Opinião

Um dia de sol

Um dia de sol

Era um dia de semana como outro qualquer, como tantos outros já tinham passado, era um dia de trabalho em que nada fazia prever contrariedades, pelo que saí de casa de bom humor ajudado no trajeto pelo sol radioso e temperatura amena que se fazia sentir. Afinal sou privilegiado por viver num país em que a democracia funciona em pleno, o sistema judicial é célere, severo e eficaz, sendo por isso temido pela classe política com tendências de irresponsabilidade e corrupção, em que a comunicação social é livre e independente, racional e imparcial, acutilante e implacável quando assim tem de ser.

Um país em que os níveis de pobreza são residuais, em que a terceira idade se sente apoiada e acarinhada, em que existe uma segurança social financeiramente saudável e racional nos apoios que presta, fruto de décadas de boa gestão das finanças públicas.

Um país em que o sistema nacional de saúde é apoiado e financiado com uma visão estratégica de longo prazo, em que não se constatam exemplos de má utilização de recursos, nem humanos nem económicos, e em que a minha profissão de médico dentista está devidamente integrada e respeitada porque entendida como fazendo parte indispensável do bem-estar e saúde geral do Ser humano. Como seria possível, nesse dia de sol radioso e temperatura amena não sair de bom humor de casa?!

Ia iniciar-se uma jornada de trabalho exercendo uma profissão por mim escolhida há mais de 30 anos, de livre vontade, cheio de perspetivas animadoras e livre de escolhas. Uma profissão que se veio a revelar nestes tempos modernos como sendo a cada dia mais considerada pela população que serve, que nos respeita e nos merece cada esforço no sentido de sermos mais exigentes connosco próprios.

Uma profissão dignificada pelas suas prestações, pela sua reputação de honestidade, de transparência e de humildade; uma profissão representada por dirigentes com uma visão estratégica e coerente do presente e futuro dos médicos dentistas, respeitados e ouvidos pelos decisores políticos na hora de tomar decisões marcantes para o presente e futuro desta profissão. Dirigentes e decisores políticos esses, tidos unanimemente como sendo inteligentes, bem-formados e bem-informados que são atributos distintos, mas não menos importantes uns que outros.

Tal como as Leis e regulamentos que nos regem, que verdadeiramente nos auxiliam e facilitam o dia-a-dia, diria até que verdadeiramente nos protegem, zelam pelo nosso bem-estar físico e psíquico, e facilitam tantas vezes as tomadas de decisão, que cuidam dos reais interesses e direitos dos pacientes. Com tais condições como seria possível não sair de casa de bom humor?! Num dia de sol radioso e temperatura amena.

Afinal, vivo num país em que tudo funciona quase na perfeição. A estrada municipal que percorro ao sair de casa está impecavelmente marcada, com um piso regular, confortável e seguro. Nela me cruzo com condutores cívicos, imbuídos da responsabilidade que é conduzir uma máquina potencialmente letal, nunca me tendo cruzado com irresponsáveis que utilizam o telemóvel enquanto o fazem ou que não adequem a sua velocidade à estrada em que circulam.

Na cidade o estacionamento está previsto, é organizado e disciplinado, os passeios estão limpos, irrepreensivelmente mantidos, e nunca me cruzo com algum habitante que considere o chão público como escarradeira ou caixote de lixo, ou pragueje alarvemente em som bem audível. Dá prazer caminhar pelas ruas.

Tudo isto não é obra do acaso, reconheço-o. É que temos tido ao longo dos anos um país em que a incompetência grosseira ou a baixa política é fenómeno socialmente condenado e em que a população tem sabido, democraticamente, rejeitar. Em tempo de eleições, a população une-se, vota em massa e rejeita o desrespeito pelo interesse nacional. Seja a nível local, nacional ou nas demais instituições desportivas, sociais, profissionais. Além de tudo isso, estava um dia de sol radioso e temperatura amena. Como não sair de casa de bom humor?!

Trabalho numa sociedade em que o Estado encontrou maneira, porque muito bem assessorado pelas pessoas certas, de providenciar um eficaz mecanismo de assistência médico-dentária à população que se sente plenamente satisfeita e que igualmente nos satisfaz a nós, médicos dentistas. São regras simples, fáceis, sem burocracias exageradas que tornam o seu funcionamento verdadeiramente eficiente.

Transformou-se um prazer lidar com programas informáticos e formulários, tal é a satisfação de ver premiado esse esforçozinho suplementar pelo reconhecimento do paciente que beneficia de uma verdadeira e justa comparticipação dos tratamentos de medicina dentária. Assim como nós, os prestadores de cuidados, igualmente nos sentimos justa e dignamente recompensados pelos nossos atos.

Este mesmo Estado que controla e nos regula o exercício da profissão, obviamente com intenções superiores tendo em vista o nosso bem-estar físico e psíquico, igualmente conseguiu regular o sector dos seguros de saúde. Que alívio existirem esses mecanismos, transparentes e alargados, sem falsas promessas nem condições particulares escondidas, que tanto fazem pelos nossos pacientes e consequentemente pelo equilíbrio financeiro dos nossos consultórios.

O que seria de nós, como poderíamos suportar os custos de manutenção e renovação das nossas instalações caso não usufruíssemos de pacientes com seguros dentários que realmente cobrissem as nossas despesas? Felizmente existem essas vias de comparticiparem os portugueses nos gastos com uma medicina dentária cada vez mais dispendiosa nos seus custos. Mas também é verdade que fazia um lindo dia de sol…

Depois…bem, depois, tocou o despertador, abri as persianas e afinal está de chuva e faz frio…