Dentistas portugueses pelo mundo

“A Câmara dos Dentistas alemães diz que não quer que a Alemanha se transforme numa ‘Espanha’ ou num ‘Portugal’ e dói muito ouvir isto e dá muito que pensar”

“A Câmara dos Dentistas alemães diz que não quer que a Alemanha se transforme numa ‘Espanha’ ou num ‘Portugal’ e dói muito ouvir isto e dá muito que pensar”

Entrevista a Joana Silva Carvalho – Médica odontopediatra na Zahnarztpraxis Dr. Schönfeld Dr. Kassem, Alemanha, e colaboradora do Ministério da Saúde alemão no âmbito da prevenção dentária.

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

Trabalho como médica odontopediatra praticamente desde que estou na Alemanha, mas também faço medicina dentária generalista. Além disso, faço parte do departamento regional do Ministério da Saúde de cá (Gesundheitsamt), com o qual colaboro na prevenção e deteção de problemas em crianças em idade escolar e pré-escolar. A odontopediatria foi sempre, desde o início, a minha área favorita da medicina dentária e era impensável não trabalhar nesta área.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual é o seu cargo?

A oportunidade surgiu em 2013, quando o panorama não estava muito favorável em Portugal e o meu marido e eu decidimos em conjunto emigrar e tentar a nossa sorte. Trabalho neste momento numa clínica dentária com outros cinco colegas, onde sou responsável pelo departamento de odontopediatria. Acabei há cerca de um mês a especialidade de odontopediatria, o meu orgulho, pois foram dois anos e meio bastante difíceis não só no plano linguístico, mas também logístico, porque tinha de me ausentar todos os meses, e com duas filhas e sem rede familiar de apoio tudo fica mais complicado. Mas, quando se quer muito algo, tudo se alinha.

Quais as diferenças que encontra entre métodos de trabalho entre os dois países? Como é que é um dia de trabalho normal para si?

Os métodos de trabalho são obviamente universais, uma vez que se regem por normas europeias. No entanto, existe muita legislação a ser cumprida, normas e diretivas em excesso que são obviamente necessárias e importantes, mas leva um certo tempo até que nos habituemos a ter isso em conta no dia a dia. Em relação à minha rotina diária, não poderia estar mais satisfeita. Consigo aliar trabalho e família sem problemas e sem correrias. Obviamente que facilita o facto de estar numa cidade pequena, em que tudo está a mão. Trabalho cerca de cinco a seis horas diárias de segunda a sexta. E isso permite-me ser mãe e ter tempo para mim também.

“A Câmara dos Dentistas alemães diz que não quer que a Alemanha se transforme numa ‘Espanha’ ou num ‘Portugal’ e dói muito ouvir isto e dá muito que pensar”

Como é que foi a adaptação a um trabalho fora de Portugal?

A adaptação não foi de todo fácil. A força de vontade tem de estar muito presente. A começar pela língua – o alemão não é fácil! Imagine tentar falar uma língua estrangeira que nunca ouviu e ao fim de um ano ter destreza para conversar e convencer crianças e os seus pais. Trabalhei como assistente dentária cerca de nove meses na clínica onde trabalho atualmente para poder aprender a língua e obter a equivalência do meu diploma. Dez meses bastaram, mas ainda tenho muito que aprender. Fui e sou muito bem recebida e só tenho a agradecer todas as oportunidades que me foram dadas até agora.

Quais os seus planos para o futuro?

Quando se tem a família como ponto fulcral as escolhas não podem ser só profissionais. E prova disso é que vim para cá com uma filha e já tenho duas! O crescimento e formação das minhas filhas é fundamental e, com base nisso, eu e o meu marido tomámos a decisão de ficar por cá até à reforma.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Pode parecer clichê, mas a medicina dentária tem de se ‘sentir’! Ninguém consegue sucesso e plenitude numa profissão que não gosta. Depois, não basta só gostar, há que tentar ser o melhor na área que escolhermos, pois com tantos profissionais hoje em dia o destaque vai para aqueles que querem fazer mais e melhor! Assim, a seu tempo, em Portugal ou fora dele, o trabalho e a dedicação serão reconhecidos!

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Teríamos aqui tema para várias páginas e é de facto difícil resumir a minha opinião, correndo o risco de me esquecer de algum ponto fulcral. Em Portugal, começa pelo excesso de profissionais para um país demasiado pequeno. Depois, temos a total ausência de práticas de prevenção e um país no qual os cuidados e prevenção dentária não estão de todo enraizados na sociedade. O cidadão português não tem os cuidados dentários como algo importante, geralmente está atrás de alguns bens de consumo na pirâmide das necessidades. Além disso, temos a medicina dentária desintegrada do sistema geral de saúde, o que faz parecer ao comum dos cidadãos que não é algo importante. E, claro, um sem número de cadeias de clínicas cujo único intuito é vender e não se preocupam com a verdadeira prestação de serviços. Tudo isto culmina num bolo em que a medicina dentária em Portugal é colocada num patamar muito escondido e pouco sério. Não vejo ninguém de outras especialidades médicas a oferecer consultas gratuitas e planos de pagamentos antes de um diagnóstico. Também não vejo nenhuma especialidade médica do mundo a oferecer tratamentos gratuitos! E isso leva ao tema do princípio do utilizador–pagador. Em Portugal está enraizado que a saúde tem de ser gratuita e isso, a meu ver, é um erro geracional crasso. Bons serviços e bons profissionais pagam-se! Na Alemanha todos pagam a saúde, inclusive a medicina dentária. E está a decorrer neste momento uma ação de sensibilização por parte da Ordem e da Câmara dos Dentistas alemães para que os recém-licenciados não “caiam” nas teias das cadeias dentárias ditas ‘perigosas’! A Câmara dos Dentistas alemães diz que não quer que a Alemanha se transforme numa ‘Espanha’ ou num ‘Portugal’ e dói muito ouvir isto e dá muito que pensar…