Endodontia

Endodontia do Século XXI: as inovações tecnológicas e os novos desafios

Endodontia do Século XXI: as inovações tecnológicas e os novos desafios

A Endodontia quer afirmar-se como especialidade reconhecida pela Ordem dos Médicos Dentistas. Verdade seja dita, tem ‘trabalhado’ para isso, no sentido de que a sua evolução tem sido uma constante. E atualmente os profissionais que a elegeram como área de interesse têm cada vez uma formação mais distinta, já que “temos o novo paradigma das pós-graduações”, que contribui para “a elevação do nível geral da Endodontia do nosso país”.

Nos últimos anos, a endodontia tem beneficiado de uma enorme evolução não só a nível de avanços tecnológicos, como em termos técnicos. A SAÚDE ORAL procurou saber junto de vários profissionais que se dedicam a esta área que visão possuem hoje deste campo da Medicina Dentária e, de uma forma geral, como veem a Endodontia do Século XXI.

Avanços mais marcantes

Endodontia do Século XXI: as inovações tecnológicas e os novos desafiosPara António Ginjeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Endodontologia (SPE), um dos grandes marcos foi “a introdução do microscópio operatório, no início dos anos 90 (1995 em Portugal – Pedro Cruz e António Ginjeira), e a sua maior divulgação, principalmente nos últimos 10/15 anos”. Mas para o responsável da SPE, “a revolução na instrumentação desencadeada pela tecnologia do níquel-titânio, iniciada também a partir de meados dos anos 90, e que se tem imposto a partir do início deste século” são igualmente evoluções dignas de serem destacadas. Porém, a par destes avanços tecnológicos, António Ginjeira denota que “o melhor conhecimento dos aspetos anatómicos e microbiológicos tem também contribuído para o progresso da especialidade”.

João Meirinhos, responsável pelo departamento de endodontia em várias clínicas dentárias, concorda: o microscópio operatório “continua a ser um dos maiores avanços da endodontia moderna, fundamental para atingir níveis máximos de excelência e indispensável para quem exerce de forma ‘especializada’ e exclusiva”. Já na instrumentação, “o aparecimento de novas ligas metálicas, bem como de novos sistemas de limas permitiram a negociação de sistemas de canais de maior complexidade bem como garantem ao médico dentista uma maior segurança e eficácia no tratamento”.

Contudo, João Meirinhos não fica por aqui, destacando igualmente a radiologia 3D e a incorporação do CBCT, que “é hoje cada vez mais uma realidade nas clínicas, potenciando a capacidade de diagnóstico e planeamento”.

Já na área da irrigação, o médico dentista aponta que “novas técnicas de ativação da solução irrigante por meio de ultrassom, laser, luz e pressão, potenciam a desinfeção do sistema canalar”. Quanto à obturação, “a introdução de materiais biocerâmicos altamente biocompatíveis vieram aumentar a previsibilidade e sucesso dos tratamentos [ver caixa]. De salientar também, em termos técnicos, a procura em realizar tratamentos com abordagens clínicas mais conservadoras, como por exemplo a terapia pulpar vital”.

Ponto de vista semelhante possui Hugo Sousa Dias, fundador do Study Club Endodontics – Grupo Português para o Estudo da Endodontia, pois sublinha que “a evolução nos últimos anos, nesta área, tem sido tremenda, com o surgimento de novos instrumentos fabricados com recurso a tratamento térmico, a incorporação do CBCT no diagnóstico e plano de tratamento, a introdução dos cimentos biocerâmicos, abordagens clínicas mais conservadoras, como por exemplo a terapia pulpar vital, acesso com guia estática em dentes com canais calcificados e até mesmo a utilização da guia dinâmica para a abordagem conservadora no acesso a dentes com anatomias complexas, etc.”.

Endodontia do Século XXI: as inovações tecnológicas e os novos desafios

Porém, o médico dentista denota que a preocupação de basear as atitudes clínicas “em evidência científica, deixando de lado o empirismo clínico é cada vez maior” e, neste sentido, destaca o “crescente conhecimento da complexidade do sistema canalar, muito graças ao recurso ao microCT e ao trabalho de colegas como o Professor Marco Versiani”.

Quanto a Duarte Guimarães, o professor auxiliar da Faculdade Fernando Pessoa, indica “a maior previsibilidade de sucesso do TENC (tratamento endodôntico não cirúrgico) devido à panóplia de ferramentas e instrumentos tecnológicos novos que continuam a aparecer no mercado”.

Todos estes avanços têm, de acordo com João Meirinhos, “beneficiado o profissional, que passou a realizar procedimentos outrora considerados verdadeiros desafios de forma mais simples e rápida, e também os pacientes, que passaram a usufruir de tratamentos mais precisos, fidedignos e confortáveis do que no passado”.

“Os colegas tendem a ‘fugir’”

Mas este caminho de inovação não tem sido isento de desafios. Um deles quase que podemos dizer que é estrutural, na medida em que a Endodontia, até aos dias de hoje, “tem sido a área da medicina dentária onde os colegas tendem a ‘fugir’ e não desperta, à primeira vista, o interesse quando comparada com outras, talvez pela dificuldade técnica ou muitas vezes por não ser valorizada pelo paciente”, aponta João Meirinhos.

Neste sentido, o médico dentista argumenta que “é fundamental que o paciente entenda que a Endodontia tem um papel central no tratamento dentário e que todo este desenvolvimento tecnológico é acompanhado por uma abordagem exigente, complexa, demorada e dispendiosa”.

Contudo, tem-se assistido a uma mudança de mentalidades devido à “oferta de cursos que tentam ‘simplificar’ todo o procedimento endodôntico tornando-o mais seguro e previsível, onde o médico dentista ganha motivação e confiança para o dia-a-dia clínico”, refere João Meirinhos. Por exemplo, nos dias de hoje “temos o novo paradigma das pós-graduações, percurso esse seguido não só pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL), como por outras faculdades, contribuindo assim para a elevação do nível geral da Endodontia do nosso país”.

Hugo Sousa Dias é um defensor do conhecimento e, por isso, considera que um dos desafios deste campo da Medicina Dentária passa “pela universalização do conhecimento nesta área e das suas potencialidades para a manutenção do dente quer junto do paciente, quer junto dos colegas”.

O desenvolvimento incessante do conhecimento tem permitido, por exemplo, “um melhor prognóstico do TENC, resultante de um maior número e melhores meios auxiliares, que permitem cada vez mais recuperar peças dentárias que até há poucos anos eram dadas como perdidas”, complementa Duarte Guimarães, acrescentando que, no médio/longo prazo, se poderá esperar um “elevado nível de conhecimento científico e clínico. Os meios de recolha e armazenamento da história clínica do TENC permitem uma vigilância e controlo muito mais eficaz do follow-up”.

Endodontia do Século XXI: as inovações tecnológicas e os novos desafios

Mas há desafios que, por muito que se avance, se mantêm, ou seja, há desafios que “acabam por ser os mesmos de sempre, como conseguir resolver os problemas microbiológicos, ultrapassando os desafios criados pelas características anatómicas”, realça António Ginjeira. E há aqueles desafios inerentes à valorização da profissão por ‘terceiros’. Falamos de “uma valorização adequada do valor pago pelos tratamentos endodônticos e isso só será possível com a educação da população quanto à importância do tratamento para a manutenção do dente como sendo a solução ideal na grande maioria dos casos”, remata Hugo Sousa Dias.

Consagração como especialidade

Depois dos marcos evolutivos e dos desafios, concentramos atenções no presente e futura da Endodontia. António Ginjeira acredita que vamos assistir a “uma continuação da evolução tecnológica, ao aparecimento de novas ligas ou de novos tratamentos para melhorar o comportamento das ligas atuais”, bem como a uma “melhoria das tecnologias existentes no campo dos exames complementares” e ainda a uma “evolução do conhecimento das particularidades anatómicas e dos aspetos fisiopatológicos”.

De acordo com o presidente da SPE espera-se igualmente uma “evolução no conhecimento acerca de irrigantes e de agentes antimicrobianos, a aplicação de nanotecnologia neste campo e a evolução e padronização dos procedimentos regeneradores”.

O caminho da Endodontia vai ser, segundo Hugo Sousa Dias, “cada vez mais orientado para uma atitude clínica menos interventiva e mais conservadora”.

Continuando na senda do presente/futuro desta ‘especialidade’ da Medicina Dentária, falemos a título particular da realidade do nosso país, abordando um tema que é ‘caro’ a todos os profissionais que elegeram a Endodontia como área de interesse: a sua elevação ou consagração a especialidade reconhecida pela Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

António Ginjeira sublinha que “presentemente, caminhamos para uma cada vez maior autonomização da Endodontia”, sendo que algumas faculdades em Portugal “têm-na como disciplina autónoma há 40 anos”, mas noutras “ainda existe uma disciplina comum que engloba a Endodontia e a Dentisteria ou ainda outras”. Não obstante, segundo o presidente da SPE, “a tendência será a independência generalizada. Creio que as idiossincrasias desta área, as especificidades técnicas, as características especiais da clínica de Endodontia vão ditar essa autonomia em todas as escolas”.

E por ora espera-se ansiosamente que esta independência, que já se nota ao nível do ensino, se traduza no reconhecimento deste campo como especialidade. “Espero que o caminho seja exatamente para a ‘conversão’ da Endodontia numa especialidade. Para que desta forma possa ser trilhado um caminho para o verdadeiro reconhecimento desta área da Medicina Dentária junto da população, fazendo uma educação para a manutenção do dente natural”, reforça Hugo Sousa Dias.

A criação da especialidade de Endodontia, de acordo com João Meirinhos, “há muito ambicionada, está em curso e esperemos que seja para breve a sua implementação”. Para o médico dentista “é um passo importante de valorização da área e dos profissionais que, tal como eu, a ela se dedicam e na qual investiram em formação de elevado grau de qualidade”.

Mas enquanto a especialidade de Endodontia não é oficialmente reconhecida pela OMD, “podemos afirmar que a mesma evoluiu imenso e vive um bom momento em Portugal. Ganhou o respeito, o reconhecimento e o prestígio que lhe faltava”, declara João Meirinhos, denunciando que, por outro lado, “continuam a existir clínicas a contratar jovens médicos dentistas (alguns até com formação pós-graduada nesta área) para exercer Endodontia, de forma exclusiva e ‘especializada’, em condições muito aquém das mínimas exigidas”.

Desta forma, na opinião do médico dentista, “contribuímos para a manutenção de uma imagem tradicionalista onde estes tratamentos têm um prognóstico reservado e que não representam, por isso, à vista dos pacientes, soluções a longo prazo”. A evolução da Endodontia “terá de passar pela sua afirmação enquanto especialidade reconhecida pela OMD”, pois só assim, como conclui João Meirinhos, “será́ possível diferenciar e valorizar efetivamente os profissionais que apostam fortemente na sua formação científica e clínica”.

Materiais biocerâmicos: vantagens e desvantagens

Uma das áreas relacionada com a Endodontia onde tem sido notória a evolução, nos últimos anos, é ao nível dos materiais biocerâmicos. Sempre no sentido de otimizar as propriedades biológicas e reparadoras, a investigação tem evoluído e assim alargado o espectro de aplicação destes materiais.

Como materiais desenhados para a reparação tecidual, os biocerâmicos têm como principais vantagens a sua grande biocompatibilidade, baixa toxicidade, estabilidade dimensional e estabilidade química num ambiente biológico e ainda a capacidade de formar hidroxiapatite e a promissora competência de criar uma ligação à dentina. Aponta-se ainda, como benefícios, a capacidade de selamento, a ação antimicrobiana e a radiopacidade.

Já no que toca às desvantagens indica-se a porosidade aumentada no interior da sua superfície; a maior libertação de iões cálcio e solubilidade em relação ao mineral trióxido agregado (MTA); alta fluidez; dificuldade de remoção do interior do sistema de canais radiculares e propriedades físico-químicas inferiores ao MTA. São ainda considerados inconvenientes a variação do tempo de presa, a sensibilidade técnica e a possível descoloração em casos de aplicação em proteções pulpares.