Medicina Dentária

Workflow digital: “Será a curto/médio prazo a dentisteria restauradora de todas as clínicas dentárias”

Workflow digital: “Será a curto/médio prazo a dentisteria restauradora de todas as clínicas dentárias”

O workflow digital veio facilitar a comunicação entre o médico dentista e o técnico de prótese. Veio ainda agilizar alguns procedimentos clínicos e laboratoriais “tornando-os bastante mais rápidos e menos sujeitos ao erro humano ou a alterações dos materiais utilizados”.

Atualmente, a tecnologia digital possibilita uma melhor integração das diferentes fases dos processos e uma comunicação muito mais efetiva entre o médico dentista, o paciente e o laboratório. Atrevendo-nos a fazer vaticínios acreditamos que o workflow digital na área da dentisteria veio para ficar.

Mas será esta efetivamente uma tecnologia tão disruptiva quanto aparenta?

Não restam dúvidas de que a introdução do workflow digital na medicina dentária, no geral, e na área a dentisteria em particular, “trouxe um enorme contributo de eficiência à prática clínica e laboratorial, dado que o fluxo de trabalho alia eficácia a uma redução de tempo e esforço com métodos convencionais”, aponta Ana Mano Azul, professora e regente das unidades curriculares de Dentisteria Operatória, Endodontia e Medicina Dentária Conservadora no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (ISCSEM).

Por outro lado, como aponta Pedro Samões, “não acredito tratar-se de uma verdadeira revolução na área da dentisteria, visto que o workflow digital não nos permite fazer nada mais além daquilo que já era executado, tanto nas clínicas, como nos laboratórios, até ao seu surgimento”. Apesar disso, na opinião do médico dentista com prática privada em Leiria e no Porto nas áreas da dentisteria estética e reabilitação oral, estamos a falar de uma tecnologia que “já deu provas mais do que suficientes para me fazer acreditar que veio para ficar e, mais ainda, que será a curto/médio prazo a dentisteria restauradora de todas as clínicas dentárias”.

As tecnologias CAD/CAM

As novas tecnologias sempre foram e serão sinónimo de evolução e o futuro, ou o presente, passam pela integração dos sistemas de CAD/CAM com vista a simplificar alguns dos procedimentos da prática clínica diária.

No caso de Inês Carpinteiro, oradora da reunião clínica ‘Digital Workflow em Dentisteria Estética’, da Clínica de Medicina Dentária da Egas Moniz, que decorreu em maio do ano passado, “o CAD/CAM contribui diretamente para a minha evolução profissional; não só permite a prontidão na resolução de casos clínicos, como influencia diretamente a escolha do tratamento para o doente, quer em termos de materiais ou em termos de método de reabilitação”.

Olhando para trás constata-se que nos últimos trinta anos têm vindo a acontecer grandes desenvolvimentos no campo do design assistido por computador – computer-aided design (CAD) – e do fabrico assistido por computador – computer-aided manufacturing (CAM) – os quais se traduzem no desenvolvimento de dispositivos de digitalização 3D de alta definição, de software de design mais simples, rápidos e precisos, e de fabricação aditiva ou subtrativa precisa de materiais inovadores. Tudo isto implica/traduz um workflow digital.

Processo evolutivo

As tecnologias CAD/CAM vieram oferecer soluções terapêuticas aperfeiçoadas ou até totalmente novas, ao representarem uma alternativa aos procedimentos tradicionais. Deste modo, a utilização de impressões digitalizadas diminui o número de passos clínicos e laboratoriais necessários, possibilitando encurtar com eficiência os prazos de entrega dos dispositivos médicos feitos por medida.

Neste panorama, a evolução é uma constante e a única certeza de que vai/está a acontecer. “A velocidade a que nos últimos 5-7 anos tem evoluído toda a tecnologia, desde os sensores às fresadoras, passando pelos próprios materiais utilizados nas restaurações, a constante melhoria da definição obtida tanto na leitura, como na fresagem das peças” tem sido dos aspetos mais notórios, em termos de evolução, para Pedro Samões. Neste contexto, o médico dentista salienta que “o interesse crescente da Indústria, com investimento permanente na investigação e desenvolvimento de novos produtos e programas, tem permitido um rápido crescimento da área”.

Para Inês Carpinteiro, ao longo de todo o processo evolutivo a que se tem assistido, “a curva de aprendizagem, principalmente o design das restaurações” é aquilo que merece maior destaque.

Neste contexto esclarece que “é, sem dúvida, o passo mais importante e mais difícil para nós médicos dentistas. A evolução da tecnologia CAD/CAM tem sido galopante; os sistemas de software são cada vez mais intuitivos, mas mesmo assim penso que é o passo que necessita de maior curva de aprendizagem”.

Neste processo evolutivo, porém, a médica dentista releva “a evolução dos materiais possíveis de fresar”. O mercado tem crescido imenso e, no seu caso em particular, trabalha “com uma maior variedade de materiais dentários do que trabalhava antes de utilizar a tecnologia CAD/CAM”.

Já Ana Mano Azul salienta que aquilo que se torna evidente em qualquer evolução tecnológica atual é “a celeridade na melhoria dos equipamentos e software aliada a uma crescente concorrência no mercado”. Por exemplo, passámos de uma realidade “de confeção subtrativa de peças protéticas, com a fresagem de blocos de diversos materiais, para uma realidade aditiva com as impressões 3D, o que se deveria traduzir num futuro próximo numa redução de custos”, conclui.

Restaurações indiretas e reabilitações

Em todo este cenário, o workflow digital “veio facilitar a comunicação médico dentista/técnico de prótese e veio agilizar procedimentos clínicos e laboratoriais tornando-os bastante mais rápidos e menos sujeitos a erro humano ou a alterações dos materiais utilizados, o que numa época em que cada vez mais tempo é dinheiro, não é pouco”, salienta Pedro Samões.

Analisando algumas situações em que o workflow digital veio fazer a diferença, Ana Mano Azul indica que “na minha área de competência veio diferenciar-se na reabilitação oral, visto que engloba desde o scanning intra-oral, eliminando as impressões convencionais, até ao design e confeção de mock-ups, moldeiras e restaurações unitárias ou múltiplas em diversos materiais”. A médica dentista aponta, igualmente, que na área da reabilitação sobre implantes “o workflow digital pode ser introduzido desde a fase pré-cirúrgica”. Daí que, no seu dia-a-dia, recorra a esta tecnologia em situações de “reabilitação oral sobre dentes e sobre implantes”.

Por sua vez, Pedro Samões indica que as “reabilitações fixas extensas com aumento da dimensão vertical de oclusão (DVO), envolvendo a alteração estrutural de muitas peças dentárias e a determinação de um novo padrão oclusal e mastigatório, são cada vez mais comuns devido a hábitos parafuncionais presentes e ao envelhecimento da população”. Assim sendo, na sua prática clínica são este os casos que mais beneficiam “da rapidez e do agilizar de protocolo que o workflow digital permite”, acrescenta.

Ainda no que toca às situações em que esta tecnologia faz a diferença, Inês Carpinteiro reforça que é nos “casos de reabilitações totais, quer sobre implantes, quer sobre dentes”, explicando que “o tempo e a dificuldade destas reabilitações é muito menor se utilizarmos o workflow digital. Para o doente, poder sair no próprio dia com uma reabilitação definitiva é sem dúvida uma vantagem imensa”. Daí acreditar que neste ponto “podemos fazer a diferença”.

No seu caso, em particular, a médica dentista recorre bastante ao workflow digital “em restaurações indiretas e em reabilitações totais sobre dentes”.

Prós e contras

Existem, contudo, condicionantes à utilização desta tecnologia na prática clínica. Para começar, um dos principais desafios, com tanta variação no mercado, é “tomar a opção adequada para aquisição do primeiro equipamento, sabendo-se de antemão que rapidamente se tornará obsoleto”, alerta Ana Mano Azul. Por outro lado, o custo dos equipamentos pode ser uma condicionante, “embora hoje em dia existam muitas opções para a sua aquisição”, acrescenta.

Um acompanhamento capaz e atempado de toda evolução tecnológica desta era digital em constante estado de mutação ao nível do hardware e software poderá constituir uma limitação. Neste sentido, outro aspeto a ter em conta é que quem quer utilizar um workflow digital na sua prática clínica diária “terá de estar preparado para seguir uma curva de aprendizagem”, declara Ana Mano Azul, salientando que, no entanto, “evoluir aprendendo deve ser um repto constante no nosso dia-a-dia”.

Falando concretamente nos benefícios e nos inconvenientes da utilização do workflow digital na dentisteria, para Pedro Samões a principal vantagem nos dias de hoje é “a rapidez de trabalho que este tipo de workflow permite, com um intervalo de poucas horas entre a preparação e a colocação das peças, muito difícil, para não dizer impossível, de replicar por técnicas convencionais”.

Inês Carpinteiro vai mais longe e divide as vantagens em dois ‘blocos’: as clínicas e as mecânicas. Os benefícios clínicos “estão relacionadas diretamente com o conforto do doente e do médico; a prontidão da reabilitação, menos ajustes oclusais e menos falhas de adaptação levando a um menor tempo de cadeira”. Quanto às vantagens mecânicas, a docente destaca “o comportamento mecânico dos materiais fresados versus não fresados”.

Mas de facto esta tecnologia não está isenta de inconvenientes. Pedro Samões reforça que a principal desvantagem está ligada “às limitações técnicas ainda existentes e o preço ainda excessivo deste tipo de tecnologia, o que encarece os procedimentos”.

Mas inconveniente que mais preocupa Inês Carpinteiro é “a menor exigência estética que podemos ter por serem reabilitações com materiais fresados, visto que muitas vezes somos nós a desenhar e a acabar as restaurações e não quem é realmente apto para as fazer, como os técnicos de prótese”.

FDI e CAD/CAM

De acordo com o site da Ordem dos Médicos Dentistas, em termos de políticas, a Federação Dentária Internacional (FDI), no respeitante ao CAD/CAM, apoia:

– A pesquisa e o desenvolvimento de processos CAD/CAM aplicáveis à medicina dentária, a fim de se obter um produto final de melhor qualidade e a mais baixo custo;

– A estreita colaboração entre os fabricantes, a comunidade académica e todas as partes intervenientes, no âmbito da formação contínua, no sentido de apurar o conhecimento e a formação dos médicos dentistas em relação às alternativas terapêuticas inovadoras e às suas respetivas indicações e contraindicações;

– O desenvolvimento de sistemas abertos e de normas internacionais pela ISO TC106, para garantir a interoperabilidade dos diversos sistemas CAD/CAM no campo da medicina dentária;

– A criação, pela ISO TC106, de normas internacionais relativas às cerâmicas e aos materiais híbridos utilizados na tecnologia CAD/CAM em medicina dentária;

– A implementação de formação inicial e de formação profissional contínua, de âmbito nacional, regional e internacional, respeitante à tecnologia CAD/CAM em medicina dentária, destinada a médicos dentistas e a técnicos laboratoriais;

o desenvolvimento de redes de utilizadores de âmbito local, a fim de mutualizar o investimento no equipamento necessário.