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Opinião

Há um elefante na sala do recrutamento

Há um elefante na sala do recrutamento

“Já não são as empresas que escolhem os candidatos. Hoje são eles que perguntam: ‘Por que devemos escolher este projeto ou esta empresa?’” Este é o título de um artigo sobre Recursos Humanos, da autoria de Ana Petrucci, diretora de HR & Marketing da Intelcia Portugal, publicado esta semana no portal do Sapo. Despertou-me para uma missão: tentar ajudar a compreender que é exatamente assim, havendo razões óbvias para esta mudança de paradigma.

Recebi o link do texto via partilha do Presidente da Assembleia Geral da Incisivos, o médico dentista Luís Correia, amigo e companheiro de associativismo. Uma oportunidade de reflexão, feita para todos os elementos do grupo dirigente da associação, como é hábito com temas pertinentes relacionados com empresários, gestão e empreendedorismo.

 

A troca de ideias foi suficiente para perceber que estamos perante um game changer. Quando se está frente a um bicho destes, convém não ignorá-lo. Vamos então olhar de frente para o elefante na sala dos Recursos Humanos.

O mercado de trabalho está a mudar, sendo cada vez mais difícil recrutar. Há sempre resistência em abandonar convenções tidas como imutáveis, mas um candidato dos tempos de hoje não embarca em conversas de outrora. Esqueça a relação ativo/passivo – já morreu.

 

Grande parte dos textos recentes sobre Recursos Humanos enfatizam o cerne da mudança: a crescente necessidade de uma relação igualitária entre empregador e empregado no campo das expectativas. Se procuro saber qual a melhor pessoa para um lugar, logo há alguém que procura saber qual a melhor empresa para si. Condenável? Não, é mais do que natural.

A reflexão tem de ser feita do ponto de vista do que a minha empresa pode dar aos meus empregados e incidir maioritariamente sobre condições de trabalho. Sim, leu bem, condições de trabalho. Essas que são transmitidas no momento do recrutamento, tanto em conversa como em sinais exteriores à entrevista (ambiente, stress, organização das instalações, entre muitos outros aspetos que quem entra numa empresa repara).

 

Por exemplo, procurar alguém para a Receção. Se não oferecemos condições irrepreensíveis para a pessoa desempenhar o seu papel, por que razão vai escolher-nos em vez de uma caixa de supermercado? Ao menos aí tem turnos organizados, equipamento otimizado para a função, saídas a horas e ainda desconto nos bens de primeira necessidade. Porque não é de vencimentos que estamos a falar – nem vale a pena abrir essa caixa de Pandora –, mas de níveis de caos cujo stress apenas o dono da empresa deve suportar.

Como qualquer empresário de outro setor, sabemos onde estão os pontos fracos das nossas unidades de saúde oral em termos de organização. A ideia é identificá-los e erradicá-los, caso contrário não pode haver retenção de talento ou mesmo sucesso de recrutamento. Se depois as pessoas respondem favoravelmente é outro tema, mas quem emprega tem de aceitar que se oferece um padrão de falta de qualidade não se pode admirar que quem procura não aceite.

 

Se nivelarmos a oferta pelas contratações que não resultaram, estamos a fazê-lo por baixo, simplesmente porque nos convém. Se elevarmos os padrões, pelo menos apertamos a malha da procura da qualidade e retiramos capital de queixa inclusive a quem já é nosso colaborador.

Isto resolve todos os problemas? Não, mas reduz o risco de contratarmos pessoas erradas – quando se oferece lixo, atraem-se baratas – e distingue-nos enquanto empresários, não só face a terceiros exploradores, mas perante nós. É difícil encontrar algo de errado neste caminho. Dá trabalho? Obriga a investir em condições? Puxa por nós? E então? Uma empresa é um ecossistema dinâmico, acomodado morre.

O objetivo tem de ser colocar a fasquia em cima, ir à luta e ver onde se pode intervir. Se o investimento começar por ser a nossa inquietação para melhorar a oferta, é garantido que haverá consequências positivas na angariação e retenção.

Deixo-lhe dois desafios:

  • Agarre numa folha e, na parte superior, escreva três razões para um candidato querer trabalhar na sua empresa;
  • Na parte inferior, registe três razões que o levariam a escolher a sua própria empresa para trabalhar.

Se colocar honestidade neste processo, está aberta a porta para o paquiderme sair da sala. Caso contrário, em breve irá tornar-se o único ser humano numa divisão apinhada de elefantes.

*Presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária

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