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Opinião

O estado (estatístico) da medicina dentária portuguesa

O estado (estatístico) da medicina dentária portuguesa
VitorBrás

Vítor Brás – Médico dentista e Investigador de neuromarketing em medicina dentária

Há sempre uma expressão que adoro (e até já a utilizei em artigos passados) sobre estatística, ela é a forma matemática de enganar pessoas ou distorcer opiniões! E no que toca a sondagens há o perigo palpável de obter resultados enviesados (seja por limitações da amostra seja porque num questionário mentimos! Mesmo sem malícia, ora pergunte num questionário a um fumador se é um hábito saudável…) Por isso, agora que saíram os dados do Barómetro Saúde Oral, eu não conseguiria ficar bem comigo próprio se não os comentasse, porque, no mínimo, há resultados interessantes e até contraditórios.

Comecemos pelo indicador das Preocupações, o que assola mais o espírito dos colegas? Ora, em primeiro e segundo lugar neste ponto o que mais “nos” preocupa é a eficiência e desempenho das nossas funções e o stress/burnout (deixando a relação com o paciente e com a equipa para o fim da lista). Ainda neste estudo 66,7% dos colegas refere sentir-se sob pressão no trabalho. Seria plausível então aumentar a força de trabalho com mais colegas formados, não? Não, porque na questão sobre o qual o assunto mais urgente a requerer atenção da classe, a principal resposta foi a redução do número de vagas nas faculdades. Então em que ficamos? Na verdade, temos um rácio de MD por cada 1000 habitantes muito inferior (1:884) ao recomendado pela OMS (1:2000), contudo do universo de alunos formados nas nossas Universidades cerca de 39% são estrangeiros que voltarão ao seu país de origem após ter o diploma. E este rácio será assim tão pequeno?

 

Não! Reparou que nas preocupações os colegas que responderam ao inquérito da SAÚDE ORAL deixaram a preocupação com a experiência do paciente para o fim? Pois é! Como classe somos comunicadores horríveis, iletrados em contexto de marketing e negócios, e quem diz que somos de saúde e isto não é um negócio que vive da fé, e há bem menos padres do que dentistas por cada 1000! Vejamos aqui o indicador de um outro estudo estatístico, o Barómetro da Saúde Oral da OMD, aqui mostra-se que cerca de 41% dos portugueses não vai ao dentista há mais de um ano e não é por dinheiro (22%) é porque referem que não necessitam (70%)! Eu também achava que não precisava de um relógio inteligente até a Apple me fazer ver que precisava sim! Vamos a números…Há 1 dentista para 884 portugueses, desses cerca de 530 irão mais que uma vez por ano ao consultório ficando outros 354 “livres” (a maior parte deles não pelo dinheiro). Teremos ou não mercado para evoluir e educar quanto às necessidades de saúde oral?

Mesmo assim o colega ainda acha que muita gente não vai ou deixa de ir à consulta por falta de dinheiro? Não só os dados preliminares do Censos2020 como da PORDATA mostram que apesar de um ligeiro decréscimo entre 2020 e 2021, o consumo das famílias portuguesas não diminuiu ainda significativamente. Se olharmos para o Barómetro da Saúde Oral da OMD vemos que a principal causa de insatisfação no gabinete dentário são os resultados dos tratamentos (70.5%), seguidos do atendimento insatisfatório (14.8%) e só por fim os preços elevados (14.7%).

 

Outro indicador relevante para mim é que, em segundo lugar, nos temas que suscitam mais interesse aos colegas que responderam, vem a especialização dentária. O que é bom, mas também é de certa forma triste. Muitas universidades nacionais são dirigidas por colegas que, apesar do seu brilhante curriculum, encaram a medicina dentária como isso mesmo, medicina dentária, e estão cegos para constatar que o mercado evoluiu! A maior parte das formações universitárias são em full-time e para quem carece de um patrocínio necessitaria de uma de duas opções: ou crédito bancário para acabar de pagar daqui a uns anos e ter filhos aos 50 ou criar uma VPN na deep web…Daí resulta que grande parte de nós opte por se formar em centros privados em formações mais amigáveis daquilo que é o quotidiano do MD normal. Seria interessante a Revista SAÚDE ORAL perguntar no próximo Barómetro quantos artigos científicos cada colega leu nos últimos 6 meses, ou a OMD nos próximos Números da Ordem ter mais dados sobre a formação pós-graduada universitária.

Apesar de ter tido uma amostra relativamente reduzida, o Barómetro da Revista Saúde Oral permite retirar algumas conclusões sobre uma certa “personalidade de grupo” de nós médicos dentistas. Tendemos a atribuir a culpa a outros fatores, como burocracia, seguros, redes de clínicas, elevado número de vagas para o acesso à profissão, quando o erro parte logo de nós quando descuramos a parte empresarial da nossa profissão, quando não estamos sensibilizados para a experiência que o paciente tem na nossa consulta/clínica. Existe sim ainda mercado por explorar!

 

*Artigo de opinião publicado na edição 146, setembro-outubro, da Saúde Oral

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