Clínicas Dentárias

Clínica de especialidades pediátricas aposta na literacia para a saúde oral

Clínica de especialidades pediátricas aposta na literacia para a saúde oral

É uma clínica dedicada a especialidades pediátricas, mas sem pediatra generalista e onde a medicina dentária assume um papel de destaque. Com quase dois anos e meio de existência, a clínica dirigida pela odontopediatra Sofia Arantes e Oliveira tem crescido, mas com a consciência de que ainda há muito a fazer no país para mudar mentalidades na real valorização da especialidade e na melhoria da saúde oral.

É um espaço localizado no centro de Lisboa, com uma decoração clean que deixa entrar luz e se distancia de ambientes mais cinzentos ligados à área da saúde. À entrada, a receção divide-se com duas salas de espera: uma para adultos e outra para crianças. A Kids&Teens Clinic – Clínica do Lago abriu portas em novembro de 2016 e nasceu de uma ideia de Sofia Arantes e Oliveira, odontopediatra e diretora clínica. Inicialmente com uma equipa menor e menos especialidades pediátricas, tem vindo a crescer e a aumentar a oferta e os recursos humanos.

No primeiro piso localiza-se a Clínica do Lago, da responsabilidade de Tiago Figueiredo, vocacionada para adultos. Por uma questão de gestão logística e financeira, ambos consideraram ser viável dividir o espaço generoso com projetos diferentes, mas com algumas sinergias, como a zona da esterilização, a receção e o gabinete para realização de raio-X. “Ainda que sejam clínicas distintas, este é o modelo financeiro que consideramos mais rentável”, avança.

Mãe de três filhos, sempre fez confusão a Sofia ir a consultas com os filhos e ter de partilhar a sala de espera com crianças doentes onde a partilha de vírus era comum. “A minha ideia era criar uma clínica de especialidades pediátricas sem pediatra, com a vantagem de anular estas ‘doenças contagiosas’ na sala de espera. Todas as especialidades que temos implicam que as crianças que nos visitam não estejam particularmente doentes quando têm consultas”, explica.

“A partir do momento em que as crianças nos deixam chegar a elas começa a haver uma relação muito forte de confiança mútua.”

Além de Sofia Arantes e Oliveira, as consultas de Odontopediatria são ainda asseguradas por Joana Castanho, e as de Ortodontia por Carlos Amorim. “Temos vindo a crescer e a ultrapassar todas as dificuldades das fases iniciais. Por exemplo, uma que não antevi foi a crucial importância de uma boa receção. Se as pessoas nos contactarem e não conseguirem marcar uma consulta, rapidamente desistem e marcam noutra clínica, a menos que tenham uma referenciação muito forte. Felizmente esse é um dos muitos obstáculos iniciais que conseguimos ultrapassar”

Clínica de especialidades pediátricas aposta na literacia para a saúde oral

Com uma paixão assumida pela literacia em saúde oral, a diretora clínica começou a aperceber-se que era mais fácil sensibilizar os mais pequenos sobre os cuidados a ter. Depois de se ter licenciado em Medicina Dentária pelo Instituto Universitário Egas Moniz, em 1997, exerceu dois anos de medicina dentária generalista em Portugal, começando a dedicar-se aos cuidados dentários pediátricos no segundo ano. “Durante o curso não era uma área que gostasse particularmente, mas comecei a aperceber-me que é mais fácil moldar a mente das crianças. Com elas é possível apostar na prevenção”, defende. “Além disso, comecei a aperceber-me que tenho algum jeito com crianças. Alguns colegas começaram a encaminhar-me casos e foi assim que a prática foi crescendo”, acrescenta.

Apostar numa primeira e boa experiência
Com um consultório especialmente construído para o público infantil e juvenil, a primeira consulta é dedicada sobretudo ao ensino, à sensibilização, à ambientação da criança ao espaço e à equipa, e não às restaurações ou a algum tratamento. Esta primeira abordagem acaba por ser determinante para o futuro e para a relação que aquela criança venha a ter com os cuidados dentários ao longo da vida. Sofia Arantes e Oliveira não prescinde deste momento, na sua prática clínica. “Se uma primeira consulta implicar uma extração, por exemplo, o impacto será muito negativo e no futuro a criança irá associar sempre a medicina dentária a uma experiência desagradável”, defende.

É neste primeiro contacto que a médica dentista traça a história clínica da criança desde a gravidez da mãe. “Muitas vezes, as alterações da saúde geral, sobretudo desde os cinco meses de gravidez, podem afetar o desenvolvimento dos dentes do bebé.” Este ponto de partida acaba por deixar crianças que são ansiosas mais à vontade permitindo uma aproximação ao gabinete especialmente desenhado para crianças e jovens. “Ensinamos a escovar os dentes, os miúdos lavam os dentes ao espelho, explicamos algumas coisas e também fazemos isso com os pais. É uma consulta com uma componente muito mais educacional e psicológica do que interventiva e de tratamento.”

Clínica de especialidades pediátricas aposta na literacia para a saúde oral

Nesta consulta de uma hora a hora e meia, Sofia Arantes e Oliveira recorre ainda ao ‘Verdocas’, o peluche que ajuda na interação com os mais pequenos. “Conto os dentes da criança, mas também do boneco e com esta estratégia já vou vendo o que se passa no interior da boca.” Posteriormente é agendada uma segunda consulta que já pressupõe uma intervenção e tratamento. Este planeamento acaba por ser diferenciador com crianças que chegam muito ansiosas à clínica. “Recebemos crianças com uma enorme ansiedade, muitas vezes passada pelos pais”, explica, sublinhando que pais ansiosos relativamente à ida ao dentista acabam por transportar esse sentimento, mesmo que inconscientemente, para os filhos. “Alguns não passam a porta do gabinete, mas também recebemos casos que correram mal com colegas de medicina dentária generalista, com quem as crianças não tiveram uma boa experiência, aparecendo-nos na clínica ao fim de sucessivas tentativas.”

Equipa multidisciplinar
Nesta clínica, muito mais virada para a saúde do que para a doença, são disponibilizadas várias especialidades que se complementam. Além de consultas de Odontopediatria e Ortodontia, existe Terapia da Fala e Motricidade Orofacial, Imunoalergologia, Nutrição e Fisioterapia com componente de Osteopatia. “Temos uma equipa que se complementa, que debate os casos em conjunto, havendo imensa interação e reencaminhamento. Neste momento, para cumprir este objetivo na totalidade só nos falta ter otorrinolaringologia”, explica a responsável.

A clínica integra ainda as áreas de psicologia, neuropediatria e pedopsiquiatria”, explica. Mais recentemente, a Kids&Teens passou a disponibilizar uma consulta de oftalmologia, algo que não estava delineado no arranque do projeto, mas acabou por surgir a oportunidade e a direção clínica achou que fazia sentido.

Quando se fala em desafios e dificuldades desta especialidade, Sofia Arantes e Oliveira assume que a maior frustração acontece nos casos em que não se conseguem ensinar as crianças e jovens nas consultas, aparecendo algumas, anos depois, com cáries em dentes definitivos. “Normalmente, sugerimos que apareçam em consultas de rotina de seis em seis meses, mas não podemos obrigá-los a vir.” As dificuldades de comunicação são uma barreira à prática clínica. “Se não tivermos um bom relacionamento e um canal aberto com as crianças não vamos conseguir fazer nada. E se temos pais muito interventivos, que querem falar pelos filhos, não é possível estabelecer a ligação necessária”, explica, contando que recebe pais que vêm de vários pontos do país cujos filhos só querem ser atendidos por si. “A partir do momento em que as crianças nos deixam chegar a elas começa a haver uma relação muito forte de confiança mútua”.

Como chegam os clientes?
Assumindo que é difícil mudar a mentalidade de que só se vai ao dentista quando há dor ou algum problema, a diretora clínica luta diariamente pela consciencialização de que a prevenção é a chave para uma boa saúde oral. “Há imenso a fazer neste país, não só ao nível dos cuidados infantis, mas em relação à população adulta. Existe uma preocupação muito grande relativamente ao excesso de médicos dentistas em Portugal, mas isto só acontece porque as pessoas não vão ao dentista quando deveriam. Se todos os portugueses fossem a consultas, de seis em seis meses, não existiriam profissionais suficientes para as necessidades”, defende.

Clínica de especialidades pediátricas aposta na literacia para a saúde oral

A crítica pode ser sustentada com os dados do mais recente estudo da Eurostat que indica que quase metade dos portugueses (47%) não foi ao dentista em 2017, uma percentagem que está acima da média europeia que se situa nos 45,1%. Os dados revelam ainda que 33,6% dos portugueses recorre a esta especialidade entre uma a duas vezes por ano e que 14,2% vão entre três a cinco vezes por ano.

 “Existe uma preocupação muito grande relativamente ao excesso de médicos dentistas em Portugal, mas isto só acontece porque as pessoas não vão ao dentista quando deveriam. Se todos os portugueses fossem a consultas, de seis em seis meses, não existiriam profissionais suficientes para as necessidades.”

Algumas crianças e jovens são acompanhados desde há muitos anos por Sofia Arantes e Oliveira e acabaram por acompanhar o seu percurso profissional. “Com um website, presença no Instagram, Facebook, Linkedin e Google, os clientes chegam à Kids&Teens Clinic por diferentes vias. “Recebemos doentes por parte de referenciação de outros pais, de colegas generalistas – porque não existem assim tantos odontopediatras em Portugal – de pediatras, mas também por pesquisas na internet e que acabam por marcar consulta através da página.”

A médica dentista lança uma crítica às seguradoras e aos convénios no que respeita às tabelas de preços. “Se formos verificar, as consultas e tudo o que seja relacionado com prevenção são os serviços mais baratos. Tudo o resto tem valores mais elevados (intervenções, restaurações, colocar implantes, próteses, etc.). Esta mentalidade pode até enviesar o procedimento do médico dentista, que acabou de sair da faculdade. Ou seja, é possível que substitua a aposta na prevenção, por aquilo que lhe permita receber mais”, defende. Isto leva a que alguns pais não entendam porque é que têm de pagar uma consulta onde se ensinou uma criança a lavar os dentes, onde se educou para a literacia em saúde sem uma intervenção mecânica. “Ainda falta a algumas pessoas entender que esta vertente é fundamental e que não somos técnicos, mas médicos dentistas.”

Apesar de alguns colegas generalistas assumirem o tratamento de crianças e jovens, a diretora clínica alerta para o facto de existirem determinados procedimentos que pressupõem “um conhecimento da especificidade dos dentes de leite”, e sugere a referenciação para os especialistas mais adequados. “Temos Odontopediatria no curso, mas se um médico dentista não se dedicar apenas a esta área torna-se muito complicado, não só acompanhar o desenvolvimento de todas as técnicas existentes, mas também ter a capacidade psicológica para lidar com criança. Porque isso representa uma grande parte do trabalho que desenvolvemos”.

Artigo publicado na edição de março/abril de 2019 da revista SAÚDE ORAL