Digital Smile Design

Let’s get digital!

É uma abordagem recente que coloca a imagem digital ao serviço da Medicina Dentária e que tem reunido cada vez mais adeptos. Cativar e a aproximar o paciente desde o primeiro momento é um dos pontos fortes, mas as vantagens não se esgotam aí, defende quem já a aplica na clínica.

Emotional Dentistry. Esta expressão em voga é presença comum quando o tema é Digital Smile Design. Mais do que uma técnica de imagem digital, esta abordagem assume-se como uma nova visão em Medicina Dentária que pretende revolucionar a forma como se analisa cada caso, se define o tratamento a seguir e, sobretudo, se envolve o paciente na (re)construção do seu sorriso desde o primeiro instante. Uma tecnologia que aperfeiçoa também a comunicação entre médico e paciente, com vista à criação de sorrisos que encaixem na perfeição na personalidade e características do indivíduo. É a abordagem holística que Christian Coachman, médico dentista brasileiro de renome mundial e fundador deste conceito, vê como o caminho a seguir em Medicina Dentária, e que já está a ser explorada também em Portugal.

Miguel Stanley1

Miguel Stanley

História em evolução

Em Medicina Dentária, a estética não pode ser dissociada da função, uma dupla à qual se junta a componente emocional. É uma preocupação comum na prática clínica e que leva à busca por novas formas de abordar os problemas. “O termo emotional dentistry faz parte do meu ADN”, afirma Miguel Stanley, médico dentista, CEO da White Clinic e considerado um dos pioneiros no uso desta técnica em Portugal: “Desde 2004 que utilizo o conceito de smile design rotineiramente pois sempre considerei a medicina dentária isso mesmo, mais do que dentes, desenhar sorrisos. Mesmo antes do Dr. Christian Coachman me ter introduzido o Digital Smile Design (DSD) já considerava a comunicação um passo fundamental para conseguir transmitir aos nossos pacientes o que estamos a pensar construir. Desta forma, dar o salto do analógico para o digital não foi difícil. As técnicas que utilizávamos eram os tradicionais wax-ups de laboratório e a minha favorita que era realizar um mock-up diretamente na boca em compósito. Hoje em dia tornámo-nos digitais e o DSD é uma ferramenta que utilizamos em grande parte dos nossos casos. Apesar de ser um pouco mais demorado, é incrivelmente preciso e do ponto de vista do paciente, muito mais espetacular”.

Hugo Madeira, médico dentista e CEO da Clínica de Implantologia Avançada, em Lisboa, também já não abdica desta tecnologia. Na sua prática clínica, o Digital Smile Design “tornou-se uma ponte essencial entre o planeamento digital do sorriso e a produção dos dentes propriamente dita, a parte da impressão e da fresagem das peças dentárias, facetas, coroas ou próteses sobre implantes”, refere. Nos últimos anos, para além da evolução nos procedimentos, também a tecnologia evoluiu “a própria APP do DSD tem sofrido alterações, até com fotografias de um smartphone conseguimos fazer um esboço do desenho do sorriso”, realça ao mesmo tempo que reconhece existir agora mais divulgação: “Há cerca de três anos, quando comecei a utilizar esta técnica, pouco ou nada se ouvia falar. Atualmente, a maioria dos profissionais já sabe do que se trata.”

Passo a passo

No artigo Digital Smile Design: A Tool for Treatment Planning and Communication in Esthetic Dentistry, publicado em 2012 (Quintessence of Dental Technology), Christian Coachman e Marcelo Calamita, médicos dentistas, defendem que o protocolo DSD não facilita apenas a comunicação entre médico dentista e paciente, mas beneficia cada etapa do tratamento. O método pressupõe a realização de imagens em três perspetivas – rosto completo com sorriso rasgado e dentes separados, rosto completo em repouso e vista total da arcada mantendo os dentes superiores e inferiores separados. Recomenda-se ainda a realização de um pequeno vídeo no qual o paciente explica as suas expectativas, preocupações (as imagens deverão captar todos ângulos possíveis dos dentes e sorriso, incluindo uma vista de perfil e do rosto a 45 graus).

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As imagens servirão depois como base para o planeamento da intervenção. De seguida, através de marcações e linhas sobre a imagem digital da boca e dentes do paciente, esta tecnologia ajuda a delinear a intervenção (medir proporção dos dentes, alinhamento) bem como a identificar eventuais riscos e limitações ao tratamento. Num tratamento multidisciplinar, como a reconstrução de um sorriso, visualizar, ampliar e “desenhar” sobre a imagem facilita a comunicação entre cada técnico envolvido no processo, a transmissão de informação exata sobre o problema fomenta a troca de ideias, pelo acesso aos dados do paciente (imagens, informação) e permite simular várias soluções até encontrar a mais adequada. O uso deste tipo de tecnologia permite ainda, nas fases seguintes do tratamento, analisar o caso e confirmar se está a ser seguido o plano inicial ou se são necessários ajustes. O recurso à imagem e à simulação digital revela-se vantajoso, tanto do ponto de vista técnico como estético, junto do paciente, uma vez que ajuda o médico a demonstrar eventuais dificuldades de cada caso e a fazer uma antevisão dos resultados, o que contribui para uma maior aproximação e aceitação do tratamento proposto.

Por exemplo, na White Clinic Miguel Stanley começa por fazer um diagnóstico para avaliação da situação do ponto de vista biológico e quantificar os problemas existentes. “Ainda na mesma consulta, o paciente faz uma TAC que nos dá uma radiografia em três dimensões do crânio. Este passo é muito importante porque permite observar o caso em detalhe. […] Além da TAC, fazemos moldes precisos da boca dos pacientes e seguimos rigorosamente o protocolo fotográfico de vídeo. Como estes três elementos – TAC, moldes e protocolo fotográfico – temos todo o material necessário para traçar um planeamento digital de cada caso”, refere no blog www.miguelstanley.com.

Prós e contras

Hugo Madeira1

Hugo Madeira

De acordo com os médicos dentistas entrevistados, a balança está claramente desequilibrada na avaliação da eficácia do DSD, ou seja, as vantagens reconhecidas a esta abordagem superam em larga medida as desvantagens. De acordo com a experiência de Hugo Madeira, os maiores trunfos são “poder gerir da melhor forma as expectativas do paciente e o tempo que ganhamos em cada tratamento. Antigamente, os trabalhos de criação de próteses fixas ou de reabilitação sobre implantes eram iniciados sem que médico ou paciente tivessem acesso ao resultado final. Daqui decorria tempo gasto em provas e a ansiedade e a inquietação do paciente até que se chegasse ao resultado. Por outro lado, o facto de podermos estudar um tratamento ao detalhe, do início ao fim, de termos uma visão macro de todas as necessidades do paciente, de conseguirmos apresentar-lhe um trabalho muito mais cuidado e de qualidade, permite que pratiquemos aquilo que de melhor se faz em medicina dentária.”

Miguel Stanley destaca o poder de Digital Smile Design na comunicação com o paciente: “Acredito que a taxa de aceitação aumenta quando usamos esta ferramenta. Temos usado muito em casos complexos e, de acordo com o Dr. Coachman, estamos entre os líderes mundiais na aplicação do DSD à cirurgia guiada. Este tem sido o nosso principal foco.” Quanto aos custos associados ao uso desta tecnologia, ambos os entrevistados não consideram um fator muito relevante. Embora possa demorar mais concretizar o planeamento digital do tratamento, “a sua execução é muito mais rápida e requer menos provas e consultas”, defende Hugo Madeira. Além disso, “qualquer estudo de planeamento, seja ele analógico ou digital, tem um custo inerente que acresce ao tratamento”, defende Miguel Stanley, embora reconheça que “para uma clínica que faça tratamentos unitários como core-business esta tecnologia não seja uma prioridade”.

Por outro lado, o tempo tanto para a realização de um procedimento, como para que o médico dentista adquira competências pode ser encarado como um travão. Uma visão errada, como explica Hugo Madeira: “todos os processos baseados em conhecimento científico exigem um período de aprendizagem que, para alguns, pode ser visto como uma desvantagem, não para mim. Não vejo na curva de aprendizagem do DSD uma desvantagem, mas sim um meio para atingir um fim.”

Casos e riscos a considerar

O leque de aplicação desta tecnologia é vasto, já que se destina “a todos os casos que envolvam a componente estética de um sorriso”, refere Hugo Madeira. Um cenário diferente do que se vivia no início, quando “era uma técnica mais aplicada em reabilitações estéticas, maioritariamente para a reabilitação com facetas. Hoje pode ser aplicada no desenho do sorriso de um paciente sem dentes, na previsão do resultado final de um tratamento ortodôntico ou na criação de guias cirúrgicas.” Procurada tanto por pacientes do sexo feminino como masculino, este “é um complemento para o tratamento estético, utilizado para estudar o caso do paciente e para lhe mostrar o desenho de como ficará o seu sorriso”, resume Hugo Madeira.

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“Quando bem aplicado acredito que é uma ferramenta incrível para os pacientes levarem para casa, não só para mostrarem a sua família, mas também para fazer um test-drive e verem como se sentem com o novo sorriso”, sugere Miguel Stanley, e explica este teste que o paciente pode fazer com o estudo provisório: “Quando bem feito, o DSD a integração e adaptação do bisacril permite que o paciente veja um resultado praticamente idêntico aquilo que vamos entregar no final em cerâmica. A interação deste novo sorriso na vida social da pessoa ajuda muito a tomar uma decisão.” Apesar das suas vantagens, o Digital Smile Design, tal “como qualquer outra ferramenta, tem de ser aplicado com conhecimento de causa”, alerta Miguel Stanley e exemplifica: “Existem algumas limitações: nos casos em que os dentes estejam vestibularizados pode tornar-se impossível fazer um mock-up que o paciente considere estético. Perde-se um pouco o impacto, é case sensitive”.

Quebrar hábitos, superar obstáculos

Esta técnica tem conquistado os médicos dentistas um pouco por todo o mundo. Em Portugal, segundo os entrevistados, persistem ainda algumas reservas. Existe um “obstáculo estrutural e que está enraizado em várias áreas da medicina, quando existe resistência à inovação e lealdade inquestionável a técnicas mais tradicionais”, aponta Hugo Madeira e explica: “Ainda são muitos os médicos dentistas que não estão dispostos a ‘perder tempo’ a investigar e a estudar esta técnica de planeamento. Na minha opinião, isto demonstra que um dos maiores obstáculos à implementação do DSD ainda é a desinformação, já que depois de ultrapassada a curva de aprendizagem ganhamos em tempo e em qualidade. Outro exemplo concreto aconteceu quando falava com uma colega que me dizia que não podia usar o DSD porque não tinha um estúdio fotográfico, o que demonstra desinformação, pois é possível planear em DSD com fotografias de smartphone.”

Na opinião de Miguel Stanley, “a maioria das pessoas conhece o DSD exclusivamente como ferramenta para desenhar sorrisos, com pouca aplicação na vida real. A nossa experiência na clínica ao fazer tratamentos vanguardistas no cross-over da estética para a cirurgia guiada pela face com uma integração do CBCT com fotografias utilizando a tecnologia NemoTech estamos a descobrir uma maneira incrivelmente confortável e previsível de trabalhar casos extremamente complexos.” Na perspetiva de Hugo Madeira, o futuro passa “pela dimensão digital da medicina dentária, onde podemos criar digitalmente todo o planeamento de uma reabilitação estética, desenhar estruturas em computador e imprimi-las em 3D.”. Seja qual for o próximo passo, ninguém duvida que cada vez mais os tratamentos estéticos não se limitarão a criar harmonia estética e função. “Têm uma componente emocional, já que o paciente passou a participar no projeto do seu sorriso e também porque tentamos desenhá-lo estreitando aquilo que são as suas características físicas com a sua personalidade”, conclui Hugo Madeira.

 

Em entrevista

christian coachman

O DSD é muito mais uma filosofia do que uma técnica

Christian Coachman, médico dentista na génese do Digital Smile Design, traça um retrato desta técnica que já é usada por 40 mil profissionais em mais de 60 países

Como “pai” do Digital Smile Design, que balanço faz da sua aplicação em Medicina Dentária?

O DSD é muito mais uma filosofia do que uma técnica. Esta filosofia preconiza o Design do Sorriso integrado com a face como ponto de partida do planeamento moderno interdisciplinar, através  da utilização de tecnologia 3D. A utilização de uma plataforma de software 3D interdisciplinar facilita o diagnóstico e visualização dos problemas e possíveis soluções. Torna também mais fácil a integração das especialidades, tomada de decisões e avaliação de riscos, portanto, ajuda o dentista a tomar melhores decisões e explicar melhor estas decisões ao paciente.

Que risco pode acarretar esta técnica?

Não existe risco nenhum em melhorar a nossa capacidade de visualização, diagnóstico, planeamento e tomada de decisões, somente vantagens. Ao planear melhor conseguimos mais previsibilidade, melhores resultados e consequentemente pacientes mais felizes.

O que diria a um médico dentista que ainda não experimentou o DSD?

Não é somente o DSD, mas sim esta nova maneira de observar os nossos pacientes e de interagir com eles e com nossa equipa interdisciplinar através de ferramentas digitais maravilhosas, uma Odontologia Holística Tecnológica. Diria àqueles que não se abriram às possibilidades desta nova e moderna odontologia que o façam. Não devemos temer a evolução natural mas sim abraçá-la e usufruir dos benefícios de uma odontologia mais atraente e menos stressante. Quem não o fizer ficará pra trás num futuro muito próximo.

Na sua perspetiva, qual será o próximo passo?

Trazer esta nova visão para as instituições de ensino e permitir que jovens dentistas já nasçam na profissão com esta filosofia dentro do seu ADN odontológico. Juntamente com as empresas, temos que evoluir e adaptar os sistemas e software para esta filosofia. Muito trabalho pela frente, mas como isto também é nossa paixão o trabalho acaba sendo diversão.

 

 

Jovens dentistas apostam na formação em DSD

Com o intuito de promover a formação de jovens médicos dentistas, a Young Dentists Portugal (YDP) iniciou uma parceria em 2015 com a Digital Smile Design para atribuição de bolsas de formação no valor de dois mil euros. No ano passado foram já atribuídos dois prémios neste âmbito: Bolsa de Estética Dentária YDP-DSD Londres e Bolsa de Liderança YDP-DSD Berlim.

A YDP é uma associação de jovens médicos dentistas e estudantes de medicina dentária portugueses que visa promover a partilha de conhecimentos e a divulgação científica. Foi fundada em 2013 e insere-se na associação Young Dentists Worldwide.

Para saber mais consulte: http://www.ydp.pt