/CAM, embora 89% tivessem admitido que este tem um papel importante no futuro da medicina dentária.

O CAD/CAM pode auxiliar a formação dentária como ferramenta para futuros dentistas num ambiente pré-clínico. Os estudantes de odontologia de hoje são muitas vezes ‘nativos digitais’, pelo que têm maior afinidade com a incorporação do CAD/CAM nas suas experiências de aprendizagem.

No geral, explica o Dental Tribune, a integração do CAD/CAM nos currículos das escolas de medicina dentária mundiais está a aumentar. O Hospital Universitário de Heidelberg, na Alemanha, a Universidade Queen Mary, de Londres, Inglaterra, e a Universidade RMIT, na Austrália, são alguns dos institutos educacionais que, atualmente, oferecem cursos centrados em tecnologias CAD/CAM dentárias.

Uma das primeiras escolas de odontologia a incorporar CAD/CAM no seu currículo foi a Faculdade de Odontologia da University of Tennessee Health Science Center, nos EUA. Em 2001, a escola investiu numa unidade CEREC 3 da Dentsply Sirona.

Mojdeh Dehghan, professora associada e presidente do Departamento de Medicina Dentária Geral, foi uma das principais impulsionadoras dessa mudança tecnológica. A professora explicou ao Dental Tribune como a escola integra a tecnologia CAD/CAM desde o primeiro dia dos estudos pré-clínicos dos alunos, o que lhes permite compreender melhor o que o seu eventual estudo clínico implicará.

“Antes do final do primeiro ano, os nossos alunos de licenciatura não só foram apresentados ao CAD/CAM no curso de morfologia dentária, como também realizaram um curso de ‘Introdução à Dentisteria CAD/CAM’, no qual trabalham diretamente com dentes de um modelo que já estão preparados para um onlay e uma coroa, passando por todo o processo de digitalização, desenho e fresagem”, explica Dehghan.

“Quando são expostos a estas tecnologias desde o início, especialmente para a nova geração de especialistas em tecnologia, não só gostam muito de ter a oportunidade de ver o que vão fazer mais tarde, mas também são capazes de reforçar o conhecimento de morfologia e anatomia dos dentes que aprenderam em cursos anteriores”, acrescenta Dehghan. “É a melhor forma de integrar a tecnologia nos cursos de ciências básicas e tem sido um programa muito bem-sucedido para nós”, acrescenta.

“A odontologia digital é agora uma realidade, e as escolas e consultórios odontológicos devem fazer parte disso. As escolas de odontologia devem mudar e adaptar seus currículos em conformidade”, nota.

No entanto, de acordo com Dehghan, é importante que os alunos dominem tanto a técnica digital, como a ‘analógica’: “Muitas vezes, não sabemos exatamente onde nossos alunos vão acabar a trabalhar”, diz Dehghan.

Em declarações à SAÚDE ORAL, o professor na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo, Arthur Novaes, salientou o mesmo: “[O digital] está sendo uma revolução. Tivemos todos de estender o número de anos dos cursos por causa das novas especialidades, como a gerodontologia, implantes, procedimentos regenerativos…e agora, com essa parte digital, temos de adquirir produtos e treinar os alunos. Não podemos só treiná-los para fazer a parte de prótese como era antigamente, num modelo de gesso — temos de fazer isso porque nunca se sabe se onde o aluno vai trabalhar vai ter essa tecnologia, mas temos de prepará-lo para a odontologia do século XXI ou XXII. O digital vai ser o futuro, mas tem de continuar sabendo o básico. Na minha universidade, a Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo, recebemos alunos de pós-graduação de toda a América Latina, talvez nessas regiões não haja tecnologia, então o tradicional ainda vale, mas o digital é o futuro.”