Gestão

Como se comunica com uma equipa de ‘superespecialistas’?

Antigamente, o médico dentista tinha ‘apenas’ de tratar o paciente. Hoje em dia, com a multidisciplinariedade da profissão, é necessário integrar o mesmo paciente na agenda de todos os elementos da equipa. Numa altura em que a saúde oral está cada vez mais dividida por áreas, como se comunica numa equipa de ‘superespecialistas’?

O maior desafio na gestão de uma equipa na área da saúde oral é tornar a “grupo” verdadeiramente multidisciplinar. A opinião de João Mouzinho, médico dentista responsável pelo departamento de Implantologia e Reabilitação Oral da Molar Clinic, resume um pouco o ‘novo mundo’ do setor: cada vez mais a saúde oral está dividida por áreas e cada elemento da equipa está cada vez mais ‘superespecialista’. “Isto implica vantagens óbvias que não preciso de enumerar a nível de ‘outcome final’, mas também alguns problemas”.

Esses problemas que João Mouzinho identifica são, por exemplo, a dificuldade em entender os limites das outras áreas da saúde oral, bem como a dificuldade, por falta de tempo, de conseguir comunicar de forma eficiente com a restante equipa e de conhecer os métodos e técnicas dos restantes elementos. “No passado, a equipa de saúde oral apenas tinha que ‘tratar’ o paciente, mas agora precisa de ‘guardar’ tempo diário para poder integrar esse mesmo paciente nos restantes elementos da equipa, e de comunicar de forma eficiente as suas ideias” para que o plano de tratamento e a sua execução sejam bem-sucedidas.

Se tivesse apenas de enumerar um desafio de gestão, João Mouzinho diria que é “tornar os vários elementos numa verdadeira equipa”. Quase como no desporto, compara. “No desporto, só após os vários elementos saberem exatamente quais as suas tarefas é que se tornam uma verdadeira equipa de qualidade e capaz de serem melhores entre si e com a equipa”. O médico dentista exemplifica com aquele que é considerado o melhor do mundo: “Basta pensar que se uma equipa de saúde oral tivesse 10 Cristianos Ronaldos, seria uma equipa de verdadeiros astros na sua área, mas nunca funcionariam como uma verdadeira equipa”.

Espontaneidade

O bem-estar de um grupo de trabalho aparece, para João Mouzinho, de forma espontânea, apesar de salientar que existem técnicas para melhorar essa sensação. No entanto, admite estar totalmente contra o ‘team building’ fora do horário de trabalho. “Porque estamos a obrigar os vários elementos da equipa a dispensarem tempo livre para uma atividade da empresa, o que a torna em mais uma tarefa do que uma atividade”.

 “Dou tempo e espaço à equipa para resolver esse mesmo conflito. Uma das técnicas que sempre usei foi acabar com a forma de pirâmide clássica na empresa. Todos os elementos têm um papel importante na empresa e não há hierarquias. Dou liberdade a todos os elementos para terem o seu espaço e protagonismo”. Não sendo uma equipa em pirâmide, o grupo “obriga-se” a si mesmo a trabalhar dia-a-dia para se manter uma equipa, João Mouzinho 

No entender deste profissional devem ser criadas atividades fora da saúde oral, inter-equipa, mas nunca no horário de trabalho. “Prefiro promover o bem-estar de forma diferente, ou seja, prefiro diminuir os horários de trabalho e a quantidade de horas que a equipa trabalha para permitir que os vários elementos tenham tempo para poder fazer coisas que verdadeiramente gostem fora do trabalho”. Aliás João Mouzinho diz que em Portugal as equipas de saúde oral trabalham demasiadas horas, o que não permite terem tempo para poder fazer outras coisas, pelo cansaço inerente à quantidade de horas de trabalho. “Acredito também que o reforço positivo numa equipa é muito importante, porque vejo muitas equipas que apenas falam entre si para ‘apontar o dedo’ e nunca para elogiar”. O elogia, para este médico dentista, deve ser a palavra de ordem numa equipa de sucesso. “Classicamente, o povo português está sempre descontente e a criticar tudo e todos. Prefiro o contrário, ou seja, tornar o ambiente de trabalho positivo e com compensações pelo bom trabalho”.

Não se movem por dinheiro, mas…

Vários estudos apontam que a nova geração que agora entra no mundo de trabalho já não se move apenas por dinheiro, mas antes por desafios e ambientes de trabalho diferenciadores. João Mouzinho concorda parcialmente com estas conclusões – ele próprio pertence à nova geração e tem uma equipa exclusivamente com elementos jovens. Segundo o entrevistado, ter uma equipa jovem aumenta muito a produtividade, já que “é uma equipa que está sempre com ideias novas e a aumentar sempre o limite do que podemos fazer”. O profissional garante ter uma equipa “altamente motivada”, com elementos que se motivam entre si “porque classicamente não temos barreiras para aquilo que podemos fazer”.

“Dou tempo e espaço à equipa para resolver esse mesmo conflito. Uma das técnicas que sempre usei foi acabar com a forma de pirâmide clássica na empresa. Todos os elementos têm um papel importante na empresa e não há hierarquias. Dou liberdade a todos os elementos para terem o seu espaço e protagonismo”. Não sendo uma equipa em pirâmide, o grupo "obriga-se" a si mesmo a trabalhar dia-a-dia para se manter uma equipa, João Mouzinho

No entanto, isso não quer dizer que o fator remuneração deva ser descurado. “Claro que, para isso, a equipa tem que ser bem remunerada porque não pode estar sempre motivada se depois não tiver dinheiro para outras despesas. É verdade que o ordenado nunca dita a satisfação, mas esta nova geração não se apega a questões físicas, ou seja, vive em casa alugada, carro alugado, casa mais tarde, tens filhos mais tarde”. Mas, no entender de João Mouzinho, isso não quer dizer que não precise de dinheiro para poder suportar estas coisas. “E também precisa de dinheiro para viajar, conhecer novas culturas e países, que é possivelmente o que a minha equipa mais gosta de fazer. Ou seja, não somos movidos a dinheiro, mas precisamos do dinheiro para nos podermos mover”.

Adeus conflitos

João Mouzinho prefere que os conflitos simplesmente não existam. Para isso, admite, ‘perde’ muito do seu tempo para que estes não existam. “Acho que os conflitos devem ser resolvidos pelos intervenientes. Prefiro manter-me de lado desses conflitos porque sempre que um terceiro tem que intervir, o conflito não se resolve, apenas se coloca água na fervura”.

Até aos dias de hoje, diz nunca ter tido que resolver um conflito. A receita? “Dou tempo e espaço à equipa para resolver esse mesmo conflito. Uma das técnicas que sempre usei foi acabar com a forma de pirâmide clássica na empresa. Todos os elementos têm um papel importante na empresa e não há hierarquias. Dou liberdade a todos os elementos para terem o seu espaço e protagonismo”. Não sendo uma equipa em pirâmide, o grupo “obriga-se” a si mesmo a trabalhar dia-a-dia para se manter uma equipa. “Não acredito na competitividade com outras equipas porque não quero saber da concorrência. A nossa maior concorrência é o nosso paciente e perdemos muito tempo na equipa a arranjar estratégias para que o nosso próprio paciente não seja o nosso maior concorrente”.

Basicamente, João Mouzinho diz querer que o paciente entenda o valor da equipa e o valor do trabalho. “O objetivo é proporcionar ao paciente a melhor experiência que pode ter alguma vez na saúde oral. Se isto acontecer, eliminamos a concorrência das outras equipas apenas com o nosso bom trabalho. Por isso, para mim, trabalhar a equipa é simplesmente cumprir o nosso papel individual na equipa, que de certa maneira vai trabalhar o grupo”.

Abaixo os CV

João Mouzinho simplesmente deixou de olhar para currículos na hora de contratar um recurso. “Sempre que recebo um CV vem uma lista enorme de cursos, pós-graduações e afins. Como o emprego na área de saúde oral está cada vez mais escasso, cada vez recebo mais currículos”. Assim, o médico dentista opta por fazer uma entrevista para entender se a pessoa tem um espírito positivo para entrar na ‘família’. “Não precisamos de máquinas de trabalho, mas sim pessoas com as mesmas ideias que a equipa, com vontade de serem pró-ativas e de melhorarem a qualidade do nosso projeto”.

Uma das coisas que João Mouzinho habitualmente faz é pedir ao candidato que passe uns dias na clínica para saber se gosta da equipa. “Já tive possibilidades de estar em equipas fantásticas, mas que infelizmente não me faziam feliz. Cada vez mais ‘passo a bola’ para o lado da pessoa que vai integrar a equipa perceber se realmente vai ser feliz aqui e só depois vejo se essa pessoa vai aumentar a qualidade da nossa equipa”.

A importância da inteligência emocional

Cátia Íris Gonçalves, médica dentista, admite que os principais desafios que vê na gestão de uma equipa da área da saúde oral estão relacionados com a “capacidade de ‘ler’ os colaboradores, a franqueza, o sentido de justiça e a capacidade de liderança”.

Para promover a convivência salutar no mesmo espaço de trabalho, a mestre em periodontologia diz estar constantemente a imaginar-se no lugar do outro. “E farto-me de usar sentido de humor. Este último e o amor são sempre a salvação do ser humano”.

Para Cátia Íris Gonçalves, os conflitos “devem ser rapidamente resolvidos de forma prática e levando em conta o bem-estar dos colaboradores e a saúde das relações interpessoais”. 

Com uma visão um pouco diferente de João Mouzinho, Cátia Íris Gonçalves admite que todos nós, “infelizmente”, nos movemos por dinheiro. “Não se vive sem ele. O que acontece é que tem de haver honestidade intelectual e profissional para o ganhar. Mas em Portugal, como em todo o mundo, nem a equipa mais bem paga tem sucesso se não estiver sustentada por fortes motivações de ordem pessoal, coletiva, ética, profissional…”.

Para esta médica dentista, os conflitos “devem ser rapidamente resolvidos de forma prática e levando em conta o bem-estar dos colaboradores e a saúde das relações interpessoais”. Diz ainda não poder haver faltas de transparência nem o que apelidou de “paz podre”. “E devem ser dadas oportunidades e margem aos vários indivíduos da equipa para evoluir”.

Questionada sobre se hoje, na prática e com o dia-a-dia e a competitividade que existe, há tempo para “trabalhar” a equipa, a profissional sustenta que as histórias das clínicas de sucesso assim o provam: uma máquina, para trabalhar bem, precisa de ser revista e afinada, com ajustes constantes dos seus componentes, na dinâmica do tempo. E apesar de não ter clínica própria, a periodontologia tem uma formação da qual fazem parte diferentes elementos – e quando as clínicas com as quais colabora lhe pedem a opinião, o CV é aquilo que menos pesa no seu ajuizar. “Alguns dos melhores profissionais que conheci não tinham currículos que lhes faziam jus e vice-versa: a vontade de aprender e a inteligência emocional são qualidades obrigatórias no trabalho de equipa, ainda para mais na área da saúde”.

O poder da comunicação

No final parece haver uma palavra que dita toda a diferença: comunicar. Vítor Brás, médico dentista, em declarações à SAÚDE ORAL enfatiza o facto do fluxo de comunicação e a correta atribuição de tarefas numa equipa de medicina dentária, desde o médico dentista à assistente e equipa de protésicos e, nos casos em que há, aos gestores da clínica, é chave para o sucesso. Quanto ao bem-estar dos elementos que compõem o projeto, o profissional tenta encarar a equipa como um ecossistema. “Tal como na natureza, um ecossistema é algo dinâmico em que se há algo de mal num aspeto este acabará por afetar outros”. Assim, Vítor Brás promove o bem-estar da equipa ao tentar ao máximo que todos os membros consigam dar a sua opinião sobre o que está mal e o que se pode fazer melhor. “E, claro, eventos em grupo para promover o teambuilding são sempre importantes”.

 

 

 

 

 

Dos três entrevistados, Vítor Brás foi aquele que mais diretamente concordou com os estudos que apontam os projetos desafiadores como os mais atrativos aos novos profissionais. “Tal como os funcionários na atualidade se movem mais por desafios e não apenas por salário, também quero que os meus pacientes me escolham por valor e não por preço. Fazendo a analogia com os pacientes, os pacientes atuais procuram experiências e não apenas consultas. É então importante também que se adequem os desafios às funções e capacidades de cada um”.

Vítor Brás diz que é obrigatório haver tempo para trabalhar o grupo, correndo-se o risco de cometer erros de forma sistemática e, com isso, prejudicar os resultados da equipa. “Desta forma nunca se perde tempo por trabalhar a equipa, a médio/longo prazo acaba-se por poupar tempo, dado que toda a operação estará mais otimizada”.

 “Um conflito na equipa, a meu ver, tem origem em 90% das vezes (sem querer exagerar) em comunicação errada ou ineficiente. Neste aspeto é essencial que se ‘diagnostique’ o erro para evitá-lo no futuro. Não raras vezes, além da comunicação, existe uma má atribuição de responsabilidades e/ou tarefas”, Vítor Brás

Tal como os restantes entrevistados, também Vítor Brás não contrata currículos, mas pessoas. “Da minha área de investigação (NeuroMarketing e Neuroeconomia em Medicina Dentária) sabemos que a maior parte das decisões económicas são emocionais e não racionais”. Daqui resulta, no seu entender, que o CV acabará por justificar apenas na razão algo que já decidiu por emoção. “Tudo se resume à função em vista. Einstein tem uma célebre frase: ‘se julgar um peixe pela sua capacidade de subir uma árvore, ele vai passar toda a vida a pensar que é estúpido’. Com isto quero dizer que além de um ótimo CV é preciso avaliar se a pessoa se adequa à função que lhe queremos atribuir”.

De resto, voltamos ao “mesmo”: comunicação. “Um conflito na equipa, a meu ver, tem origem em 90% das vezes (sem querer exagerar) em comunicação errada ou ineficiente. Neste aspeto é essencial que se ‘diagnostique’ o erro para evitá-lo no futuro. Não raras vezes, além da comunicação, existe uma má atribuição de responsabilidades e/ou tarefas”.