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Dentistas portugueses pelo mundo

“Temos vários colegas de renome internacional, muitas vezes perguntam-me cá se os conheço pessoalmente”

Rui Filipe Franco

Médico dentista com prática em ortodontia e proprietário da clínica Tandartspratijk Lemmer, nos Países Baixos

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área? 

Sou no fundo um médico dentista com prática generalista que nos últimos anos enveredou pela ortodontia. Na realidade, o percurso inicial foi a dentisteria estética e implantologia. Há relativamente cerca de cinco anos, a necessidade de colmatar algumas lacunas de oferta na região onde exercia rapidamente me encaminharam para a ortodontia.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?

A oportunidade surgiu em 2011, dois anos após terminar a licenciatura, na altura o já chamado mestrado integrado. A ideia inicial seria emigrar para os Estados Unidos da América. No entanto, surgiu a Holanda como opção, que na altura eu via como um passo intermédio.

Vim, portanto, com a ajuda de uma empresa de recrutamento. Eles comprometiam-se na procura de emprego, casa e aprendizagem da língua. Obviamente, este tipo de empresas raramente são o que afirmam ser, mas, no entanto, posso dizer que em larga escala cumpriram com o prometido.

Em 2015, adquiri a clínica de um dentista que se iria reformar e, recentemente, finalizei as negociações com uma segunda clínica. Portanto, a partir de setembro, serei proprietário de duas clínicas na região de Friesland, nos Países Baixos.

Como é que foi essa experiência e que desafios enfrentou? O que é que o levou a querer abrir uma clínica própria?

Foi um processo relativamente rápido a partir do momento em que encontrei a clínica certa. Todo o processo de procura de clínica foi demorado. Muitas clínicas não aparecem no mercado ou são automaticamente adquiridas pelos grandes grupos. Portanto, na altura acabei por comprar casa e clínica em simultâneo, uma vez que a clínica se encontrava dentro da mesma propriedade. Tive alguns, senão muitos receios, relativamente a este tipo de junção casa/trabalho, mas agora não quero outra coisa. Acabo mesmo por pensar que esse é um ponto negativo da segunda clínica que recentemente adquiri. Na realidade, não apareceram muitos desafios ou entraves; neste país os jovens empresários são encorajados e têm bastantes apoios e facilidades. A procura de um espaço meu, em que conseguisse aplicar as minhas ideias e projetos, fez-me tomar esta decisão.

O que é que o fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?

Iniciei o exercício de medicina dentária em 2009, a meu ver, quando se começaram a ver os efeitos da crise de 2008. Infelizmente, desde essa altura vemos um aproveitamento sucessivo do recém-licenciado, a falta de ética na concorrência entre clínicas, nomeadamente nas ditas promoções com tratamentos gratuitos, quer por obrigação das seguradoras ou não. Os dias de trabalho excessivos e os horários sem tempo para uma vida social ou familiar normal afetaram bastante esta escolha. Posso também afirmar que a remuneração teve também um efeito decisivo, com ordenados em atraso e martírio constante do estigma de se trabalhar com recibos verdes, em que comprar uma casa é quase impossível…

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz? 

Um dia normal de trabalho começa às 8h20. Nesse momento, entro na clínica e tomo café com a minha equipa, que já prepararam anteriormente os gabinetes para o início do dia de trabalho. Às 8h30 vejo o primeiro paciente, dependendo do dia da semana, poderão ser dois simultâneo em gabinetes diferentes, obviamente. Três dias da semana está um colega médico dentista também português a exercer na minha clínica. Nos outros dias, trabalho em dois gabinetes em simultâneo. Cá, as assistentes dentárias têm bastantes cursos de pós-graduação, que lhes permite bastante autonomia no auxílio e execução de vários procedimentos, o que acaba por nos permitir trabalhar em mais do que uma cadeira/gabinete em simultâneo. Às 10 h temos a pausa da manhã para bebermos café, dura cerca de 15 minutos. A pausa para almoço é às 12 h e dura uma hora. Nessa hora, uma vez que a clínica é em casa, almoço com a minha família. Temos novamente uma pausa para café às 15 h e o dia de trabalho acaba às 16h45, alargando-se normalmente em média para as 17 h.

De que forma é que a pandemia de covid-19 tem afetado a prática da medicina dentária nos Países Baixos?

Assim como todos os países do mundo, a pandemia afetou em larga escala a medicina dentária nos Países Baixos. No entanto, passaram-se várias semanas de incerteza, uma vez que as restrições foram bem menos limitativas do que em Portugal. O encerramento das clínicas foi apenas um conselho e não algo obrigatório, obviamente, penso que a grande maioria encerrou. Sendo que a dada altura foi afirmado pelo governo numa conferência de imprensa que os médicos dentistas e higienistas orais apenas pararam de exercer porque quiseram, não lhes foi imposto por lei/governo. Talvez uma tentativa de evitar as tais ajudas financeiras…

Hoje em dia, em que já estamos a exercer normalmente, as únicas medidas impostas são uma triagem de pacientes, em que os com risco positivo ou confirmados para a doença requerem um conjunto extenso de protocolos e medidas com bastantes meios de proteção pessoal. Para todos os outros pacientes que não se enquadram neste grupo, os únicos meios obrigatórios são as máscaras tipo II ou II-R e uma viseira…

Equaciona regressar a Portugal?

Não. Como se pode perceber pelo que referi anteriormente, o meu dia de trabalho começa cedo, mas termina também bastante cedo, o que significa que acabo por ter muito tempo livre. Tendo três filhos, consigo estar com eles ainda um tempo considerável no dia a dia. Em Portugal isso seria impossível. Não esquecendo as diferenças nas condições de trabalho, aceitação e fidelidade das pessoas e, obviamente, remuneração. Não posso deixar de sublinhar a fidelidade das pessoas ao médico dentista, aqui as pessoas não saltitam de clínica em clínica e vêm regularmente para controlo (de seis em seis meses).

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Esta é sem dúvida a pergunta mais difícil. Emigrei há quase dez anos, muito mudou em Portugal. Tudo o que sei são situações que não vivenciei e que ouço via outros colegas. Posso aconselhar duas vias: ficar em Portugal e tentar arranjar um mentor que ajude no início com dúvidas que todos temos, mas com sacrifício financeiro deveras pesado; ou emigrar. Esta última opção tem vindo a ter alguns entraves. Houve um boom de emigração de médicos dentistas dos países do sul da Europa para o norte e centro da Europa nos últimos anos, todo o processo de livre trânsito teve de ser revisto. Vários países, à semelhança dos Países Baixos, exigem uma proficiência linguística mínima para se poder exercer como médico dentista e sem supervisão. Cá, nos Países Baixos, esse exame é bastante complicado e requer muito empenho e força de vontade. Por sorte, já vamos sendo muitos colegas portugueses por cá e ajudamo-nos todos uns aos outros. Tal como eu, já existem alguns outros dentistas portugueses com clínica própria e regularmente procuramos colegas dentistas para trabalharem connosco.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Em termos profissionais, vejo que os avanços tecnológicos no mundo são uma vertente constante. Cada vez mais, guiados pelos mais recentes gadgets, conseguimos melhores resultados com uma previsibilidade bastante alta. O estado atual da medicina dentária em Portugal, em termos técnicos e pelo que vou vendo nas redes sociais, parece ser bastante elevado. Temos vários colegas de renome internacional, muitas vezes perguntam-me cá nos Países Baixos se os conheço pessoalmente. Posso até dizer que estamos lá no topo!

Artigo publicado originalmente na edição n.º 134 da revista SAÚDE ORAL, de setembro-outubro de 2020.

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