Opinião

O Flagelo da Soberba

Certamente que a maioria dos colegas teve a oportunidade de ler as parangona de algumas das revistas da área deste mês de agosto. Notícias que se repetem ano após ano, por esta mesma altura, um pouco à semelhança dos fogos florestais, onde uns dizimam hectares de património e outros com conspícuo relapso e em profundo estado de tepidez castram uma profissão. Contudo existe uma diferença: quando o dano é irremediável mudam-se as cabeças de cartaz, equacionam-se medidas preventivas, assumem-se responsabilidades.

Aqui, em termos de mais do que polido interesse numa acerba promessa de carácter amável, meninos e meninas são levados em passeio pelas dezenas de portas que se abrem por estas alturas, nas instituições públicas e privadas com nenhuma ideia clara sobre o futuro. Ao mesmo tempo, neste país saem novos e proficientes meninos e meninas, em desmedida prodigalidade, que como não foram agraciados com a prestidigitadora arte, que nos torna únicos e  invulgarmente artistas, caminham de braço dado, ”apadrinhados” por nobilitantes nomes da medicina dentária, que nas suas boas graças os lançam para amplos anfiteatros, fartas salas de aulas, simpósios nacionais e inclusive internacionais e até reconhecidos congressos.

Pensando bem, que outra forma de subsidiar estes nouveaux médicas e médicos dentistas cujos dotes artísticos aquém ficaram, sobrando apenas o culto pelo narciso, o ego e a soberba? Que outra forma de manter essas portas abertas senão com tanto doutor, mestre, especialista, “sir” e vá-se lá saber que taxonomia categorize melhor a nossa classe?!!

O flagelo do crescente aumento de médicos dentistas não tem apenas a ver com o número! Os básicos valores que desde cedo nos afivelaram a personalidade, numa preleção de vida, perverteram-se, tornou-se um embaraço linguístico comunicar (somente quando haja plateia), saudar, um esforço tremendo a ideia de cumprimento, obsoletas as manifestações de gratidão, a abnegação do respeito uma promiscuidade, o insurreto passou a ser moda. Os padrões de comportamento alteraram-se e com eles o sentido crítico, o civismo e o bom senso ficaram no banco, num fora-de-jogo.

Não há como mudar o rumo a uma classe condenada ao pedantismo e à vaidade. Há que travar este mordaz atropelamento de médicas e médicos dentistas, que castigados pela abstinência de trabalho se hostilizam, corrompem e desumanizam. De lamentar que gerações vindouras não tenham como exemplo mais íntegros e humildes colegas de profissão, cujo respeito, cortesia, honestidade e idoneidade pautassem o seu dia a dia, e essas dezenas de portas que se abrem um prefácio de um futuro com carácter.

Boa sorte, aos colegas recém-licenciados, sucesso e bem-aventuranças lhes desejo!