Entrevista

Biolocker: “Nenhuma tecnologia no mercado apresenta este mecanismo de ação físico e não químico”

Biolocker: “Nenhuma tecnologia no mercado apresenta este mecanismo de ação físico e não químico”

Um grupo de investigadores nacionais criou uma tecnologia baseada na molécula orgânica natural que impede a formação de placa bacteriana – o Biolocker – que tem a capacidade de “prevenir a formação precoce de placa bacteriana, sem efeitos antimicrobianos”. A SAÚDE ORAL falou com os responsáveis pelo projeto – Daniel Abegão, Filipe Antunes, Sérgio Matos, Tiago Santos, Gabriela Martins e Inês Fernandes, que acreditam que a inovação pode ser a ‘chave’ para tratar as cáries dentárias.

Como funciona o Biolocker?

O Biolocker é uma tecnologia inovadora no campo da saúde oral que impede a formação da placa bacteriana quando aplicado diariamente. No seu desenvolvimento esteve envolvida uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra constituída por profissionais das Faculdades de Ciências e Tecnologia e também Medicina. Posteriormente, o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3s), no Porto, foi convidado a abraçar o projeto, em parceria com a UC. O processo de investigação inicial foi desenhado para testar a eficácia de duas moléculas orgânicas previamente identificadas com dentes humanos, e desde cedo conseguimos dominar o processo. Sentimos algumas dificuldades ao nível da esterilidade da saliva dos dadores humanos, que necessitávamos de assegurar para garantir a correta execução dos protocolos experimentais desenhados. Neste momento, para efeitos de patenteabilidade, estamos a terminar a alteração estrutural das moléculas orgânicas cuja ação desejada validámos previamente. Como passo final da investigação vamos validar a ação da nossa fórmula em dentes humanos e em pacientes reais, avaliando as alterações dos índices de placa em utilizadores do Biolocker durante 30 dias.

Qual é o potencial da tecnologia no tratamento das cáries dentárias e de outros problemas de saúde oral?

Ao impedir a adesão das bactérias responsáveis pelo início e progressão da placa bacteriana, a tecnologia previne a formação, maturação e agravamento das cáries. Ao impedir o desenvolvimento da placa poderá prevenir também o desenvolvimento de outras patologias orais, nomeadamente periodontites e gengivites. A atividade da tecnologia reside na adesão de moléculas orgânicas a recetores orais ancorados nos dentes. Através de um fenómeno de competição com estas moléculas do Biolocker, as bactérias cariogénicas do género Streptococcus, as principais responsáveis pelo início e progressão das cáries, não conseguem aderir ao dente. Esta ação impede que todo o processo de colonização bacteriana do ambiente oral, nomeadamente na superfície do dente, tome lugar.

Quais as principais vantagens em relação às soluções atualmente disponíveis no mercado?

Os tradicionais antisséticos são de largo espectro e, por isso, recorrem a uma estratégia de ‘terra queimada’, eliminando as boas e as más bactérias, o que pode danificar a flora oral residente, que é extremamente benéfica para a saúde geral do organismo. Além destas vantagens, o Biolocker não tem álcool nem clorhexidina, o que promove, respetivamente, um maior respeito da fórmula pela mucosa oral e pela coloração natural dos dentes.

Qual diriam que é a grande inovação desta tecnologia em relação a outras já existentes no mercado?

A grande inovação reside no mecanismo de ação inovador. O Biolocker impossibilita a ação das bactérias que lideram o processo de formação da placa bacteriana, as designadas colonizadoras iniciais. Como estas bactérias (género Streptococcus) funcionam como alicerce, ao retirar a âncora impedimos que todas as bactérias a jusante se possam fixar. Por outras palavras, a tecnologia desenvolvida funciona como uma espécie de revestimento antiaderente, impedindo que as bactérias se agarrem ao esmalte dentário e formem a placa bacteriana. Nenhuma tecnologia no mercado apresenta este mecanismo de ação físico e não químico.

Qual foi a reação do mercado/profissionais do setor à vossa inovação?

A reação foi de grande entusiasmo e curiosidade sobre a tecnologia. Observámos também que muitos potenciais consumidores identificam o Biolocker como uma solução para um problema a resolver na sociedade. Tivemos bastante feedback de potenciais consumidores, da comunicação social e também de potenciais parceiras farmacêuticas.

Pelo que sabemos estão em processo de registo de patente internacional. Quando esperam receber a patente?

Será expectável ter o processo de patente internacional finalizado durante o ano de 2019.

O vosso projeto foi o único vencedor português da 3ª edição do Programa Caixa Impulse, no valor de 70 mil euros. Este financiamento será utilizado para quê?

O financiamento já foi totalmente executado e foi utilizado para garantir liquidez para viagens, para contratação de empresas consultoras de negócios, gestoras de projetos, consultoras científicas e parceiros laboratoriais para a fase de I&D. Adicionalmente pudemos garantir todos os estudos de patenteabilidade e consequente escrita da patente. O dinheiro foi também aplicado para o pagamento de técnicas científicas e materiais laboratoriais.

Quando esperam ter a vossa solução disponível no mercado para comercialização e sob que forma?

Acreditamos que a solução possa estar disponível no mercado a partir de 2020. A tecnologia será otimizada de forma a poder ser aplicada em pastas dentífricas, elixires, fio dentário ou pastilhas elásticas.

Como olham para a Medicina Dentária em Portugal?

A cárie e as doenças gengivais são as patologias infeciosas mais prevalentes no mundo e o desenvolvimento de ferramentas preventivas é essencial. Em Portugal, os números mais recentes apontam para que cerca de 90% da população tenha sofrido, ou sofra, com cáries. No nosso país, a saúde oral é maioritariamente proporcionada por cuidados privados e, consequentemente, muito onerosos. A maneira mais eficaz de podermos combater todas as patologias da cavidade oral é através da prevenção, reduzindo custos com tratamentos. Neste aspeto, o Biolocker poderá assumir um relevo adicional em matéria de saúde pública.