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Médicos dentistas

Um português na International Association of Paediatric Dentistry

A associação internacional convidou o jovem odontopediatra, António Pedro Silva, para desenvolver o Young International Association of Paediatric Dentistry, um programa para estudantes de pós-graduação e jovens odontopediatras.

A International Association of Paediatric Dentistry (IAPD) é uma organização científica que integra as sociedades nacionais de odontopediatria que existem um pouco por todo o mundo. Este espaço para discussão e tomada de posições em relação aos temas mais relevantes desta área da medicina oral vai, em breve, ter um português na sua equipa: António Pedro Silva. O odontopediatra, formado na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto, vai integrar a equipa liderada pelo presidente do IAPD, Marcelo Bönecker, que tomou posse no último congresso da associação, em julho de 2019, no México, e que terá funções até 2021.

“Fui convidado para fazer parte do Comité de Relações Públicas do IAPD e para liderar um novo projeto para os jovens odontopediatras: a YIAPD (Young IAPD). Trata-se de uma segmentação da IAPD para estudantes de pós-graduação e jovens odontopediatras. Eu estou a trabalhar na estruturação da YIAPD”, explica António Pedro Silva.

António Pedro Silva

O convite surgiu no decorrer do último congresso da associação, no qual António Pedro Silva foi convidado como orador. “Organizei uma sessão clínica para a qual convidei seis referências do mundo da odontopediatria. Sinto que a sessão teve um forte impacto no congresso”, afirma.

O jovem odontopediatra vive há três anos em Antuérpia, na Bélgica, onde pode exercer a profissão que, de alguma forma, o escolheu a ele e não o contrário. “A classe profissional na Bélgica parece-me bastante simples, mas muito centrada em questões essenciais. Uma grande vantagem de trabalhar na Bélgica é o custo dos tratamentos dentários para crianças ser comparticipado”, comenta António Pedro Silva que, em criança, ir ao dentista “era dos maiores medos que tinha”.

O percurso profissional

O medo pelo dentista foi-se esbatendo e, no ano 2000, começou a estudar Medicina Dentária na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Foi no segundo ano de faculdade que o “clique” para a medicina oral especializada em crianças se deu. Cruzou-se com aquele que foi o seu médico dentista durante anos. “Entrei numa sala onde estava um professor a palestrar sobre ‘uns’ incisivos centrais. Fiquei fascinado pelo que falava e pela forma como falava. Não sabia sequer que o palestrante se chamava Dr. João Pimenta, pois se soubesse iria possivelmente recordar-me de quando a minha mãe me levou pela primeira vez ao dentista, aos seis anos de idade, para tratar uma cárie no 46 com o Dr. João Pimenta. Para mim é muito curioso que o Dr. João Pimenta tenha tido uma influência tão forte na minha profissão, quer pela paixão pela medicina dentária, após esse congresso, quer pela odontopediatria, pois todas as minhas preocupações fundamentais na odontopediatria decorrem da minha experiência pessoal como criança que necessitou de tratamentos dentários.”

“Não comecei este projeto porque gostasse especialmente de odontopediatria (até porque nos congressos, a odontopediatria não era muito representada e, quando era, parecia-me pouco estimulante), mas porque naquela fase entendi que a prevenção era o caminho a seguir”

O tempo da licenciatura decorreu, interessando-se por outras áreas, como a engenharia de tecidos e regeneração. No final da formação superior, decidiu criar um projeto com crianças nos infantários, o Dental Show, um conceito de formação para aumentar o grau de autonomia e a proatividade das crianças dos três aos seis anos. “Recorri a música, coreografia e sistematização da escovagem no sentido de criar uma memória coletiva nos infantários. Não comecei este projeto porque gostasse especialmente de odontopediatria (até porque nos congressos, a odontopediatria não era muito representada e, quando era, parecia-me pouco estimulante), mas porque naquela fase entendi que a prevenção era o caminho a seguir”, refere.

O conceito foi implementado, mas António Pedro Silva não se sentia preparado para dar seguimento a este projeto profissional tal como o tinha idealizado. No entanto, foi assim que percebeu que “estar com crianças era algo muito bom” e decidiu inscrever-se na especialização de odontopediatria da mesma faculdade.

Orador no mundo e pesquisador incansável

Desde o primeiro momento na faculdade, sentiu necessidade de pesquisar, ler e saber mais. Confrontado com alguma falta de informação sobre medicina oral pediátrica, decidiu recorrer às redes sociais para criar uma rede de partilha de conhecimento, que veio a originar o Pediatric Dentistry Forum (PDF). “Basicamente, acho que foi a frustração e a falta de possibilidade em ter acesso a mais conhecimento” que originou a fundação do PDF. “Recorri às redes sociais em busca de colegas que estivessem interessados em discutir temas e partilhar informação. A primeira partilha de conhecimentos foi muito gratificante. Adorei a atitude do colega e procurei replicar. Adicionei dezenas, centenas de odontopediatras nas redes sociais, criando alguns laços fortes. Em 2011, formei o Pediatric Dentistry Forum no Facebook”, conta o médico dentista.

Até hoje, a página continua como um espaço de partilha de informação clínica e científica, focando-se sobretudo na odontopediatria. “Mas todos os médicos dentistas são bem-vindos”, sublinha António Pedro Silva.

Passados oito anos da fundação, o PDF tem hoje uma representação de todas as partes do mundo. “Atualmente somos 37 mil membros. Temos critérios bem definidos para a adesão de membros e a sua permanência. A nacionalidade dos membros é abrangente: Reino Unido, Portugal, Estados Unidos da América, Índia, México e Egito são dos países com mais membros.”

António Pedro Silva é ainda orador, sendo convidado a participar em vários eventos, um pouco por todo o mundo. Dá formação modular para odontopediatras e médicos dentistas em duas cidades de Espanha, com colegas como David Quintanilha, Rocio Lazo e Paloma Perez Prieto. O jovem odontopediatra está ainda a pensar “criar um programa para odontopediatras e médicos dentistas em Portugal”.

Por fim, tem estado também a desenvolver uma ferramenta virtual (ROOGIES) para intervenção cognitiva e comportamental em odontopediatria. “Os resultados são, na minha prática clínica, muito entusiasmantes. Creio que é muito importante trabalhar o paradigma cognitivo da odontopediatria, até porque hoje em dia conseguimos realizar sem qualquer dor a grande maioria dos tratamentos”, defende. “O que faço é procurar ter o máximo de conhecimento científico e técnico e a vontade de ser competente com as minhas funções diariamente.”

*Artigo publicado originalmente na edição de janeiro-fevereiro de 2020 da revista SAÚDE ORAL.