Medicina Dentária

A última entrevista de João Carvalho à Saúde Oral

“Bolonha veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino”

Numa altura em que a Medicina Dentária portuguesa está de luto, recuperamos a entrevista de João Carvalho à Saúde Oral em 2012 a propósito das mudanças do processo de Bolonha.

João Carvalho fez parte do primeiro grupo de alunos a ser formado na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto e desde sempre esteve ligado a esta instituição, nomeadamente na elaboração do currículo mediante Bolonha. Por isso é que, com verdadeiro conhecimento de causa, assume que a nova estrutura do programa veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino. O professor defende que as faculdades deviam ser ainda mais intervenientes nas pós-graduações e que o ministério devia orientar melhor os jovens quanto às saídas profissionais.

Formou-se no primeiro curso da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto e desde sempre esteve ligado a esta instituição. Hoje como vê o ensino após Bolonha?

Mais uma vez foi o seguidismo europeu em tentar uniformizar e no qual acabamos todos por cair nos mesmos buracos… Neste caso foi no ensino. Acontece que, numa visão um pouco mais de gabinete, acabam por se tomar algumas decisões desfasadas da realidade. E hoje a formação da nossa área é o que é…

E é o quê?

A medicina dentária tem uma componente clínica fortíssima e, neste momento, está extraordinariamente prejudicada. É possível condensar uma anatomia com uma carga horária menor, mas não é possível que cada aluno faça o mesmo treino em menos horas. Ninguém consegue executar o mesmo número de atos num menor período de tempo.

Mas então como é possível que tantos tenham a mesma opinião, de que Bolonha veio prejudicar clinicamente o curso, e se avance para uma solução destas?

Posso-lhe falar do que me aconteceu, até porque participei na elaboração do currículo mediante Bolonha para esta faculdade. A elaboração desse currículo, condensando e tentando ajustar e comprimir determinadas áreas e disciplinas, aconteceu… porque era uma inevitabilidade. Simplesmente tinha de ser feito! Não dava para não aceitar, para não colaborar. Penso que nesse aspeto todos somos um pouco culpados. Devíamo-nos ter revoltado, até porque todos tínhamos a consciência de que ia ser muito complicado. Há um exemplo que é paradigmático do que se passa: em 1986, quando pertenci à comissão de formação de médicos dentistas da União Europeia, uma das coisas que se discutia era o facto do curso, em alguns países, ser relativamente mais curto do que em Portugal, que já estava com seis anos.

Em Portugal teve desde sempre seis anos?

Sim, começou desde logo, há 35 anos, com seis anos de curso, porque já na altura se entendia que deveríamos ter uma formação mais adequada. Mas na Alemanha, por exemplo, eram quatro anos. Na verdade, a diferença não era basicamente nenhuma porque eles acabavam os quatro anos de preparação teórico-prática e depois faziam dois anos de prática clínica. Prática essa que muitas vezes não era feita numa faculdade, era permitido que fosse feita fora. Mas não deixava de ser obrigatória. Simplesmente não era possível ter o diploma para exercer sem completar esses dois anos. Admito que os decisores políticos, em Bolonha, quando tomaram a decisão tenham sido pressionados pelas razões económicas. Em termos económicos, se todos os cursos fossem encurtados, o peso no erário público europeu seria muito menor. E depois, se as pessoas se quisessem tornar profissionais mais qualificados teriam de apostar a posteriori, suportando eles próprios os custos. Ou seja, não imputando esses custos às nações… Estou convencido de que foi isso que aconteceu.

“Bolonha veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino”

Mas assim não podemos vir a ter um ensino demasiado elitista? A construção de um currículo académico vai ser onerosa…

Penso que as faculdades têm aberto vagas suficientes para preparar, numa pós-graduação, os médicos dentistas. E a custos relativamente acessíveis. Aliás, digo-lhe já que é impossível fazer isto sem custos. Mas a custos acessíveis sim, é possível. E isso as faculdades têm tido um papel importante, apesar de condicionadas por uma outra coisa que lhes interessa: passaram a ter fonte de receita.

Que não tinham antes?

Não, antes não tinham. Estas duas vertentes, ou seja, o interesse do recém-licenciado em se preparar melhor com um custo que é relativamente acessível e as próprias faculdades que estão interessadas em serem financiadas vão acabar por permitir que os estudos sejam devidamente complementados. A prova disso é que floresce muita formação pós-graduada extra-faculdade. Pronto, admito que muitas vezes de qualidade duvidosa e muitas vezes com pessoas que vêm do estrangeiro e cujo mérito nem sempre é reconhecido… E que acabam por ser feitos aos fins de semana, tentando ajustar-se à disponibilidade dos interessados. Onde quero chegar é que muitas vezes estas formações não vão ser suficientes, por isso mesmo defendo que as faculdades deviam ter mais capacidade para as fazer. Mas é verdade que as faculdades, neste momento, têm muita dificuldade em alargar os seus quadros. E isto mesmo tendo receitas próprias. Podíamos e devíamos utilizar ainda mais toda a infraestrutura que temos montada nas várias faculdades, mas no caso das instituições de ensino públicas lutamos com algumas dificuldades.

Como vê a prestação da Ordem dos Médicos Dentistas nestes últimos tempos?

Penso que neste momento a Ordem começa a ter algum peso político que antes não tinha e por isso não fazia vingar as suas posições. Até porque, desde que foi criada até este momento, sempre teve um competidor direto – a Ordem dos Médicos – que no número de profissionais esmagava completamente a capacidade de pressão política dos Médicos Dentistas. Para ser sincero não sei, neste momento, quais as relações que o Bastonário tem com o atual secretário de estado. Mas sei que com o anterior a relação era muito boa, penso que também as relações pessoais, independentemente da política, fazem com que os profissionais sejam ouvidos. E na verdade foram conseguidos alguns objetivos. Com este sinceramente não sei até que ponto há ou vai haver capacidade de influência para que haja uma atuação. A Ordem tem procurado fazer algum trabalho no sentido de dignificação da profissão em termos do que é a legalização da profissão, mas muitas vezes é perfeitamente ultrapassada. Ainda no último congresso, o Bastonário estava contente pelo facto de se ter aprovado uma tabela de nomenclatura, mas cuja questão de fundo, na minha opinião, não está resolvida pois não pode haver uma tabela de honorários. No sentido de, pelo menos, ter um valor mínimo e máximo a cobrar. Aliás, esta não é uma dificuldade da Ordem, é uma dificuldade da União Europeia.

Essa matéria é hoje particularmente importante?

É porque com a lei da concorrência acontece o que vemos atualmente: praticarem-se preços perfeitamente impraticáveis ou que só são possíveis se não se cumprir o que está preceituado. Daí que a Ordem tenha atuado perante algumas clínicas onde são vistos autênticos escândalos. Nessas tais situações escandalosas houve atuação… mas sabemos pelos nossos ex-alunos que em muitos sítios as práticas estão longe de ser corretas. E, por vezes, ouvimos alunos a desabafarem que no sítio x ou y o fio de sutura se esteriliza, ou que as luvas são lavadas… E nós ficamos aterrorizados porque essas situações não passam cá para fora. Não estou a dizer que é em muitos sítios, mas existe. E quando vemos serem praticados no mercado alguns preços só é possível se, de facto, se fizerem coisas deste género. Porque se forem cumpridos os mínimos…

E que outras situações vos chegam aos ouvidos?

Por exemplo, outros sítios que, apesar de cumprirem normas de esterilização e etc., pagam ordenados à hora, na média de 2,7 euros a 3 euros. Os profissionais, neste caso ex-alunos, estão a trabalhar em sítios que, por sua vez, trabalham para convenções que têm um valor muito baixo. Tomemos por exemplo a ADSE: esse profissional vai receber qualquer coisa como 20% do valor acordado com a convenção. Ou seja, chegamos aos tais 2 ou 3 euros por hora. Como é possível uma pessoa executar bem a sua função por este preço? A única coisa que vai fazer é que naquele espaço de tempo que está a trabalhar vai tentar ver o maior número de pessoas possível, com o risco de não tratar adequadamente os seus pacientes. É a única forma. Só que, para essa empresa, o que interessa é que seja vista muita gente. Aí acredito que seja possível fazer preços muito baixos.

“Bolonha veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino”

Há demasiadas faculdades a lecionarem medicina dentária?

Partilho da opinião que a ordem natural das coisas é que devia solucionar esta questão. Enquanto houver pessoas que se inscrevem e pagam as propinas, se calhar é o número certo. Agora, se devem fechar faculdades públicas ou privadas? Também aí tem de haver uma seleção feita pelos próprios interessados. É um facto que cada vez há menos gente a se inscrever nas faculdades. Mesmo assim, as vagas são preenchidas na totalidade… Penso que o mercado tem de funcionar! Os meus filhos foram para medicina dentária. No meu entender foi uma opção errada, simplesmente optaram por uma época má. Isto é, não foi por minha influência, porque no ciclo de crescimento exponencial de profissionais que havia não era aconselhável que eles escolhessem esta profissão. Estou convencido de que se calhar para os meus netos já terá justificação. Quando a minha geração começar a entrar na reforma provavelmente começa a decrescer o número de profissionais. O grave de tudo isto é haver falta de planeamento por parte do Ministério. No sentido de que não se transmite para os jovens um equilíbrio de oportunidades. Do que é que o país necessita? Não há um estudo adequado… Mas admito que daqui a 15 anos haja falta de médicos dentistas uma vez que dentro de pouco tempo as pessoas não se vão querer inscrever porque pressentem que vão para o desemprego.

Já acontece?

Já. Num trabalho recente da Ordem vinha exposto que os jovens licenciados não têm pleno emprego. Trabalham umas horas. Assim como os advogados, etc. O problema de fundo é o mesmo. Continuamos a dar a profissão como sendo algo que vai ser ótimo do ponto de vista económico e social para aquela pessoa e o problema é que vai ser mais um para ter uma profissão que não vai desempenhar. Vai ter de desempenhar outra qualquer para a qual nunca se preparou. Vai ter de estar atrás de um balcão a vender umas peças de roupa e ser advogado ou dentista nos tempos livres. Uma vez fiquei chocado quando fui a Milão, convidado por estudantes de medicina dentária, e encontrei um taxista que era dentista porque havia profissionais a mais e ele tinha de sobreviver. Até que ponto isto se justifica… A orientação dos jovens é a grande falha no país.