Opinião

Arte e medicina dentária

Se medicina dentária fosse uma arte, o implantologista seria escultor, quem se dedicasse à estética dentária seria um pintor (os endodontistas mais especializados em quadros de natureza morta), os ortodontistas poderiam ser arquitetos, odontopediatras dançarinos, e as analogias poderiam continuar… Porquê? Porque há uma vertente humana no que fazemos.

Por definição, arte, do latim ars, é o conceito que engloba todas as criações realizadas pelo ser humano para expressar uma visão/abordagem sensível do mundo; mas quem de facto é artista? Esta é a grande pergunta. O artesão é alguém que produz obras múltiplas, ao passo que o artista cria obras únicas; logo, cada boca é uma boca, algo singular.

O conceito de unicidade é algo severamente ameaçado pelo avançar da tecnologia na medicina dentária. Há cada vez mais artesãos e menos artistas, produção em massa e em série de tratamentos dentários. Em medicina há um ditado: tudo é fatal, depende apenas da dose. Não que a tecnologia seja algo negativo, na dose certa ajuda, mas, em excesso, tem tendência em substituir o humano do planeamento à execução do tratamento. Veja-se a inteligência artificial, que cientistas como Stephen Hawking e Elon Musk consideraram como uma ameaça à existência humana. O que fará de nós médicos dentistas?

Mas, antes de ser rotulado como um Velho do Restelo, não sou contra os avanços tecnológicos. Tenho, sim, receio de excessos. É a preguiça que move o mundo, sem ela não teríamos carros, controlos remotos, micro-ondas, Bimby. E é a preguiça que faz os inventores e engenheiros desenharem formas de otimizar processos de execução. Enquanto classe, os médicos dentistas absorvem tudo o que são inovações, sempre com algum entusiasmo, mas como nem nada dá para tudo nem tudo dá para nada, começam-se a utilizar gadgets e novos “brinquedos” de forma indiscriminada, sem ter formação ou até sem ter indicação para o caso a ser tratado e, rapidamente, uma técnica ou tecnologia ganha má-fama.

Na equação médico dentista + paciente = tratamento dentário, as inteligências artificiais e demais maquinarias são apenas parcelas que adicionam, sem nunca substituir o profissional. Muitos avanços vêm para ajudar, como na Suécia, que tem uma investigação em curso para criar a A.I.D.A., a primeira rececionista virtual para clínicas dentárias, ou na China, um robô programável para simular a oclusão do paciente.

Neste admirável Mundo Novo, temos à disposição ferramentas para sermos médicos dentistas muito mais eficazes e bem treinados do que no passado; é uma questão de, qual gladiador, escolhermos as armas certas para entrar na arena.

*Vítor Brás é médico dentista e investigador de neuromarketing em medicina dentária.