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Opinião

Se o Tiger Woods e o Roger Federer fossem dentistas, qual seria o melhor?

VitorBrás

Vítor Brás – Médico dentista e Investigador de neuromarketing em medicina dentária

Nunca foi um objetivo meu ser um coach, qual Tony Robbins ou Gustavo Santos da medicina dentária, longe disso. Mas sempre me intriguei sobre o porquê de uns se contentarem com uma vida pacata e anónima, trabalhando anos e anos em medicina dentária generalista, e outros colegas se destacam mundialmente com reabilitações mais bonitas do que a atual seleção natural é capaz de criar. É impossível que seja só obra do destino, muitos dos grandes speakers internacionais nem eram os que tiravam melhores notas na universidade, muito possivelmente baldavam-se às teóricas! E é aqui que entra a ciência, muito mais que discursos bonitos de coach’s ou podcasts motivacionais, para trazer um pouco de luz sobre como alcançar o Santo Graal de quem quer atingir a alta performance profissional.

 

 

Já é algo muito batido nas palestras motivacionais o conceito das 10.000 horas até à excelência, se fizeres algo por 10.000 horas atinges um nível de génio, será verdade? Talvez quando Malcolm Gladwell lançou a sua bíblia sobre sucesso: Outliers, mas desde 2008 a psicologia evoluiu e já não é uma questão de quantidade, mas sim de qualidade. Assim, temos que definir os tipos de prática/treino:

  • a prática ingénua: jogar futebol só a bater umas bolas, ou ir só pensando nuns problemas matemáticos sem os resolver; claramente isto é tão eficaz como varrer uma praia;
  • a prática intencional: uma sessão de treino que tenha objetivos bem definidos e concretos para posteriormente avaliar se foi bem-sucedida ou não. Para isso há que ter um plano, temos que ter feedback e ter alguém que nos possa avaliar e criticar, tudo isto para nos fazer sair da zona de conforto!
  • prática deliberada: possivelmente a mais eficaz, mas nem todos a conseguem atingir porque está intimamente ligada à quantidade e qualidade das representações mentais do sujeito sobre a tarefa. Por exemplo: os jogadores de Xadrez melhoram não por jogar, mas sim por conseguirem jogar “mentalmente” representando um jogo na sua cabeça.

Quem de nós já não ficou a matutar sobre como poderia ter colocado um implante de forma diferente, ou irrigado mais um canal…representações mentais, pois claro!

 

Disto vem a ansiedade em especializarmo-nos assim que saímos da faculdade, mas será o mais eficaz? Vejamos o percurso de duas autênticas lendas do desporto, Tiger Woods e Roger Federer. O primeiro joga golfe, um desporto com regras claras e feedback instantâneo, o pai de Tiger meteu-lhe o primeiro taco de golfe nas mãos aos seis anos para lhe imitar no swing e ainda muito jovem (13/14 anos) já conseguiria pagar todas as licenças de uma clínica dentária só com os patrocínios. O “pobre” do suíço teve um percurso totalmente diferente, sendo a sua mãe treinadora de ténis não gostava de o treinar porque devolvia as bolas de uma maneira esquisita. Roger praticou imensas modalidades que nada tinham a ver com o ténis e só mais tarde começou a pisar mais o court. Se conhecêssemos estes dois antes dos seus 15 anos facilmente apostaríamos que Tiger seria mais glorioso no seu desporto porque nos conseguimos relacionar com a sua história, começou cedo, focou-se naquele desporto apenas e treinou imenso. Contudo, ambos atingiram a elite entre os seus pares. Se formos pesquisar um pouco encontramos um artigo de Maesch et al.(2011) que se foca no desenvolvimento desportivo, o grupo de pesquisa mostra claramente que a maioria dos atletas que atingiram a elite nas suas modalidades só começaram a treinar eficazmente a partir dos 14 anos! Se passarmos do desporto à música também encontramos outro artigo de Sloboda et al. (2001) que prova que os mestres de cada instrumento passaram por outros dois antes de se focarem naquele e só aí se consagraram.

Não é que consiga responder ao meu título, mas o percurso de Tiger Woods, por muito racional e plausível que nos pareça, não é o mais comum. Há mais Federer’s que, tal como os speakers que na universidade que nem eram assim tão excelentes, não se focaram logo na modalidade/especialidade que os celebrizou. Há que experimentar de tudo antes de afunilarmos o nosso estudo e prática em algo, não é saudável ceder à tentação de pagar logo uma exorbitância por uma pós-graduação assim que se sai da faculdade se ainda nem se sabe extrair um dente em condições ou estabelecer um bom ponto de contacto numa simples restauração interproximal.

 

Mas quando também chegarmos a um ponto de satisfação, àquele momento que nos sentimos confortáveis, é quando nos conformamos e deixamos de evoluir; daí ser igualmente importante mantermo-nos “insatisfeitos”. Experimenta mais coisas antes de te quereres afunilar numa dada área, até os cientistas que têm um hobby têm 22x maior probabilidade de ganhar um Prémio Nobel!

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 143 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

 
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