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Opinião

As emoções e a tomada de decisão

As emoções e a tomada de decisão

Damiana Fernandes – Vida Pro e Plena

Na prática clínica em medicina dentária, a tomada de decisão assume um papel constante e fundamental. Estima-se que um adulto tome cerca de 35.000 decisões diariamente, desde as mais pequenas e programas, às decisões inesperadas, algumas com grande impacto, que afetam o curso da nossa vida. Um estudo da Universidade de Cornell aponta para mais de 200 decisões diárias só relativas à alimentação. Para os profissionais de saúde oral, o decorrer de um dia de trabalho assenta em cadeias de decisões que se sucedem incessantemente e que se refletem nos resultados atingidos. Consegue imaginar o número de decisões que tomamos num dia de agenda cheia de consultas?

Uma das situações com que mais me deparo junto dos profissionais da medicina dentária é a sua firmeza no que diz respeito à forma como tomam decisões: de forma racional, dizem com convicção. Isto faz-me sempre esboçar um sorriso. A ciência demonstra que as emoções têm um papel fundamental na tomada de decisão. Aliás, sem emoções não é possível tomar decisões. António Damásio, neurocientista português, conta no seu livro “O Erro de Descartes” a história do paciente Elliot, pai e marido exemplar e que tinha um emprego importante numa grande empresa e era um membro ativo da sua igreja. Foi diagnosticado ao paciente um pequeno tumor perto do seu lobo frontal e procederam à sua remoção cirúrgica. Após a cirurgia, os testes psicotécnicos mostraram que o seu QI estava idêntico, mas a vida quotidiana de Elliot mudou por completo. As rotinas que antes demoravam minutos, começaram a demorar horas, porque Elliot ficava indefinidamente a pensar em detalhes irrelevantes – perceberam então que Elliot não conseguia tomar decisões. Teve problemas financeiros, o casamento fracassou e voltou a viver com os seus pais. Quando Damásio recebeu Elliot como seu paciente, os seus amigos e família diziam que depois da cirurgia ele parecia estranhamente desprovido de emoções, dormente aos eventos trágicos que lhe tinham acontecido até então. Depois de vários estudos, Damásio percebeu que a sua dificuldade em tomar decisões vinha da sua incapacidade fisiológica em sentir emoções, resultado da cirurgia de remoção do tumor e da zona cerebral afetada pelo mesmo. Na época considerava-se que as emoções humanas eram irracionais, e que alguém desprovido de emoções tomaria melhores decisões. Mas esta patologia sugeriu que as emoções eram uma parte crucial na tomada de decisão (Damásio, 1994). Um cérebro que não consegue sentir, não consegue decidir.

 

Se percebermos a forma como as emoções influenciam o pensamento, o autocontrolo e a tomada de decisão, e isto é inteligência emocional, podemos planear e organizar o nosso dia de trabalho com vista a diminuir vieses que muitas vezes nos levam a tomar decisões impulsivas ou baseadas em emoções temporárias. Instaurar protocolos clínicos, ter uma gestão consciente e intencional da agenda, nomeadamente com a marcação de tratamentos mais complexos nos primeiros horários de trabalho, garantir pausas para a alimentação e hidratação, respeitar um número de horas de trabalho consecutivas que não sobrecarreguem o profissional de saúde oral são apenas alguns exemplos simples que ajudam a evitar a necessidade de tomar decisões inesperadas e com elevado grau de stresse e emoção associado.

Uma boa gestão emocional conduz a boas tomadas de decisão e todas as decisões que tomamos em cada diagnóstico, plano de tratamento, escolha de materiais e técnicas ou até ao nível da comunicação definem-nos enquanto profissionais. Os resultados dessas decisões contribuem para o nosso nível de desempenho profissional e consequentemente para o sentimento de realização profissional. Desenvolver as competências de inteligência emocional pode fazer de cada um de nós profissionais de alto desempenho e isso tem o poder de levar a medicina dentária mais longe!

 

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 144 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2022.

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