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Saúde Oral

Saúde oral dos jovens e covid-19

Ao abrir o texto de capa da SAÚDE ORAL de maio-junho deste ano, deparei-me com um artigo sobre as consultas de odontopediatria.

Ao abrir o texto de capa da SAÚDE ORAL de maio-junho deste ano, deparei-me com um artigo da jornalista Cláudia Pinto em que cita a professora Ana Luísa Costa que refere que com a pandemia se verificou uma “quebra de rotinas” e “algum desleixo”, assim como o acesso “mais condicionado e balizado” às consultas de odontopediatria.

prevenção

César Mexia de Almeida – Professor Catedrático de Medicina Dentária Preventiva e Comunitária da FMDUL (aposentado)

Tomando como base outros testemunhos, Cláudia Pinto refere também que esta tragédia pandémica teve muitas outras repercussões que se vão refletindo na saúde oral (SO) de muitos jovens, tais como o acesso mais facilitado a alimentos açucarados, o encerramento parcial de clínicas dentárias, o adiamento de tratamentos (Daniela Santos Soares), a interrupção na promoção e manutenção da saúde oral infantil, a redução na supervisão parental, o maior número de snacks (Joana Leonor Pereira) e também perturbações no sono (Júnia Serra-Negra). Em resumo, é possível constatar um agravamento dos fatores que podem afetar significativamente a SO dos jovens, em particular nas populações mais suscetíveis por condições socioeconómicas mais desfavoráveis e com menor acesso a cuidados de saúde (Teresa Xavier). Acresce que a “nova rotina relacionada com os EPI (equipamentos de proteção individual veio trazer novas exigências” e o ambiente que “existia no consultório teve de ser alterado”, mas “com dedicação e alguma imaginação conseguimos ultrapassar dificuldades” (Daniela Santos Soares).

Estes são alguns dos exemplos de circunstâncias que têm influenciado negativamente a SO dos jovens atendidos em clínica privada.

Entre as medidas tomadas para contrariar os efeitos negativos para a SO nestas clínicas privadas salienta-se o envio “por e-mail aos pais dos pacientes onde explicava todos os passos a dar quando regressassem às consultas” (Sofia Baptista). Mais, “houve necessidade de implementação de protocolos de abordagem terapêutica das principais patologias presentes na cavidade oral” (Teresa Xavier).

E o que terá acontecido no setor público? Não conheço informações sobre a evolução neste setor, mas podemos antecipar que nas famílias mais desfavorecidas, onde a atenção à prevenção em geral, e naturalmente também no campo da SO, tem uma dimensão muito limitada. Deverá ter-se verificado também algum agravamento da SO, tanto mais que em alguns centros de saúde que têm higienistas orais, estes poderão ter sido desviados para outras funções ligadas à prevenção ou organização de atividades relacionadas com a covid-19.

O importante, agora, será encontrar soluções para compensar e ultrapassar estas influências negativas.

Por exemplo, que a observação de todos os jovens em consulta de medicina dentária passe a ser preconizada com o mesmo nível de importância e prioridade que a ida ao pediatra. Se a criança faz um acompanhamento no pediatra desde cedo, mesmo quando não tem patologia, porque é que vai ao médico dentista só quando tem dor? (Sofia Baptista). Aliás, citando uma vez mais o Barómetro da Saúde Oral da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), em 2019, aos 6 anos, só cerca de um quinto (22,3%) dos jovens visitaram o dentista e “a maior parte o tinha feito em situação de urgência com dor e/ou com abcesso”. O que não se pode aceitar e tem urgentemente de ser corrigido nas suas causas. É nestas idades que se constrói a SO para toda a vida. Repito, para toda a vida. Arrisco mesmo afirmar que se a criança não tiver integrado completamente, até aos 12 anos, o hábito da higiene oral de manhã e á noite, muito dificilmente o fará mais tarde.

Este é um problema que pode afetar, portanto, todos os jovens e que a pandemia, com toda a probabilidade, não fará mais do que tornar mais grave, em particular nos jovens das famílias mais desfavorecidas. Mas a situação do ponto de vista da promoção da SO entre os jovens já era tão grave, como nos mostrou o barómetro da OMD, que na realidade e infelizmente a pandemia não terá feito mais do que agravar mais o que já era grave.

Neste momento a grande interrogação será: como corrigir esta situação?

É muito simples que para o setor público a Direção Geral da Saúde (DGS) determine que em todas as creches e jardins de infância públicos as crianças escovem os seus dentes pelo menos uma vez ao dia. Os higienistas orais (com a contratação de dois ou três para cada centro de saúde do País, como foi previsto em 1985) devem apoiar a organização desta medida absolutamente essencial (naturalmente necessária a coordenação com o Ministério da Educação) e também devem observar as bocas destas crianças de seis em seis meses na própria creche ou jardim de infância (A). No fundo, como no programa “Sobe” da DGS, mas estendido a todos os centros de saúde. Por outro lado, no setor privado, nos consultórios generalistas e odontopediátricos devem ser organizadas consultas específicas de prevenção da cárie precoce da infância, de preferência assumidas por higienistas orais também, e nas quais as crianças devem ser observadas a partir dos 12 a 24 meses, evidentemente acompanhadas pelos seus pais durante os primeiros anos.

Para gerir, orientar e impulsionar esta revolução sempre adiada é necessário colocar no lugar de Coordenador da Promoção de Saúde Oral, na DGS, uma pessoa com experiência na promoção da SO, competente quanto aos seus conhecimentos e determinado na sua capacidade de organização e de execução, selecionada em concurso público aberto a médicos estomatologistas, médicos dentistas ou higienistas orais com mestrado ou doutoramento em saúde oral preventiva e comunitária (B).

Depois é esperar que tome as decisões adequadas. Se tiver dúvidas que visite a Dinamarca, a Suécia, a Noruega ou a Finlândia. Em última instância pode ser contratado um comandante da marinha portuguesa. Se há dinheiro no setor público para pagar com o cheque dentista os tratamentos nos jovens e abrir consultas de medicina dentária em centros de saúde para adultos, muito mais lógico é reduzir as necessidades com medidas tão efetivas e simples como as que se aplicam na prevenção da cárie. A propósito, seria interessante conhecermos anualmente os gastos com a saúde oral a nível nacional e em cada centro de saúde, assim como, a cada cinco anos estudarmos a prevalência da cárie aos 6 e 12 anos na área de cada centro de saúde.

De resto não é preciso que num só dia se faça tudo o que é necessário para se atingir o nível de prevenção dos países citados. O que é preciso é estabelecer uma rota adequada e de forma determinada ir finalmente dando passos que orientem num sentido de permanente, mesmo que lento, progresso na prevenção e no tratamento da cárie dos portugueses.

Mas quantas vezes nestes últimos 35 anos em privado ou em público fiz estas mesmas propostas, com mais ou menos vírgulas? Será que nunca sairemos do “faz de conta”? É lamentável que assim tratemos do que a todos interessa porque é importante e essencial. Mas se na prevenção rodoviária à vista de todos não cumprimos o que está escrito, e aí as consequências são muito mais graves, até os ministros há anos que percorrem as estradas do País ao dobro da velocidade permitida porque inventam urgências, e podem até provocar acidentes gravíssimos com total impunidade, como podemos esperar que a salvação dos dentes possa ter importância para os mesmos ministros ou diretores gerais? Perante a calamidade dos números das mortes nas estradas e ruas há cerca de uma dúzia de anos alguém com sentido de responsabilidade decidiu estabelecer que numa estrada (a N 25 e depois também na N 10) se iria cumprir o código da estrada. Foi, portanto, publicamente reconhecido que nas estradas se estavam a ferir e matar impunemente pessoas. Pois, ao fim de algum tempo, o alarido repôs a lei do “faz de conta”.

Para salvar alguns milhões de consultas, de abcessos, de urgências, de próteses, de implantes, de algumas situações de grande gravidade, não haverá capacidade para descobrirmos maior determinação?

Enquanto há vida há esperança. Se já tivemos pessoas com conhecimentos e determinação para dominarem as rotas comerciais da navegação em metade do globo, certamente que outras com conhecimentos e determinação de nível idêntico poderão aparecer em breve e conduzir-nos pelos caminhos da prevenção de cárie.

  • A nível local, no futuro, tudo poderá ficar mais fácil se for institucionalizado um serviço municipal da saúde oral.
  • Recordo que a criação da Divisão de Saúde Oral por volta de 1985 (mais tarde extinta e não sei se por boas razões) veio acompanhada de uma enorme esperança. Mas dois factos rapidamente a feriram mortalmente: primeiro a nomeação para a sua gestão de uma pessoa sem qualquer preparação na área da SO. Depois a coincidência com o aparecimento concomitante dos selantes de fissuras que o mesmo gestor interpretou como sendo o milagroso produto que iria envolver os dentes e preservá-los da cárie. Não se chamavam eles “selantes”? Foi assim que tomaram o lugar da promoção da escovagem dos dentes e a ultrapassaram como a prioridade das prioridades.

* Professor Catedrático de Medicina Dentária Preventiva e Comunitária da FMDUL (aposentado)

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