Entrevista

O futuro vai ser a medicina dentária à distância

O futuro vai ser a medicina dentária à distância

Pedro Costa Monteiro é o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alinhadores Dentários (SPAD), uma entidade criada no final do ano passado e que teve em maio o seu primeiro congresso.

O que o levou a criar a Sociedade Portuguesa de Alinhadores Dentários?

Há mundialmente uma revolução na ortodontia, nomeadamente com a introdução dos alinhadores dentários. É algo que já existe há muito tempo, mas nos últimos dois, três anos, a verdade é que se verificou um boom mundial, muito em parte devido à atuação da empresa Invisalign. Aliás, este passou a ser o tratamento de escolha na ortodontia. Em alguns países, já existem sociedades como esta e exemplo disso é a vizinha Espanha. A Sociedade Espanhola de Alinhadores Dentários já é uma entidade com uma representatividade muito grande.

De que tipo de representatividade está a falar?

Já faz congressos para mais de mil pessoas. Para ter uma ideia, o ano passado foram iniciados 70 mil casos na Península Ibérica, dos quais 66 mil são em Espanha e quatro mil em Portugal. Existe uma discrepância muito grande entre os dois países.

Foi essa, digamos, assimetria que também o fez pensar em criar a Sociedade?

De alguma forma, sim. Eu e a colega Isabel Flores éramos as pessoas no Porto que mais nos estávamos a dedicar a esta área e achámos que fazia todo o sentido criar uma sociedade com um objetivo exclusivamente científico, à semelhança do que acontece em Espanha. Consultámos um advogado e acabámos por criar a sociedade. Procuramos colegas ligados aos alinhadores e convidamo-los a serem sócios-fundadores, até para conferir um contexto nacional à sociedade que não apenas restrita à cidade do Porto.

Entretanto, a SPAD realizou o seu primeiro congresso.

Sim, a melhor forma de tornar a sociedade aberta e conhecida a todos os médicos dentistas era através da criação de um evento. E assim foi. Criámos a associação em finais de 2018 e organizámos o evento em maio. E acabou por superar, em muito, as nossas expectativas. Procurámos um espaço característico da cidade do Porto, a Casa da Música, mas limitámos o número de médicos que podiam estar presentes, já que tínhamos por objetivo esgotar a edição. Ou seja, podíamos perfeitamente ter escolhido uma sala para mil pessoas, mas escolhemos uma para 150, pensámos que seria mais adequado à nossa realidade. Acontece que um mês antes esgotámos as inscrições, sendo que na véspera tivemos mais de 30 pessoas a telefonarem-nos e a pedirem para assistir. O problema é que a sala, devido às medidas de segurança da Casa da Música, não permitia mesmo mais pessoas. Assim, já temos objetivo para a próxima edição: duplicar o número de inscritos.

O futuro vai ser a medicina dentária à distância

Qual o balanço do evento, além de terem superado as expectativas no que diz respeito ao número de pessoas inscritas?

Correu muito bem. Apostámos em nomes estrangeiros já com muita experiência, de Itália, Estados Unidos e Espanha, países que são as referências desta área. As pessoas aceitaram os convites e, no final, acho que nós próprios acabámos por ficar surpreendidos com a forma como tudo correu.

Qual foi o feedback que tiveram dos participantes?

Até agora, basicamente só tivemos impressões positivas. Sendo que a única crítica foi mesmo não termos dimensionado bem o evento. Mas não estamos minimamente arrependidos.

Quais as grandes linhas gerais da Sociedade Portuguesa de Alinhadores Dentários?

Em primeiro lugar, queremos ser uma sociedade aberta. Não queremos ser uma sociedade só de ortodontistas, queremos que seja aberta a todos os médicos dentistas das mais vastas especialidades. Provas disso é que já neste congresso tivemos médicos dentistas generalistas, especialistas em ortodontia, estomatologistas e cirurgiões maxilofaciais. Ou seja, conseguimos ter pessoas na audiência de todos os quadrantes e esse era o objetivo. O segundo grande objetivo é ser uma sociedade que não se mova apenas com o intuito de fazer um congresso por ano. Queremos ter eventos mais pequenos, sempre com o objetivo de melhorarmos clinicamente, ajudando-nos mutuamente.

Sentem que de alguma forma o congresso criou uma certa expectativa relativamente à atuação da sociedade?

Acredito que criou uma vontade de vir aprender esta área. No nosso caso, que temos um [curso] master privado de alinhadores, esgotou logo. Vamos na quarta edição do master, o de junho esgotou, com 20 médicos. E mesmo para o de janeiro já temos inscrições. Nota-se que as pessoas estão a ir por este caminho. Outra coisa interessante é que recentemente estive em Londres, numa conferência da Invisalign, e dos 300 médicos do planeta que fazem mais Invisalign, quatro eram portugueses. Num universo de 300 não é mau. O objetivo era mostrarem-nos qual o futuro dos alinhadores. E isso é uma coisa que vamos trazer para a sociedade e abrir um pouco o pano do que serão os próximos dois ou três anos.

Tem sentido uma particular evolução nesta área?

Digo muitas vezes que nunca imaginaria há três anos estar a fazer isto. De todo. A minha convicção para o futuro, mesmo muito próximo, é que os brackets vão acabar. Uma pergunta que fiz a todos os convidados internacionais foi em que casos é que ainda não é possível usar alinhadores. Responderam todos: nenhum. O que é incrível, já que antes cobria apenas 10% dos casos.

Quais os obstáculos que têm encontrado pela frente, nomeadamente na realização do evento?

Honestamente, não encontrámos obstáculos. Foi preciso trabalhar muito, mas acho que a organização foi muito boa, com os sponsors a desempenharem um papel absolutamente fundamental. As marcas estiveram ao nosso lado e prontificaram-se a patrocinar e ajudar. Convém salientar que não foi, de todo, um congresso de Invisalign, foi um congresso de alinhadores.

Como vê a evolução da profissão?

Estive recentemente numa conferência com o braço direito do Steve Jobs que nos falou do que acha que vai ser o futuro. O presente da medicina dentária é digital. Acredito honestamente que o futuro vai ser a medicina dentária à distância.

O que é que isso quer dizer?

Vamos ver pouco os pacientes, vamos tocar pouco os pacientes com as mãos, particularmente na ortodontia. Ainda hoje recebo pessoas da Dental Monitoring, que é uma monitorização do tratamento à distância. Ou seja, dou ao paciente os alinhadores, dou-lhe um scanner portátil que leva para casa e trato-o à distância. Porque hoje em dia, o bem mais essencial é o tempo, que pode ter um preço muito alto. Assim, as pessoas conseguem poupar tempo e não têm de se deslocar à clínica todos os meses para apertar o aparelho. Isso vai deixar de existir. Eu vou-lhe dar todos os alinhadores, um scanner associado ao seu telemóvel que através de uma app está em constante contacto comigo. Assim, vai ser possível monitorizar o tratamento e só exigir que as pessoas se desloquem aqui mesmo quando for necessário.

Isso vai fazer uma triagem no mercado ao nível dos profissionais?

Vai. Porque 80% do tratamento ortodôntico é diagnóstico. É hoje como o era há cem anos. O ortodontista, o que vai fazer é continuar a diagnosticar, sendo que as máquinas vão passar a fazer tudo o resto. A previsibilidade é dada pela parte informática, o que vai fazer a diferença é mesmo a minha capacidade para fazer o diagnóstico.

De que forma os novos médicos dentistas estão preparados para o mundo do trabalho? Reparei que no seu currículo especificava que era ‘pré-Bolonha’.

Eu lido com as duas realidades nos cursos de formação. Tenho os novos profissionais, acabados de sair da faculdade e que trazem muito pouca preparação, mas têm uma enorme predisposição para aprender e estão muito envolvidos nas novas tecnologias. Ou seja, para eles, se eu disser que a partir de agora não há papel e fazemos tudo com um iPad, é ótimo. Lido também com a geração de 50 e 60 anos, que percebeu que ou vai atrás disto ou vai ser ultrapassado. Ou até já foi ultrapassado. E, portanto, vêm agora aprender. Acho que as novas gerações não têm de ter medo.

O dentista que “apenas” arranja o dente vai acabar ou já acabou?

Para mim já acabou. As clínicas são agora multidisciplinares, com médicos altamente especializados, sem dúvida.

Falou há pouco nos masters que realiza na sua clínica. Como tem decorrido a experiência? Disse que o de junho estava esgotado e o de janeiro já tinha inscrições.

Realizámos três edições, todas esgotadas. O que fizemos foi convidar os speakers internacionais com mais experiência para nos ajudarem a nós, portugueses, no crescimento e a enriquecermos os nossos conhecimentos. Correu tão bem e o feedback foi tão bom que percebemos que as pessoas que fizeram o master estão todas a fazer Invisalign. É porque valeu a pena. Acho que o futuro é este, mas é verdade que há sempre um investimento inicial na formação e na tecnologia que, para nós, portugueses, ainda é caro. Um scanner é caro, mas eu, por exemplo, já não conseguia viver sem ele. Tenho dois.

O retorno é grande?

A margem de lucro que tinha o ortodontista antigo comparado com o atual é menor. Vejo isto um pouco como o iPhone. É caro, mas todos temos. Mesmo as pessoas com menos possibilidades vêm aquilo como um objeto de desejo. E este tipo de tratamentos passou a ser visto um pouco dessa forma. As pessoas preferem fazer um esforço económico um pouco maior, mas saber que têm na boca algo que é tecnologia de ponta. Sobretudo, que não causa desconforto, que lhes permite tirar – seja porque têm um evento importante ou um jantar –, não tem limitações de comida nem de limpeza.

O que espera da sua clínica? Hoje em dia tudo muda tão rapidamente…

Mudámos para estas novas instalações há um ano e hoje somos 100% digitais. Ou seja, não há nada de tirar moldes, tudo é feito de forma digital e essa foi a grande inovação. Quanto ao futuro… Até agora, os scanners só incluem os dentes, não incluem as raízes. Até ao final do ano vou conseguir juntar um scanner intraoral com um CBCT, que já adquirimos, passando a ter as três dimensões da cabeça no computador e a trabalhar os dentes nas três dimensões do espaço de forma previsível. Esta vai ser a grande mudança da clínica no próximo ano.