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Opinião

O efeito Gremlin está sempre lá

Lembram-se da comédia negra “Gremlins”, estreada em 1984 e depressa tornada referência entre os filmes pop da época? Sem nada a ver com gestão, a história tem tudo a ver com gestão. Vamos já perceber porquê.

O enredo gira à volta de Mogwai, a criatura comprada numa loja em Chinatown pelo pai à procura do presente de Natal especial para o filho. Apesar de o dono da loja recusar qualquer oferta de compra, o seu neto faz a venda. E o Mogwai lá vai para casa dos novos donos, cheio de potencial para ser o mais fofinho animal de estimação de sempre. Primeira lição: querer muito algo apenas “porque sim”, sem pesquisar sobre o tema e sem saber nada do que se está a comprar, é sinónimo de problemas. Exemplo: “mogwai” significa “diabo” em cantonês. O risco era evidente e escusado será dizer que todos os grandes erros começam com um pequeno passo.

 

Vários estudos de mercado já provaram há muito que quem realiza algo por impulso pouco ou nada retém sobre cuidados a ter para acautelar problemas. Em “Gremlins” havia três regras de ouro para que as coisas não corressem mal: 1) Nunca expor Mogwai à luz, sobretudo solar; 2) Nunca o deixar ter contacto com água; 3) Nunca o alimentar depois da meia-noite. Instruções que foram olhadas com despreocupação. Segunda lição: negligenciar os cuidados básicos para que tudo corra bem pode levar a que tudo possa correr mal. O segundo passo para a desgraça fica assim dado, elevando o risco para níveis preocupantes.

Como se adivinhava, Mogwai foi molhado, desencadeando um processo de reprodução meteórica a partir das costas da criatura, multiplicando o número de problemas. Terceira lição: o que é mau pode sempre multiplicar-se.

 

As novas criaturas alimentaram-se após a meia-noite, transformando os fofos em diabos, com dimensões maiores e a fazerem jus ao nome em cantonês. Quarta lição: uma vez percorrido o caminho para o risco máximo, perde-se completamente o controlo da situação, passando-se a uma condição de resposta, em vez de iniciativa corretiva. É a diferença entre limpar uma mata para evitar o fogo ou chamar os bombeiros para salvarem o possível do que já se sabe ter um dano inevitável.

Mesmo sendo claros os exemplos deste “efeito Gremlin” para quem possui uma clínica dentária, vamos fazer a ponte simplificada entre o filme e a realidade, estabelecida em três pontos. 1) Comprou, tem de cuidar. Criar e gerir uma clínica são dois contextos muito diferentes, embora seja comum pensar que quem cria pode gerir com a mesma facilidade. A criação é pontual, a gestão é permanente – não termina, nem tira folga; 2) Não sabe, logo não se aventura. Não tem experiência ou conhecimento sobre o modelo de gestão? Segue rigorosamente as instruções básicas, disponíveis em qualquer guia prático. Não se tira um brevet sem antes lançar papagaios de papel. 3) Acudir na fagulha previne o incêndio. Quando um problema previsível começa a tomar forma, tem de se lidar de imediato ou a sequência de crise instala-se e sai do controlo.

 

Em “Gremlins”, uma das fragilidades da criatura, a luz direta, acabou por ser a salvação da família que adotou Mogway. E nas clínicas? Há alguma ação para salvar o descontrolo operacional e a consequente derrocada financeira? Claro que sim. Somos responsáveis pela gestão da nossa empresa e pelos estragos que dela advenham. A luz direta não os eliminará, mas ilumina-os, permitindo a sua análise e a implementação de medidas corretivas.

Melhor do que isso, contudo, é agirmos preventivamente. Analisar risco não é ser pessimista, mas sim cauteloso. E nunca é tarde para fazer uma análise de risco que nos escapou na abertura do negócio ou mesmo após anos de porta aberta. Faz parte dos atos de gestão e não tem que meter medo. Ao contrário do gremlin que se faz passar por médico dentista, no mais aterrador dos consultórios. Mas como é uma cena no segundo filme da saga, a história fica para a próxima.

 

*Presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária

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