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Médicos Dentistas

Quando o trabalho se transforma em doença

Quando o trabalho se transforma em doença
É preciso estar atento. O burnout existe e não deve ser ignorado. É possível prevenir, mas também é fundamental perceber a sintomatologia associada e procurar ajuda. Promover um ambiente de trabalho saudável deve ser prioritário para as clínicas dentárias. A prevenção deve ser antecipada e envolver, desde logo, os estudantes de medicina dentária que também desenvolvem esta síndrome ainda antes de iniciarem a sua atividade profissional.

O tema não é novo. São vários os estudos científicos que demonstram uma elevada percentagem de casos de stresse relacionado com a atividade profissional. O burnout é uma realidade em várias áreas de atividade e a medicina dentária não é exceção. Esta síndrome resulta da vivência de stresse laboral prolongado no tempo (crónico) e integra três dimensões: a exaustão emocional, a despersonalização e a baixa realização e eficácia profissional, sendo que o adoecer acontece ao longo de um processo de vários estádios que conduzem ao esgotamento físico e mental. O fenómeno acontece em ambiente de trabalho e tem sintomatologia diversa associada. A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou em maio de 2019 que passou a incluir na lista de doenças o burnout, classificação que irá vigorar até 1 de janeiro de 2022, baseada nas conclusões de peritos de saúde de todo o mundo. E, se em 2019, ainda estávamos longe de imaginar que iríamos viver um “novo normal” completamente improvável, à data de fecho desta edição, é possível analisar a questão do impacto da pandemia nas situações de stresse excessivo.

Alexandra Vinagre – membro do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas

“No momento atual e no contexto pandémico, e em linha com estudos recentes, este risco [de desenvolver burnout] parece ter aumentado de forma significativa. Algumas características da medicina dentária potenciam o aumento da taxa de burnout, nomeadamente, a precisão das técnicas utilizadas na prática clínica, a necessidade de concentração e responsabilidade nos procedimentos efetuados, a elevada carga horária de trabalho, o risco postural e ergonómico, a necessidade de conduzir protocolos rigorosos na manipulação de resíduos químicos e biológicos, as atividades exigentes de administração e organização, a instabilidade financeira… Mas também a elevada competitividade, a falta de reconhecimento do trabalho entre pares ou pelos pacientes, entre outros”, começa por explicar Alexandra Vinagre, membro do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

É preciso estar alerta e reconhecer os sintomas associados a esta doença. O burnout já é suficientemente abordado nas organizações, mas em que medida são equacionadas estratégias para prevenir ou minimizar o seu impacto? Este é um tema que a OMD não desvaloriza. “Os diretores clínicos devem promover o bem-estar individual de todos os que intervêm na homeostasia do dia-a-dia da clínica assegurando o equilíbrio entre as suas vidas profissional e pessoal. Um ambiente de trabalho sustentável deve obedecer ao cumprimento de diferentes medidas que possibilitam um aumento da produtividade, uma maior qualidade de vida dos profissionais e uma melhoria da prestação de assistência ao paciente. É importante assegurar um ritmo de trabalho equilibrado, cultivar relacionamentos interpessoais saudáveis no trabalho e a consistência da equipa”, explica Alexandra Vinagre, também médica dentista.

“É importante assegurar um ritmo de trabalho equilibrado, cultivar relacionamentos interpessoais saudáveis no trabalho e a consistência da equipa”Alexandra Vinagre, Ordem dos Médicos Dentistas

A OMS caracteriza esta doença por “um sentimento de exaustão, cinismo ou sentimentos negativistas ligados ao trabalho e eficácia profissional reduzida” e integra-a na secção consagrada aos “problemas associados” ao emprego e desemprego. Especificamente em Portugal, no período entre 2011 e 2013, “47,8% dos profissionais de saúde apresentavam um nível de burnout elevado e 21,6% burnout moderado (Marôco, Marôco, Leite, Bastos, Vazão & Campos, 2016). Estes números colocam em risco a qualidade dos cuidados, bem como os próprios profissionais de saúde e, sendo dados pré-pandemia, é muito provável que estes tenham aumentado, afetando igualmente os médicos dentistas”, refere a psicóloga Teresa Espassandim, membro da direção nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

Teresa Espassandim – membro da direção nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

Ninguém desenvolve uma situação de burnout de um dia para o outro, pelo que, alerta a psicóloga, “as alterações ao nível emocional (zanga, irritabilidade, frustração, ansiedade); cognitivo (dificuldades de concentração e memória, falta de organização e tomada de decisão); comportamental (erros e acidentes, problemas de alimentação e de sono, consumo problemático de substâncias, problemas de relacionamento); e físico (queixas e lesões músculo-esqueléticas, transpiração, tonturas, náuseas e falta de ar, perturbações gastrointestinais e cardiovasculares) devem ser valorizados e justificam a procura de ajuda especializada, o mais precocemente possível”.

Este é um problema que pode atingir qualquer membro da equipa. O facto de os médicos dentistas terem de executar demasiadas tarefas num curto espaço de tempo, com uma grande carga de trabalho, pode conduzir a situações de burnout. “As elevadas exposições a riscos psicossociais contribuem para o aumento de problemas de saúde como a depressão, o stresse ocupacional e o burnout”, salienta Teresa Espassandim. E esses fatores podem ser, por exemplo, as tarefas exigentes e/ou muito precisas, riscos biológicos, trabalhar por turnos e por períodos prolongados e o contacto próximo com pacientes. Ignorar a síndrome de burnout poderá conduzir a consequências a longo prazo, como por exemplo, “a depressão, com todas as implicações que a doença tem na qualidade de vida e no risco de comportamentos autolesivos ou mesmo ao suicídio”.

Roberto Henriques – diretor clínico da Clínica Arriaga

Os diretores clínicos que falaram com a SAÚDE ORAL reconhecem as causas que levam ao burnout e falam sem rodeios. Roberto Henriques lidera uma equipa de 72 pessoas e é diretor clínico da Clínica Arriaga, no Funchal. Confessa-se muito sensível ao tema e partilha que, apesar de nunca ter tido um diagnóstico efetivo, já se sentiu extremamente cansado. Há uns anos, trabalhava de segunda-feira a sábado, muitas horas seguidas e com pouco espaço entre consultas, folgando apenas um dia por semana. “A nossa profissão é uma luta constante contra o relógio.” A gestão da clínica, a área de recursos humanos e a dedicação total que tinha de conceder, consubstanciadas a muitas horas despendidas no exercício da sua atividade, sobretudo numa fase em que a estrutura era mais pequena, levavam a um desgaste sem paralelo. “Por outro lado, a gestão das expetativas dos nossos pacientes e do seu grau de satisfação levava a uma grande exigência da minha parte relativamente ao feedback que os mesmos me passavam”, refere.

A nossa profissão é uma luta constante contra o relógio” – Roberto Henriques, diretor clínico da Clínica Arriaga

Depois de trabalhar a um ritmo intenso durante cerca de 17 anos, confessa que a sua vida mudou. Começou a realizar algumas formações de coaching, a correr, a nadar e a passar algum tempo a desenvolver algumas atividades físicas para tentar distrair-se e aproveitar os poucos momentos de folga. Enquanto diretor clínico, tenta inspirar os colaboradores, sobretudo os mais novos, a terem, no mínimo, duas folgas semanais. “Sugiro que aproveitem a ilha para passear ou praticar atividade física para desanuviarem a cabeça e não chegarem a uma situação de burnout. Interessa-nos promover a saúde física e mental de maneira a otimizar o desempenho clínico.” Tem noção do desafio e do facto de esta ser “uma ideia romântica” pois constata alguma oposição por parte das gerações mais novas.

Filipe Cyrne – diretor clínico da Clínica Cyrne @Rodrigo Cabrita

Filipe Cyrne é diretor clínico da Clínica Cyrne, na Amadora, e aponta alguns fatores que podem desencadear burnout. “Habitualmente, e de forma natural, o dentista está sujeito a um grande stresse profissional porque acaba por absorver todas as emoções do paciente que chega à cadeira com medos, receios, dúvidas, inseguranças… O tratamento dentário nunca é algo que o paciente executa de ânimo leve. Eu diria que 80% das pessoas vão à consulta porque tem de ser e nós acabamos por absorver todas essas emoções”, refere. A assistente dentária Ana Sofia Ribeiro está nesta função há dez anos e trabalha com Filipe Cyrne há oito. “Trabalhamos sob pressão constante. O nosso trabalho é constantemente avaliado, não pode haver falhas e não há margem para errar”, partilha, concluindo que nunca teve um caso de burnout na sua clínica. “Cansaço e fadiga, sim, mas inerentes ao ritmo da nossa atividade”, assinala o diretor clínico.

“Habitualmente, e de forma natural, o dentista está sujeito a um grande stresse profissional porque acaba por absorver todas as emoções do paciente que chega à cadeira com medos, receios, dúvidas, inseguranças…”Filipe Cyrne, diretor clínico da Clínica Cyrne

Uma exigência ainda maior

Ana Sofia Ribeiro – Assistente dentária da Clínica Cyrne

Apesar de sentir que quer sempre dar o seu melhor, Ana Sofia Ribeiro nunca experienciou uma situação de burnout. No entanto, confessa que o confinamento não ajudou a trazer serenidade. Pelo contrário. Calhou-lhe a responsabilidade de atender todos os contactos que a clínica ia recebendo. E, afirma, a estratégia fez a diferença e trouxe novos pacientes a uma clínica familiar que funciona muito pela proximidade, que conhece as pessoas pelos nomes, que não trabalha com seguros e que é uma espécie “de médico de família” no que respeita à saúde oral. “Tinha o compromisso de ter o portátil e o telemóvel da clínica ligados e dava apoio a quem nos contactasse. Se fosse necessário prescrever alguma medicação, falava com os nossos médicos dentistas e, ao mesmo tempo, íamos desmarcando pacientes conforme as notícias das medidas do governo iam surgindo. Isso foi complicado porque havia pessoas que tinham tratamentos agendados e começaram a colocar em causa se valia a pena continuar ou se deviam desistir”, explica a assistente dentária.

 “Trabalhamos sob pressão constante. O nosso trabalho é constantemente avaliado, não pode haver falhas e não há margem para errar” – Ana Sofia Ribeiro, assistente dentária da Clínica Cyrne

Sentiu-se mais em baixo durante o confinamento perante a incerteza se – e quando – voltaria à clínica e sempre que os pacientes não aceitavam facilmente um contacto para adiar um tratamento ou desmarcar consultas consideradas “não urgentes”. No entanto, contou com o apoio dos médicos dentistas que trabalham na clínica. “Eram muito prestáveis e faziam chamadas diretamente dos seus próprios telemóveis para ajudar qualquer pessoa que ligasse e precisasse de ajuda. Tivemos muitos contactos de primeira vez desta forma, de pessoas que se tornaram nossas clientes porque tentavam ligar para as clínicas onde estavam habituadas a ir, mas não eram atendidas.” Filipe Cyrne acrescenta a este respeito que “as assistentes conhecem os pacientes, sabem o seu nome e há uma grande proximidade. Isso foi muito importante e levou a que mantivéssemos procura e a agenda cheia desde sempre, felizmente”.

Durante o confinamento, Filipe Cyrne apostou na procura de informação e na aprendizagem para fazer face à reabertura. “A mudança gerou stresse porque tivemos de recomeçar as consultas num ambiente completamente diferente do que conhecíamos”, salienta. E ainda que a equipa tenha sentido um grande alívio quando a clínica foi fechada perante o medo de um vírus desconhecido, também foi notória a ansiedade por voltar. A ansiedade por parte dos pacientes ia-se fazendo notar no sentido de saber se o protocolo era seguido assegurando as medidas de higienização e segurança sugeridas pela Direção-Geral da Saúde. “Explicávamos como era o nosso procedimento e fazíamos algumas perguntas de despiste”, conta o diretor clínico.

Quando a clínica reabriu, foram acauteladas “algumas alterações para instalar um sistema de extração de ar para o exterior, colocação de filtros para filtrar o ar que circula na clínica, além dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Foi ainda necessário reformular os horários das assistentes, dos médicos e das próprias consultas para se poder fazer face aos tempos de desinfeção e também para contemplar pequenos períodos de pausa para distrair da consulta em si e respirar um pouco devido ao uso continuado dos EPIs.

A pandemia causa mais burnout?

Os EPIs que, no início, eram bem mais escassos, trouxeram novas exigências. Se, por um lado, aumentam bastante a segurança dos profissionais e dos pacientes, por outro, colocam uma barreira às emoções e à própria dinâmica da consulta, contribuindo para um maior stresse acumulado. “Trabalhamos com o desconhecimento do vírus e a gravidade da doença que naturalmente nos preocupa. Vamos estando mais à vontade porque o protocolo é feito por rotina e repetição e acabamos por descontrair mais sem perder o foco na segurança”, explica o médico dentista.

Foi possível assegurar os postos de trabalho e cada elemento da equipa vai lidando à sua maneira, mas, “de uma forma geral, todos mantêm uma atitude positiva”, garante Filipe Cyrne.  “Continuo a achar que me sinto mais segura no trabalho do que no supermercado muito devido aos EPIs que usamos.  Costumo também partilhar uma mensagem de tranquilidade aos nossos pacientes pois estamos cá desde maio e não temos conhecimento de nenhum caso até ao momento”, explica Ana Sofia Ribeiro.

Na Clínica Arriaga, no Funchal, houve a iniciativa de comprar o tecido TNT e de começar a produzir batas descartáveis, perante a escassez de EPIs no período de confinamento. “As assistentes dentárias trouxeram máquinas de costura e começaram a confecionar batas”, diz Roberto Henriques. Foi a forma encontrada para se manterem ativas. “As novas regras relacionadas com a pandemia obrigaram a um desgaste maior do ponto de vista físico sobretudo por causa do uso dos EPIs. Tivemos de repensar a receção, a sala de espera, o fluxo das pessoas, investir em novos equipamentos e materiais que esta pandemia exigiu.” Até à data de fecho desta edição, não tinha sido reportado nenhum caso de covid-19, nem no que respeita aos funcionários nem de clientes que tenham visitado a clínica desde a reabertura.

burnout - trabalho

Carolina Mota – assistente dentária da Clínica Arriaga

Durante o confinamento, a clínica tinha o médico dentista Pedro Valério e a assistente dentária Carolina Mota, em permanência, durante o dia para dar resposta a algum problema que surgisse e iam sendo organizadas atividades para manter a equipa ativa como forma de gerir as emoções de um afastamento imposto pela pandemia. “A ansiedade para que retomássemos a atividade era grande. Mantivemos sempre algumas reuniões de zoom para estabelecermos pontos de situação e definirmos estratégias para o regresso. Definimos planos de contingência e conseguimos dividir a nossa equipa em dois turnos completamente distintos”, explica o diretor clínico. Para Carolina Mota, o facto de fazer parte da equipa que dava resposta à urgência foi positivo. “Estar todos os dias na clínica ajudou a ultrapassar a ansiedade. Consegui manter um contacto diário com o trabalho com todas as medidas de segurança adotadas”, diz.

Na fase de confinamento, todos os elementos reuniam por videoconferência e houve também a preocupação para sensibilizar os pacientes, não só pela importância da higiene oral, mas também para tranquilizá-los durante o tratamento. “O nosso diretor clínico e a equipa administrativa estiveram sempre presentes em todo o processo de forma a salvaguardar todas as dúvidas que pudessem surgir e também era uma forma de nos mantermos ativos”, refere a assistente dentária.

Já depois da retoma, a adaptação tem sido razoavelmente fácil uma vez que já era um hábito trabalhar de máscara e viseira. “Neste momento, para além da nossa farda habitual, trabalhamos com batas descartáveis, máscaras FFP2 e toucas. Esta alteração/reforço de equipamento provoca algum desconforto e calor em alguns colegas, nomeadamente, a dificuldade em respirar, mas, com o tempo, tudo se adapta. Penso que a maior exigência é estarmos mais alerta para a execução dos protocolos clínicos”, refere Carolina Mota, indicando que a prioridade passa por manter qualquer membro da equipa e os pacientes em segurança.

Considerando que o burnout não está tão presente na área de assistente de medicina dentária, salienta que a profissão é regida por protocolos para execução de todas as funções e tratamentos, desde a entrada do paciente na clínica até à sua saída. “Desde sempre que estamos habituados à desinfeção dos gabinetes para proteger os nossos pacientes e é dessa forma que transmitimos confiança aos nossos pacientes. Ainda assim, as assistentes têm um ´papel´ exigente em todo âmbito clínico, depende de nós a preparação das consultas, a gestão de agendas dos médicos com quem trabalhamos, a esterilização de material e a desinfeção de gabinetes e das áreas de esterilização”, explica. São seguidos vários protocolos de forma a facilitar a gestão de tempo.

“Desde sempre que estamos habituados à desinfeção dos gabinetes para proteger os nossos pacientes e é dessa forma que transmitimos confiança aos nossos pacientes” – Carolina Mota, assistente dentária na Clínica Arriaga

O impacto da pandemia foi sobretudo financeiro pois a equipa viu-se privada de trabalhar. “As moratórias vieram atenuar o problema, mas o facto de termos recursos guardados fez com que conseguíssemos garantir o pagamento de todos os ordenados a tempo e horas. Conseguimos assegurar as nossas responsabilidades e recorrer aos apoios do Estado. Foi uma gestão muito cuidadosa e conseguimos sobreviver”, sublinha Roberto Henriques.

O burnout em estudantes de medicina dentária

Estima-se que o burnout afete cerca de 40% dos estudantes de medicina e de medicina dentária, desde o primeiro ano, mais do que a percentagem de estudantes de outras áreas (incluindo da saúde). Importa assim preparar os futuros médicos, entre os quais, os dentistas, para lidarem melhor com o stresse e as pressões que estarão inevitavelmente presentes na sua prática.

A OMD alerta para o facto de alguns estudos realçarem a importância da deteção precoce do burnout em estudantes de medicina dentária e da necessidade de prevenção eficaz e promoção de medidas de superação no início da profissão, período no qual são encontrados desafios e constrangimentos, nomeadamente na procura de uma oportunidade de trabalho digna e respeitada. “Mais ainda, face à dificuldade em encontrar condições de trabalho adequadas no nosso País, tem-se intensificado a corrente emigratória dos médicos dentistas para diferentes países, em particular, na Europa. O afastamento geográfico nacional ou internacional implica um maior isolamento dos familiares e amigos e, associado à imprevisibilidade da metodologia de trabalho encontrada, pode também contribuir para um aumento dos níveis de stresse, quer pessoal quer ocupacional”, explica Alexandra Vinagre.

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Ana Telma Pereira – investigadora e docente no Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Neste contexto, surge o projeto COMBURNOUT, financiado pelo programa Academias do Conhecimento da Fundação Calouste Gulbenkian, que visa a promoção de competências emocionais e sociais em jovens até aos 25 anos. Este financiamento terá a duração de dois anos e, nesse período, irão ser realizados estudos, primeiro para conhecer os níveis de burnout e de perturbação psicológica (depressão, ansiedade e stresse) em estudantes de medicina e medicina dentária e para compreender o papel de fatores individuais (como traços de personalidade e competências emocionais) e ocupacionais/organizacionais (do ambiente que se vive nas escolas médicas). “Depois, já com mais informação e fundamentos, pretendemos desenvolver e testar o impacto/eficácia de um programa de intervenção baseado em mindfulness e autocompaixão para estes estudantes, que lhes permita desenvolver competências emocionais, para lidarem de forma mais adaptativa com o stresse potenciado pelos seus traços e pelas exigências colocadas pelos cursos de medicina e medicina dentária”, diz Ana Telma Pereira, investigadora e docente no Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

 

A primeira fase será essencialmente de estudos descritivos e correlacionais onde serão identificados os estudantes em risco que vão ser convidados a participar numa segunda fase, num formato online e consistirá num programa de intervenção em grupo, mais experimental, com a realização de um ensaio clínico. “A nossa meta é disponibilizar um programa de intervenção totalmente manualizado e com boas evidências de impacto positivo na redução do burnout e perturbação psicológica em estudantes de medicina e medicina dentária. Estamos confiantes, porque já comprovámos, com estudos recentes, que se fomentarmos a autocompaixão – que pode ser um antídoto para este veneno – podemos atenuar o stresse e o sofrimento psicológico potenciados pelo perfecionismo, que tende a ser elevado nestes estudantes”, refere a docente.

Neste momento, o projeto encontra-se na fase de divulgação e estabelecimento de parcerias com escolas médicas de Portugal, bem como, com núcleos e associações de estudantes de medicina e medicina dentária (como por exemplo, a Associação Nacional de Estudantes de Medicina Dentária, – ANEMD), enquanto que a equipa de investigadores está a ter formação em intervenções baseadas no mindfulness e na autocompaixão e a desenvolver guiões para as sessões de intervenção em grupo. “Alguns estudos rigorosos começam a evidenciar os benefícios de intervenções psicológicas, principalmente focadas no mindfulness, havendo algumas escolas médicas de referência que têm mostrado os benefícios de incluir estes programas desde logo nos primeiros anos do curso”, sublinha Ana Telma Pereira.

No que respeita às graves consequências do burnout nos estudantes de medicina dentária, a investigadora refere algumas: “ideação suicida, (ab)uso de substâncias, pior rendimento académico, mais erros e negligência e menos empatia e compaixão; estas são essenciais à prestação de cuidados médicos de qualidade”.

Em janeiro, com o início da época de avaliações, decorre a recolha de dados junto dos estudantes de todo o País a quem se solicitará o preenchimento de um conjunto de questionários. Apesar de ainda não existirem conclusões concretas, Ana Telma Pereira refere, com base na revisão da literatura e da própria investigação da FMUC com estudantes de medicina e medicina dentária, que “é necessário intervir o mais precocemente possível durante o curso pois os níveis de burnout vão aumentando ao longo da formação e carreira médica”.

Na sequência deste projeto, outros surgirão, sugere a investigadora, nomeadamente para o desenvolvimento e teste de aplicações para telemóvel que possam ser usadas pelos estudantes que aderem muito facilmente ao digital. “A um nível mais geral pretendemos também vir a contribuir para a melhor compreensão e intervenção do burnout associado às dificuldades de conciliação entre a vida familiar e profissional, nomeadamente na transição para a parentalidade”, salienta Ana Telma Pereira.

Reconhecer os sinais e procurar ajuda

A OMD realizou desde o início da pandemia diversos inquéritos para aferir as questões que traziam maior preocupação e desconhecimento à classe. Simultaneamente criou um microsite com FAQ’s acerca da pandemia por covid-19 e, mais recentemente, uma linha de apoio covid-19, plano outono-inverno, onde vários serviços da OMD se prontificaram a responder de forma célere às questões colocadas, tendo sido feita a contratação de uma psicóloga clínica para prestar apoio neste campo. A referida linha deverá ser reforçada para o apoio às situações de burnout sentidas pelo médico dentista no exercício da sua atividade profissional.

“A realização de webinars semanais tiveram a participação de mais de 6000 colegas e ajudaram a esclarecer as questões relacionadas com o stresse laboral”, refere Alexandra Vinagre, adiantando que estão previstas mais ações. “Na área da formação e informação está prevista a organização de mais webinars que possam alertar sobre este tema focando para a sua epidemiologia, etiologia, diagnóstico/sintomatologia e possibilidades de tratamento quer na área preventiva, quer na área interventiva.”

A OMD tem também intenção de aplicar um instrumento de medida do burnout através de um questionário, cientificamente validado, permitindo focar numa tríade de fatores, desde os da esfera pessoal, como com os que se prendem com o trabalho e com a relação com o paciente, de forma a contribuir para o impacto psicológico que a pandemia terá na sociedade, mantendo sempre uma estreita ligação com a OPP.

“Realizando-se avaliação regular dos riscos psicossociais e, com base nesse diagnóstico organizacional, é importante implementar um plano de ação que inclua medidas para a prevenção primária e secundária desses riscos (coletivas e individuais), e promover práticas de gestão centradas na eficiência e na valorização das pessoas, envolvendo e implicando todos os colaboradores”, explica Teresa Espassandim. Os psicólogos, e em particular, os psicólogos do trabalho, são os profissionais de referência para realizar essa avaliação e propor recomendações e implementar programas custo-eficazes com vista à construção de locais de trabalho saudáveis através de consultoria ou da integração das equipas. “A evidência científica demonstra que a implementação de programas de intervenção psicológica que apoiam os trabalhadores produz um retorno que corresponde a um aumento cinco vezes superior da produtividade”, sublinha a psicóloga.

“A evidência científica demonstra que a implementação de programas de intervenção psicológica que apoiam os trabalhadores produz um retorno que corresponde a um aumento cinco vezes superior da produtividade”Teresa Espassandim, psicóloga

A Linha SNS24 (808 24 24 24) dispõe de um serviço de aconselhamento psicológico (opção 4) específico para utentes e para profissionais de saúde, a funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, com a ajuda de um psicólogo clínico e da saúde, que podem ajudar num momento de crise e de maior vulnerabilidade.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 136 da revista SAÚDE ORAL, de janeiro-fevereiro de 2021.

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