- Saude Oral - https://www.saudeoral.pt -

Seguros de medicina oral: Uma realidade “desajustada”

Pacientes com seguros ou planos de saúde nas clínicas dentárias parecem estar a aumentar. Mas a oferta existente será adequada para clínicas e utentes?

O Congresso da Ordem dos Médicos Dentista (OMD), em novembro do ano passado, discutiu o tema dos seguros. Numa mesa-redonda falou-se sobre seguros e planos de saúde e do seu impacto nas clínicas dentárias.

 

A SAÚDE ORAL falou recentemente com dois dos conferencistas e médicos dentistas, Rui Paiva e Graça Fernandes, sobre esta temática.

Numa altura em que ambos os especialistas têm a perceção de que a procura por seguros ou planos de saúde com cobertura de medicina dentária parece aumentar, tentamos perceber em primeiro lugar que vantagens e desvantagens esta oferta traz para as clínicas dentárias. Rui Paiva remete a decisão de ter acordos com as seguradoras para a consciência de cada um: “A opção de fazer acordos com seguradoras ou empresas de planos de descontos em tratamentos dentários é individual, ou seja, cada um deverá avaliar se, objetivamente e em consciência, consegue prestar serviços de medicina dentária de acordo com os preceitos técnicos, de segurança e éticos a que todo o médico dentista está obrigado”.

 

O também vogal do Conselho Diretivo da OMD esclareceu que “a opção de fazer esse tipo de acordos não está sob a alçada da Ordem dos Médicos Dentistas. À OMD cabe assegurar e fazer respeitar o direito dos utentes a uma medicina dentária qualificada”.

Por outro lado, Graça Fernandes deixa um alerta: “tendo em conta a generalidade dos seguros que hoje em dia nos aparecem no consultório, apenas vejo vantagens para as seguradoras, que apresentam cada vez mais propostas ilusórias aos pacientes, ou seja, o seguro é muito barato e o desconto que lhes é aplicado na consulta é mínimo, ou têm plafonds muito pequenos ou, se por outro lado a mensalidade que o paciente paga até é mais alta, não comparticipam tratamentos mais dispendiosos como ortodontia ou implantologia”.

 

Na ótica das clínicas dentárias, Graça Fernandes vê muitas desvantagens e que passam pelos tratamentos gratuitos e abaixo do preço de custo, que não cobrem os valores dos materiais, as instalações e investimento e a formação. “A única vantagem que vejo é mesmo a angariação de pacientes, um paciente com seguro poderá trazer um familiar ou amigo que não tenha seguro e que compense o prejuízo que o paciente com seguro deixou”.

“Penso que atualmente se mantém o interesse em procurar seguros e planos de descontos em saúde por parte dos portugueses” – Rui Paiva

 

A saúde oral parece estar cada vez mais a atrair o interesse da sociedade. Talvez fruto de um trabalho de literacia que os profissionais desta área têm vindo a fazer. Paralelamente, as seguradoras acompanham esta tendência promovendo cada vez mais as suas ofertas. Para Rui Paiva “assistimos nestes tempos a uma promoção de seguros e produtos de descontos em tratamentos dentários que chegam a anunciar a sua gratuidade, o que tendo em consideração o custo de vida e o nível salarial de uma percentagem demasiado elevada da população portuguesa, os torna, numa primeira apreciação, apelativos. Penso que atualmente se mantém o interesse em procurar seguros e planos de descontos em saúde por parte dos portugueses”. Graça Fernandes nota “uma procura crescente” de seguros com coberturas de medicina dentária, relacionando esta realidade com a maior preocupação e procura pela prevenção e também pelo facto de não existir a especialidade no serviço nacional de saúde.

Uma oferta desajustada

A oferta que existe no mercado é, na opinião destes especialistas, desadequada, quer na perspetiva do paciente, quer para as clínicas dentárias. Graça Fernandes afirma que “a expectativa do paciente que chega ao consultório, quase nunca corresponde à realidade”. E Rui Paiva comenta que “salvo honrosas exceções, que as há sempre, parece-me que nem seguradoras, nem empresas de planos de descontos em saúde, se preocupam com disponibilizar produtos que sirvam os interesses dos cidadãos à frente dos seus próprios interesses financeiros e de satisfação dos seus acionistas ou investidores”.  Graça Fernandes pormenoriza ainda que “na hora de lhe ‘venderem’ um seguro, apenas lhe é apresentado o que convém: ‘só paga 50% do valor’ ou ‘tem direito a 20 tratamentos gratuitos’, são algumas das frases que oiço no consultório. Nunca explicam que os ditos 50% são aplicados a uma tabela que é imposta às clínicas dentárias ou que os ditos tratamentos gratuitos são, por exemplo, uma observação oral, uma elaboração de um plano de tratamento ou um RX. Eticamente, considero, que nem mesmo estes podem ser oferecidos. O paciente vinha com ideia que iria tratar gratuitamente os tais 20 dentes”.

Quanto às clínicas e médicos dentistas ao assinarem um acordo com uma seguradora estão “a aceitar os valores propostos para os tratamentos, muitos deles, senão todos, estão abaixo dos custos reais dos tratamentos, o que não é compatível com a sobrevivência de uma clínica, fazer tratamentos abaixo do preço de custo”, diz ainda Graça Fernandes.

A médica dentista, que exerce medicina dentária generalista, comenta ainda ter “verificado que alguns pacientes se vêm obrigados a selecionar o médico dentista que tem acordo com o seu seguro e não o contrário, ou seja, escolher o profissional que entenda e o seu tratamento ser comparticipado. Por aqui se verifica a existência de parcerias de caráter comercial, muitas vezes associadas a grandes grupos e redes de clínicas saindo uma vez mais o interesse do paciente prejudicado”.

* Leia o artigo na íntegra na edição n.º 143 da revista SAÚDE ORAL [1], de março-abril de 2022.