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Opinião

QI vs QE

Damiana Fernandes – Vida Pro e Plena

Durante várias décadas, o Quociente de Inteligência (QI) foi considerado diretamente proporcional ao sucesso académico e profissional de um indivíduo. Nos últimos anos, a investigação social indica o oposto: o Quociente Emocional (QE) é um melhor preditor do nível de sucesso dos indivíduos ao longo da vida.

É inquestionável que na medicina dentária as competências técnicas constituem a base do desempenho profissional. E o QI é mais importante quanto mais técnica é a função a executar. Não deve haver espaço para baixos desempenhos técnicos em serviços de saúde. Por outro lado, quanto mais complexo for o trabalho, mais importa desenvolver as competências emocionais, quanto mais não seja porque uma carência nessas capacidades pode prejudicar a plena utilização de quaisquer perícias técnicas ou intelectuais que uma pessoa possa possuir. O QE tem um papel fundamental na autogestão emocional do profissional de saúde oral e na gestão das relações em contexto clínico. E a medicina dentária é uma área profissional de relações!

 

Numa realidade profissional como a da medicina dentária portuguesa, em que a competitividade é elevada, a formação em soft skills é cada vez mais um fator de diferenciação durante o recrutamento e fundamental para a manutenção do posto de trabalho. Após um ano de pausa na prática clínica para me dedicar a certificações nas áreas do Coaching e da Inteligência Emocional, regressei recentemente às funções de Higienista Oral e vivi esta realidade na primeira pessoa. As entidades empregadoras referiram que as formações referidas tiveram um peso preponderante na decisão do meu recrutamento. E demonstraram interesse e disponibilidade para colaborações futuras no âmbito de formações em soft skills nas suas clínicas. Aliás, verifica-se globalmente que essa é a grande tendência formativa dos recursos humanos, como reflexo das baixas competências emocionais dos profissionais nas empresas e nos serviços de saúde que ficaram expostas pelos desafios trazidos pela pandemia. Os profissionais da medicina dentária que cresceram durante os últimos dois anos foram aqueles que souberem recorrer à flexibilidade, à resiliência, à criatividade, à liderança positiva e que conseguiram influenciar e motivar equipas de trabalho e fidelizar novos pacientes. O que marcou a diferença não foi simplesmente saber colocar implantes de forma irrepreensível, fazer dentisteria com isolamento absoluto, restaurações perfeitamente adaptadas ou endodontia mecanizada com microscópio…

É importante terminar deixando claro que a dicotomia QI vs QE é falsa. Estes dois tipos de inteligência não são totalmente independentes, antes pelo contrário, devem complementar-se na construção de uma inteligência única e de um conhecimento abrangente. O programa curricular de formação base dos profissionais da medicina dentária ignora ainda o desenvolvimento de soft skills. Essa componente formativa fica ao cuidado de cada profissional, que tem a possibilidade de fazê-lo através da formação contínua. A realidade que se verifica é que nem sempre os profissionais da medicina dentária reconhecem a importância das competências humanas e sociais para o desempenho da sua profissão. Utopicamente desejo que, num futuro próximo, essa realidade se altere pois representará um avanço positivo na qualidade de vida dos profissionais e na excelência dos serviços por eles prestados. Até lá, que tenhamos, pelo menos, consciência de que há competências essenciais para o desempenho profissional que vão além das técnicas, dos materiais e das últimas tecnologias. É da responsabilidade de cada um procurar o conhecimento e fomentar o seu crescimento enquanto profissional e indivíduo.

 

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 143 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

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