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Clínicas Dentárias

Repensar as recompensas na atividade clínica

Existe, de forma evidente, alterações que o setor da medicina dentária deverá sofrer para se manter saudável e em crescimento.

Paulo Maranhão – Fundador e gerente do Projeto de Reestruturação e Consolidação do Setor de Medicina Dentária

Existe, de forma evidente, alterações que o setor da medicina dentária deverá sofrer para se manter saudável e em crescimento. O futuro passará por redefinir os padrões atuais e aplicar a reestruturação que for possível para que o rumo desta atividade siga o que é desejável, não sobrevivendo apenas, mas continuando a dar cartas até contra condições menos favoráveis como, por exemplo, um cenário pandémico semelhante ao que vivemos.

Escrevo porque abordei e analisei cerca de 30 clínicas dentárias desde o início de 2020 e, embora não seja médico dentista, a compreensão e sensibilidade pelos diversos elementos que compõe uma estrutura clínica têm vindo a crescer. Com isso, não posso deixar de refletir sobre alguns aspetos.

 

Manter uma estrutura setorial resiliente é um processo complexo. Estamos a falar de um setor que a nível nacional produz cerca de mil milhões de euros por ano e que, além de tudo, tem vindo a crescer. Os seus maiores intervenientes são os médicos dentistas, como é evidente. Em Portugal, a realidade é, ainda, de que a maioria das empresas prestadoras deste tipo de serviços é gerida pelo próprio médico dentista e diretor clínico e, é a partir daqui que, na minha opinião, são levantadas questões quanto ao próspero futuro desta atividade profissional fundamental para toda a comunidade.

Todos conseguimos entender números simples, efetuar encomendas e pedir ao “nosso contabilista” que faça o pagamento de salários. Sei que gerir tem bastante mais a apontar, no entanto, é nas entre linhas que me quero debruçar. Além da compreensão e interação entre a equipa, gerir prende-se com a interpretação de sistemas e na otimização dos mesmos, através dos resultados gerados. Em grande parte das empresas, esta análise não é feita.

 

O ideal seria encontrar melhores resultados na empresa, tornando possível planear e oferecer mais, e melhorando condições para todas as partes intervenientes sem haver qualquer prejuízo com isso, daí a parte de a gestão ter bastante relevância na reorganização e criação de valor no setor.

De forma geral, nas clínicas abordadas e analisadas encontram-se alguns problemas, como as instalações, os equipamentos, licenciamentos, organização de documentação, a inexistência de objetivos traçados, entre outros. A concorrência poderia ser um fator de maior peso e alvo de análise, mas foi percetível que a distribuição das recompensas laborais parece de longe ser o fator mais devastador. Esta leva-nos diretamente a uma das maiores questões vividas atualmente no setor, que é a precariedade da profissão do médico dentista e não só.

 

Os recursos humanos são, de facto, uma das maiores despesas que uma empresa tem. Contudo, na medicina dentária vê-se um funcionamento geral regido pelo pagamento aos prestadores de serviços externos, os profissionais de medicina dentária, através de uma comissão ao valor total cobrado pelo serviço, mas não é aqui que está o problema.

O foco central está virado para os “Gastos com Pessoal”, os funcionários remunerados. Neste item, ficam separados os indivíduos remunerados pertencentes a órgãos sociais da empresa, normalmente, os diretores clínicos e fundadores da empresa, e os que não são pertencentes aos órgãos sociais, os assistentes dentários.

 

O que se verificou foi que na maioria das empresas analisadas, as dificuldades em serem lucrativas advêm de os salários distribuídos aos “donos das empresas” serem bastante superiores relativamente aos restantes funcionários, normalmente, os que ocupam o cargo de assistentes dentários, podendo chegar a ser 3 vezes maior. Não fosse suficiente, em muitos casos existem até salários extra, pagos a cônjuges ou outros entes chegados, podendo até nem ter qualquer intervenção no desenrolar da atividade. Muitas vezes o que leva a esta tomada de decisão é apenas uma questão do peso da carga fiscal, quer na perspetiva da entidade empresarial quer na do trabalhador independente ou por conta de outrem.

A precariedade vivida no setor cai sobre os médicos dentistas trabalhadores independentes, mas também sobre os assistentes dentários, que veem as suas condições laborais limitarem o crescimento. Inevitavelmente, isto irá refletir-se na prosperidade do setor, por isso, é importante que seja corrigida.

O contraste entre as remunerações mais altas (pagas aos fundadores), os salários mínimos (pagos ao cargo de assistente dentário) e as comissões baixas sem complementos salariais base (pagos ao médico dentista) são um fator negativo por diversos motivos. Primeiramente, os médicos dentistas externos que, em muitos casos, trabalham por uma percentagem minoritária do valor total de cada consulta, sem qualquer complemento auxiliar base, ficam em desvantagem competitiva para com os fundadores da unidade, passando os primeiros a ser cada vez mais dependentes da empresa que os contrata e não o contrário como seria de esperar, sendo eles trabalhadores independentes. Tudo isto tem também impacta no desenvolvimento e crescimento da carreira dos profissionais mais jovens que, embora não tenham investido numa clínica dentária, estão no mercado a viver num ciclo sem fim onde, dificilmente, terão a possibilidade de angariar fundos para explorar novas especialidades e planear a abertura do seu próprio estabelecimento ou negócio na área. Em segundo lugar, os assistentes dentários que, em muitos casos, trabalham muito, tratando de tudo aquilo que deveria ser gerido pelo diretor clínico ou gerente da empresa, mas que, ainda assim, vivem com um estilo de vida apertadíssimo, com alargada carga horária, demasiada responsabilidade e uma crescente desmotivação profissional, onde o seu foco de trabalho não se rege pela parte da assistência dentária em si.

A solução, nas clínicas que têm este problema, parece-me a mim que passa, em primeiro lugar, pela reavaliação das decisões tomadas anteriormente por quem gere a clínica. De forma prática, poderiam ser aproveitados os excessos salariais, aqueles que entram no bolso do patrão de forma não medida, mas que ferem os restantes. Isto é possível mantendo o princípio de ter uma estrutura lucrativa. A resolução poderia passar por redefinir essa mesma distribuição das remunerações, para algo mais medido, reduzindo o salário de maior dimensão e cortando os que não têm impacto direto na atividade. Após essa alteração, seria possível detetar qual a margem real em caixa e, a partir daí, perceber como podem dar melhores condições a todos os intervenientes de cada estrutura, mantendo uma empresa com um resultado operacional positivo, isto para aquelas que já se encontram em funcionamento.

Na eventualidade destas alterações trazerem um resultado positivo, seria possível aumentar o salário do cargo de assistente dentário ou adquirir e adaptar novos sistemas (por exemplo: softwares de gestão clínica) que terão um impacto benéfico no fluxo de trabalho e organização para estes profissionais.

Relativamente aos médicos dentistas, seria possível aumentar a comissão ganha ou até oferecer um complemento base de apoio às suas despesas.

Em termos de formação, deveria existir uma inclusão de gestão nos programas educativos mais forte e detalhada, apresentando boas práticas utilizadas por clínicas dentárias que funcionam bem, para que fosse possível enraizar formas adequadas de levar uma empresa e um negócio para a frente para aqueles que aspirarem fazê-lo.

É importante não generalizar e ter em mente que existem empresários médicos dentistas exemplares no nosso País e que devem ser recompensados de forma proporcional ao risco tomado em primeiro lugar, com todo o investimento e todo o trabalho que exige uma gestão de uma estrutura deste tipo, sendo este um tempo acrescido ao despendido das consultas.

Este é só um dos problemas e uma das soluções que poderia estar por detrás de um futuro melhor para a medicina dentária em Portugal. É uma solução muito focada ao problema atual, no entanto, análises como esta fizeram um novo projeto surgir, onde se pretende realmente reestruturar e reorganizar a forma como funciona o setor, pois acredito que se possa fazer melhor. Os resultados do projeto e os seus princípios serão apresentados mais à frente.

Boas consultas e bons negócios!

*Paulo Maranhão – Fundador e gerente do Projeto de Reestruturação e Consolidação do Setor de Medicina Dentária

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 140 da revista SAÚDE ORAL, de setembro-outubro de 2021.

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