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Saúde Oral

Saúde oral e alterações climáticas

A sustentabilidade em discussão no setor dentário

Vivemos efetivamente tempos muito difíceis. Climatologistas notáveis que até há pouco manifestavam as suas dúvidas quanto à existência de relação entre alterações climáticas e atividade humana, consideram agora essa associação um facto incontestável e com repercussões fortíssimas, graves e muito ameaçadoras. Pelo que nos vão ser exigidas alterações de comportamento e mesmo sacrifícios fortes na organização da vida coletiva, até que se reponha o equilíbrio ecológico no nosso planeta. O secretário-geral da ONU lançou já um alerta vermelho sobre este tema.

Ainda que o campo da saúde oral (SO) pareça estar muito, muito longe destes problemas das alterações climáticas do planeta que pisamos, na verdade, e contra todas as expectativas, também nesta área da saúde há comportamentos que podem influenciar aquele equilíbrio.

 

Vamos ver alguns exemplos, geralmente são pequenos atos, mas são praticados diariamente, no nosso caso, por milhões e milhões de pessoas, o que lhes confere uma repercussão muito superior ao seu valor individual.

1 – Lavagem da boca durante e no fim da escovagem dos dentes: estas lavagens intermédias e a lavagem final com um ou mais bochechos de água é uma prática natural e muito antiga. No entanto, após a introdução das pastas de dentes fluoretadas nos anos 60 do século passado, logo foi chamada a atenção para a necessidade da suspensão destes bochechos. É que os mesmos iriam remover boa parte do fluoreto introduzido na boca e cuja presença é essencial nas horas seguintes para a reversão do processo de desmineralização iniciado pelos ácidos produzidos na decomposição dos hidratos de carbono. É este processo de desmineralização da superfície do esmalte, repetido dezenas de vezes sucessivas, que origina uma cavidade de cárie progressivamente crescente. Portanto já do ponto de vista do efeito que se deseja obter com os fluoretos introduzidos nas pastas de dentes, é essencial não efetuar bochechos intermédios nem o bochecho final.

 

Portanto não devemos bochechar durante, nem no fim da escovagem, para não reduzir o efeito da pasta de dentes. Este é o facto mais importante. Mas, ao não fazermos estes bochechos temos, de facto, também uma economia com importância para o equilíbrio ecológico do nosso planeta. Poder-se-á dizer que a poupança de água obtida é, em cada caso, ínfima. Mas este ato é concretizado diariamente, por duas vezes, pela maioria da população nacional pelo que a redução no consumo de água adquire uma relevância e uma expressão muito superiores.

De resto, a escassez de água ainda não é sentida nos aglomerados urbanos, mas já é hoje muito sentida no nosso meio rural onde há muitos vales onde a água corria todo o ano, ou pelo menos uma boa parte do ano, e agora nem uma gota corre um mês sequer. Esperemos que não se venha a afetar o abastecimento de água dos aglomerados urbanos e a impor-nos racionamentos no abastecimento de água.

 

2 – Lavagem final da escova de dentes: é absolutamente normal a lavagem da escova de dentes. Mas em vez de ser efetuada em água corrente, pode e deve ser concretizada utilizando uma pequena quantidade de água dentro do copo de dentes ou no lavatório com bujão fechado.

Mais uma vez, é realmente pequena a quantidade de água necessária para cada uma destas lavagens, tal como acontece com os bochechos. Mas novamente realço que se tratam de atos praticados duas vezes por dia por milhões de pessoas pelo que a quantidade economizada em cada ato adquire uma expressão muito mais elevada e com algum significado para o equilíbrio ecológico.

 

3 – Substituição da escova de dentes: é relativamente frequente ouvir-se dizer que as escovas devem ser substituídas a cada três ou quatro meses porque ao fim deste tempo perderam a sua eficácia na remoção da placa bacteriana ou, também já ouvi, começariam a riscar o esmalte. Este argumento não tem qualquer fundamento e substituir a escova ao fim destes três ou quatro meses constitui um enorme desperdício. A escova mantém a sua capacidade de remoção adequada da placa bacteriana enquanto as cerdas se mantiverem direitas e paralelas, o que pode acontecer por largos tempos, dependendo do tipo de cerdas e da pressão utilizada na escovagem. Recordo que a escovagem deve ser feita com escovas de consistência média ou macia, em movimentos circulares ou verticais e nunca em movimentos longitudinais, porque estes permitem mais força na pressão e muito maior ação de desgaste do esmalte e de dentina eventualmente exposta e daí a hipersensibilidade dentinária que às vezes afeta algumas pessoas. Ao longo da vida, em sucessivos anos de escovagem, estes efeitos de natureza mecânica podem determinar desgastes enormes e também por isso é essencial a vigilância regular da higiene oral.

4 – Embalagem em cartão dos tubos de pasta de dentes: já tem vindo a ser abordada a eliminação das embalagens de cartão para qualquer tipo de produto que não necessite realmente dessa proteção. Em muitos casos, a caixa tem uma função meramente estética. Muitos milhões de árvores poderiam desta forma ser poupadas e prosseguir a sua captação de CO2. Também em relação às embalagens de cartão das pastas de dentes a mesma proposta já foi feita e já houve supermercados que a seguiram e passaram a ter os tubos de pasta de dentes colocados verticalmente sobre um suporte que os mantém de pé e facilmente acessíveis aos seus clientes. A este propósito refiro que a Deco Proteste tem em curso a iniciativa “ExijoForadaCaixa” para incentivar o abandono do sobre-embalamento desnecessário.

5 – Escovagem da língua: este é um ato desnecessário para a generalidade das pessoas e serão poucas as pessoas que entre nós escovam a língua. No entanto em algumas situações patológicas, como é o caso da halitose ou da xerostomia, pode proporcionar uma redução na população bacteriana que pode ser importante no controlo daquelas patologias. Portanto aconselho a sua utilização somente quando receitada especificamente pelo seu profissional de saúde oral.

6 – Temos estado a falar de “economias climáticas” relacionadas com alguns dos milhões de pequenos atos diários de higiene oral, mas não podemos deixar de ter presente que estes pequenos atos têm outra face, de resto a sua face fundamental, que é a da prevenção da cárie e das periodontopatias. Quando correta e persistentemente executada no dia-a-dia, por longas dezenas de anos, a higiene oral tem como resultante a prevenção de lesões de cárie e de periodontopatias, consequentemente a redução ao longo das suas vidas, para cada pessoa, da eventual necessidade de dezenas de atos terapêuticos. Tudo somado, pode corresponder a milhares e milhares de consultas poupadas anualmente em tratamentos tornados desnecessários por uma prevenção atenta, persistente e eficaz diariamente executada desde os 12 a 24 meses de idade. Devemos pensar também no que implicam em perdas de dias de trabalho, em redução em deslocações, em consumo de eletricidade, de água, de produtos para os tratamentos, equipamentos, etc. O Centro de Investigação Interdisciplinar do Egas Moniz calculou que os custos para as doenças periodontais na Europa, só no ano de 2018, foram de 158,64 biliões de euros.

É, portanto, muito importante introduzir em todas, mas todas, as creches e jardins de infância do setor público e das IPSSs a escovagem dos dentes com pasta de dentes fluoretada, tal como introduzir nas clínicas gerais e de odontopediatria do setor privado as consultas de prevenção da cárie precoce da infância (PCPI). Estas, para cada criança e desde a erupção dos primeiros dentes, instruindo os pais e vigiando a execução da higiene oral.

7 – É assim que vamos deslizando lentamente dos pequenos atos individuais de prevenção das doenças dos dentes e do seu suporte para a importância da organização de um sistema nacional de promoção da saúde oral devidamente estruturado e organizado. O Dr. Manuel Nunes ao escrever sobre o novo Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral (PNPSO) 2021-2025 dá-lhe o título: “Tudo como dantes… ou pior!” que, aliás, fala por si. Infelizmente concordo inteiramente com ele, como repetidamente tenho escrito em artigos de opinião nesta mesma revista. Nós portugueses podemos executar bem ou muito bem, seja no futebol, seja na vacinação. Também pode ser na saúde oral. Com toda a consideração pessoal pelas pessoas que têm desempenhado funções de coordenação da SO ao longo das últimas dezenas de anos, mantenho a minha ideia de que é necessário ter alguém muito competente no comando desta área − um coordenador do PNPSO − com capacidade organizativa, formação pós-graduada em saúde oral preventiva e comunitária no nível de mestrado ou doutoramento, com experiência na saúde pública, vindo de qualquer das três áreas, estomatologia, medicina dentária ou higiene oral, selecionado em concurso público aberto, por um júri competente e independente, para exercer esse cargo por cinco ou seis anos.

A DGS desde há dezenas de anos que se mantem olimpicamente indiferente a apelos para nomear como coordenador uma pessoa competente devidamente selecionada e com autonomia. Consequência, mais uma vez, “Tudo como dantes… ou pior!”. A pandemia agravou a nossa situação na SO, mas o essencial do problema, como referi, é de organização e de direção e é muito anterior à pandemia, vem logo desde a criação da extinta Divisão de Saúde Oral, em 1985.

8 – Palavra final: desde o coordenador até ao fim da cadeia na periferia do contacto com os jovens ou com os adultos, no público e no privado, em qualquer que seja o ponto em que se encontrem, será muito importante que tenham um diálogo permanentemente movido pelo interesse efetivo e afetivo, num ritual cheio de alma.

*César Mexia de Almeida, professor catedrático de Medicina Dentária Preventiva e Comunitária, Faculdade de Medicina Dentária da UL (aposentado)

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