Opinião

Burnout – a doença

Burnout – a doença

Pode parecer preguiçoso, mas em saúde trabalhar menos é trabalhar melhor! E claro que existe uma justificação científica para esta afirmação. Não se trata de ser um apóstolo do dolce fare niente. A realidade de trabalho de muitos médicos dentistas são as comissões, a clássica Lei do ‘não trabalha, não recebe’ ou cuidar da gestão da sua clínica como se de um recém-nascido se tratasse, sempre a precisar de atenção, mimo e… carinho. Não é por acaso que alguns estudos demonstram que os médicos dentistas apresentam uma taxa de suicídio superior face a outros profissionais de saúde (1). Tudo culmina numa constatação do óbvio: se o médico não está bem isso refletir-se-á no seu trabalho e consequentemente na satisfação do paciente(2).

“O bem-estar mental de um clínico afeta a sua empatia para com o paciente. Em estudos prospetivos, pacientes de médicos que reportaram estar mais satisfeitos com o seu trabalho estavam eles próprios mais agradados com os cuidados prestados e apresentavam uma maior taxa de adesão ao plano de tratamento.”

Muitas vezes, a literatura na área dos Recursos Humanos chega a conclusões que, para quem vem da área de Saúde parecem óbvias, como a frase anterior. Contudo, quase sempre ignoramos as verdadeiras implicações desses dados. Para um profissional de Saúde, a satisfação no trabalho compreende uma equipa coesa, que comunique eficazmente, num ambiente o menos caótico possível; independentemente da qualidade dos cuidados prestados e da frequência de erros médicos cometidos(3). Num estudo em ambiente hospitalar onde foram inquiridos médicos, os que responderam que estavam satisfeitos com o seu trabalho tinham (estatisticamente) três vezes menos probabilidade de sofrer de burnout e oito vezes menos probabilidade de abandonar a clínica(3).

O que quero dizer com isto, seja o colega empregado ou empregador, é que faz sentido investir no seu bem-estar e/ou nos médicos que trabalham na sua clínica. É um investimento com retorno(4).

Não quero com este artigo ser um “Robin Sharma” da Medina Dentária. É óbvio que, se estamos bem, trabalhamos melhor e isso reflete-se a vários níveis. O bem-estar mental de um clínico afeta a sua empatia para com o paciente(5). Em estudos prospetivos, pacientes de médicos que reportaram estar mais satisfeitos com o seu trabalho estavam eles próprios mais agradados com os cuidados prestados(6) e apresentavam uma maior taxa de adesão ao plano de tratamento (2).

Torna-se assim fundamental (e se for o caso mostre este artigo ao seu ‘patrão’) contemplar no horário de trabalho períodos em que não sejam agendadas consultas para uma reunião de equipa, debate de casos clínicos, etc.; ou adaptar a agenda para que se possa praticar exercício. Investir na saúde ocupacional do médico dentista não só aumentará o rendimento, como a satisfação dos seus pacientes.

 

  1.           Sancho FM, Ruiz CN. Risk of suicide amongst dentists: myth or reality? Int Dent J. diciembre de 2010;60(6):411-8.
  2.           Scheepers RA, Boerebach BCM, Arah OA, Heineman MJ, Lombarts KMJMH. A Systematic Review of the Impact of Physicians’ Occupational Well-Being on the Quality of Patient Care. Int J Behav Med. 2015;22(6):683-98.
  3.           Linzer M, Sinsky CA, Poplau S, Brown R, Williams E. Joy In Medical Practice: Clinician Satisfaction In The Healthy Work Place Trial. Health Aff (Millwood). 1 de octubre de 2017;36(10):1808-14.
  4.           Shanafelt T, Goh J, Sinsky C. The business case for investing in physician well-being. JAMA Intern Med. 1 de diciembre de 2017;177(12):1826-32.
  5.           Shanafelt TD, West C, Zhao X, Novotny P, Kolars J, Habermann T, et al. Relationship between increased personal well-being and enhanced empathy among. J Gen Intern Med. 1 de julio de 2005;20(7):559-64.
  6.           Haas JS, Cook EF, Puopolo AL, Burstin HR, Cleary PD, Brennan TA. Is the Professional Satisfaction of General Internists Associated with Patient Satisfaction? J Gen Intern Med. 18 de mayo de 2004;15(2):122-8.