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Opinião

Juramento de Honra

Juramento de Honra

 

Maria João Ponces – Vogal do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas

A Cerimónia do Compromisso de Honra, que presencialmente assinala a entrada dos jovens médicos dentistas na profissão, é uma iniciativa que a Ordem dos Médicos Dentista (OMD) revitaliza e que pretende que se revista de uma forte carga simbólica, com momentos de introspeção e a despertarem a responsabilidade do que verdadeiramente é ser médico dentista.

 

Os colegas, juntamente com os seus familiares, amigos, mestres e a OMD, num ambiente festivo, vão dar expressão à continuidade geracional de uma medicina dentária de qualidade, prestigiada, fiel aos princípios da ética, do humanismo e do rigor, na matriz que a define como uma manifestação da ciência e do conhecimento com o desígnio de servir o Outro. Um motivo de orgulho também para Portugal, já que a medicina dentária tem contribuído, ao longo de quase cinco décadas, para a melhoria dos índices e da valorização da saúde oral nacional.

O Juramento de Honra a ser exaltado tem a sua génese no Juramento Hipocrático, escrito há mais de 2500 anos na Grécia Antiga, nação criadora da democracia e das liberdades individuais. Sendo um dos documentos que integra o Corpus Hippocraticum, foi o primeiro compromisso escrito, a mais antiga profissão de fé, que cabia aos médicos invocarem no início da vida profissional. Somos, hoje, os herdeiros do legado iniciado por Hipócrates, que afastou a medicina das crenças mágicas e perfilou o conhecimento médico com uma base científica.

 

Cabe aos médicos dentistas a responsabilidade do progresso, trilhando um caminho seguro, com o recurso a tecnologias modernas, a partir do espólio de conhecimento atual.

O desafio de ser médico dentista, revela-se hoje tanto mais árduo quanto perturbante, misturando-se o entusiasmo pela descoberta com os receios num futuro profissional muito rigoroso e complexo. Numa altura em que os avanços tecnológicos agravam os riscos ou conflitos que ameaçam os valores éticos em que a profissão se alicerça, impõe-se a necessidade de uma medicina dentária verdadeiramente humanizadora. A coragem e a disciplina para resistir ao caminho do facilitismo, para tomar decisões na incerteza e contra a posição de alguns grupos poderosos é uma enorme responsabilidade a recair sobre os médicos dentistas e que só se conquista alicerçada numa robusta matriz de valores éticos, valores humanísticos e de competência técnica.

 

E o Juramento representa um pacto com a verdade, o rigor, a autonomia, a justiça, a humildade, o recato, o sentido do dever e a ética profissional.  É uma declaração de desejo de servir os doentes, respeitando a ciência e ponderando o seu poder através da prática do altruísmo, no respeito inalienável pela vida humana em todas as suas dimensões, não sendo compatível com radicalismos preconceituosos ou de reserva moral. A adesão a este ideal humanista constitui a base que suporta a relação entre o médico dentista e o doente enquanto elemento matricial de confiança. A conciliação entre o respeito, a liberdade, a autonomia e a responsabilidade profissional, constitui o quadro de referência do património legal da medicina dentária. Ao longo da vida profissional, importa a sua defesa e reserva porque nele reside o prestígio e a dignificação da profissão.

A medicina dentária não é um caminho a ser percorrido de forma solitária, mas sim em comunhão com os nossos pares e o texto do Juramento representa o “farol” que devemos orgulhosamente revisitar nas ocasiões de sucesso e onde devemos ir buscar força e alento nos momentos profissionais complicados e difíceis.

 

*Maria João Ponces – Vogal do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 144 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2022.

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