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Opinião

Dois comandantes da 2ª Guerra Mundial e uma lição de moral

Dois comandantes da 2ª Guerra Mundial e uma lição de moral
VitorBrás

Vítor Brás – Médico dentista e Investigador de neuromarketing em medicina dentária

Na minha cabeça desenvolveu-se um hábito: encontrar ensinamentos de áreas diversas e estabelecer analogias à minha realidade profissional. Será talvez por isso que dou títulos algo improváveis aos meus artigos, talvez esteja mesmo a dar em doido…fica a dúvida. É por isso que venho partilhar algo que li recentemente sobre dois comandantes americanos da 2ª Guerra Mundial. Se pensarmos bem, a história da Humanidade vai decorrendo de guerra em guerra com alguns períodos de paz (relativa). Após a extrema fatalidade de militares e civis na Primeira Guerra Mundial começou-se de imediato a pensar numa forma de ataque mais preciso e com menos baixas colaterais. A engenharia focou-se em quê? No ar! Em vez daqueles biplanos desajeitados queriam-se aeronaves mais rápidas e com melhor artilharia.

A analogia com o “nosso” mundo até pode ser rebuscada, mas no início da medicina dentária também muitos dentes “inocentes” se perderam e quisemos mais tecnologia e melhores…armas. Mas voltando à história… Em bom português diz-se que a necessidade aguça o engenho, e então os engenheiros puseram mãos à obra e no final da 2ª Guerra Mundial surgiu o bombardeiro com mais autonomia, mais capacidade de carga e mais rápido até então visto – o B29 Superfortress.

 

Um dos poucos pontos estratégicos para os EUA conseguirem alcançar e bombardear o Japão são as Ilhas Marianas, uns rochedos perdidos no Oceano Pacífico. Após algumas escaramuças o exército americano lá conseguiu assentar base e chamou para comandante Haywood Hansel.

Hansel era um idealista, acreditava num código moral e tentou sempre não atingir civis ao tentar bombardear desde o mais alto possível com a maior precisão que conseguisse. Para isso, tinha de esperar por dias com boa visibilidade e bom vento, era a única forma de poder utilizar a mira de precisão do avião.

 

Escusado será dizer que Hansel não durou muito no seu posto, os seus ataques nunca fizeram grande mossa aos japoneses. Após alguns meses foi substituído por Curtis LeMay. LeMay era a antítese do Hansel, era um homem de “missão dada – missão cumprida”, aceitava danos civis imensos porque na sua visão uma guerra curta e sangrenta era menos má que uma guerra duradoura. Então LeMay engendrou um plano: já não precisaria de atacar de dia porque iria bombardear por área e não por alvo, para evitar os ventos fortes iria voar abaixo das nuvens bem ao alcance da artilharia antiaérea japonesa, por ser de noite mandou pintar de preto a base inferior do avião e o mais fatal de tudo: utilizou as recém criadas bombas incendiárias de napalm. Foi uma carnificina, em poucos meses várias cidades japonesas foram reduzidas a cinzas. O nível de destruição foi tal que LeMay chegou a dizer posteriormente que as bombas atómicas foram supérfluas. Foi condecorado e louvado.

Nós, que vemos o Mundo em escala VITA, também temos Hansel’s e LeMay’s. Os dentistas Hansel, fiéis aos seus princípios, minimamente invasivos brocando o que é absolutamente indispensável, focados em ensinar ao paciente o que é um fio dentário; e os LeMay’s que a roçar os limites da ética extraem dentes para benefício “protético”, colam cerâmica por todo o lado… os meios justificam os fins. E são precisamente estes últimos que muitas vezes levam mais medalhas e louvores sob a forma de likes no insta-mundo em que vivemos. Assim como Hansel ficou de longe a assistir à glória do seu sucessor, os “dentistas-Hansel” deveriam ser mais ativos por muito que os seus valores não sejam tão comerciais assim. Vivemos numa época dourada de tecnologia, nunca foram colocados tantos implantes, nunca se produziram tantas coroas ou facetas e até alinhadores dentários. Mas já que agora temos “artilharia” tão eficaz não estaremos todos, enquanto classe, a ficar como LeMay, em que somos aplaudidos pelos fins sem muita preocupação pelos meios?

 

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 144 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2022.

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