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Sustentabilidade na medicina dentária: utopia ou realidade?

A cada ano que passa, o Dia da Sobrecarga da Terra, ou seja, o dia em que consumimos todos os recursos biológicos disponíveis para esse ano, é antecipado. É assim desde 1970.

Andamos há 50 anos a “tapar o sol com a peneira” e essa procrastinação mundial trouxe acontecimentos extremos. O alerta dos especialistas não é novo, mas é agora mais audível. As condições estão reunidas. O despertar para a insustentabilidade da atual postura económica abriu portas à reflexão e à discussão sobre as possíveis formas de alterar o augúrio de um futuro que se crê incerto. Existe hoje uma preocupação crescente com o meio ambiente. As pessoas estão empenhadas em cuidar, preservar e proteger o planeta. Isto gera uma oportunidade sem precedentes para, com uma visão holística, desenvolver ações que alterem o nosso futuro e o das gerações vindouras, respeitando as três dimensões da sustentabilidade: ambiental, social e económica.

E na medicina dentária? É possível falarmos de sustentabilidade? Atrevo-me a dizer depende…

O tema da sustentabilidade em saúde assinala-se como um verdadeiro desafio. Se até aqui as diretrizes das melhores práticas de controlo de infeção incentivavam o exercício da profissão com materiais de uso único, desencorajando a reutilização e recomendavam o armazenamento esterilizado de instrumentos, hoje a consciencialização ambiental faz-nos repensar e obriga-nos a uma reflexão profunda sobre as formas de reduzir o impacto sobre os recursos naturais, ao mesmo tempo que se promove a saúde oral, sem nunca descurar a segurança da equipa clínica e do paciente.

A implementação bem-sucedida de uma abordagem ambiental, económica e socialmente sustentável dependerá dos aspetos práticos envolvidos, mas não só. Dar os primeiros passos em direção à sustentabilidade pode não ser exequível, especialmente num contexto pós-pandemia, se os médicos dentistas não dispuserem dos recursos económicos para o fazer.

Portugal tem uma oportunidade única de aproveitar o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a par com fundos de apoio europeus, para fazer transformações nos padrões de consumo. Mas no extenso documento, e no meio das muitas intenções, onde estão os apoios às micro e pequenas empresas? Onde estão, para essas empresas, os incentivos para a eficiência energética, para a transição verde ou para a transição digital?

Esses apoios e incentivos, nas mais diversas vertentes, foram solicitados pela OMD e atempadamente enviados como contributos, aquando do período de consulta pública do PRR, antes do envio formal à Comissão Europeia. Mas a questão premente que se coloca é: serão considerados?

Uma coisa é certa, apenas a vontade de fazer a diferença não será suficiente. Não agora. Não num contexto pós-pandémico, numa classe essencialmente privada, com pouca ou nenhuma proteção do Estado, que está por sua conta e risco há demasiado tempo, constituída na sua maioria por micro e pequenas empresas asfixiadas em taxas, taxinhas e impostos, que para evoluir tem de se sujeitar a formações constantes e sucessivas de milhares de euros, numa competitividade sem igual pela enorme desproporção que existe no racio médico dentista/paciente muito superior ao recomendado pela OMS e obrigada a uma lista infindável e onerosa de contratos e licenças que nem sempre são fáceis de compreender.

Mas afinal, é ou não é possível alcançarmos a sustentabilidade na medicina dentária? Depende… depende do que se pretende e do quanto se quer alcançar.

Senão vejamos. Podemos deixar a sustentabilidade à mercê da vontade individual de querer fazer diferente e aí será uma questão de sorte e até de perspectiva, o velho dilema do copo meio cheio ou do copo meio vazio. Ou podemos considerar um cenário em que todas as partes envolvidas, os diferentes stakeholders se sentam à mesa, definem uma estratégia concertada, assumem responsabilidades, disponibilizam-se apoios e incentivos financeiros e criam-se as condições necessárias para a adoção de tais práticas. E aí sim, torna-se possível.

Devaneios à parte, para que medicina dentária possa dar o seu contributo parcelar para o desígnio nacional, europeu e global, a que a ONU se propôs ao lançar a Agenda para o Desenvolvimento Sustentável a ser implementada até 2030, outros terão (mesmo!) que contribuir.

Desde logo a montante, nas universidades. Alertando, sensibilizando e formando novas gerações de médicos dentistas responsáveis e conscientes do seu papel como veículo de mudança de comportamentos e agentes de literacia, tornando os pacientes leais a uma postura ecológica e sustentável.

Por outro lado, urge reconhecer a prevenção das doenças orais como a forma mais sustentável de garantir uma saúde oral ótima, exequível e acessível. Ao priorizar as práticas preventivas, é possível diminuir o impacto ambiental e económico, reduzindo a prestação de serviços e minimizando a quantidade de resíduos produzidos e reciclados. Por outro lado, a componente social desta medida não pode ser descurada, pois uma cuidada saúde oral é comprovadamente um pré-requisito fundamental para a saúde geral, com um impacto significativo na qualidade de vida, na autoestima e nas relações sociais, em qualquer idade.

Neste ponto sinto-me obrigada a fazer uma chamada de atenção. É importante considerarmos estratégias a adotar, mas também repensarmos as que já estão implementadas no terreno. Refiro-me, neste caso concreto, ao cheque-dentista, uma parceria público-privada assente fundamentalmente na prevenção primária e secundária, com 12 anos de existência, mas que deixa muito a desejar. Desde logo, pela ausência, ao fim de todo este tempo, de qualquer avaliação do projeto em toda a sua dimensão. Sem essa reflexão como se percebe o que efetivamente se alcançou? Ou o que está a falhar? Ou o que tem de ser melhorado? Quais são os ganhos em saúde oral de uma população?

Recordo que Portugal foi considerado o país com menor desenvolvimento favorável no que se refere à saúde oral da população (ERS, 2014). Apesar de todos os avanços e melhorias no SNS, o único serviço de saúde onde não existe universalidade é justamente o da medicina dentária.

Por último, também as ordens profissionais da Saúde, cuja função é muito mais do que apenas reguladoras, terão um papel ativo nesta transformação, incentivando o debate, a cooperação e o contributo positivo de todos os stakeholders (ordens profissionais, governo, Chief Dental Officer, APA, universidades, investigadores, fabricantes, equipas de recolha e tratamento de resíduos, entre outros) reconhecendo a sua importância como parceiros estratégicos.

É urgente criar parcerias, estabelecer pontes e unir esforços.

É urgente trazer para o mesmo lado da barricada os diferentes parceiros e olhar o futuro com um objetivo comum, dando resposta aos desafios que enfrentamos e que só em conjunto e com determinação podemos superar.

A vontade existe, a necessidade é clara e o tempo escassa.

O momento de agirmos é AGORA.

*Patrícia Almeida Santos – Representante da Região Norte no Conselho Diretivo da OMD

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 140 da revista SAÚDE ORAL, de setembro-outubro de 2021.

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