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Projeto C.A.S.O. – Quando a saúde oral é a premissa para a inclusão

As desigualdades sociais fazem parte da evolução da História. Quando pensamos no acesso a cuidados de saúde oral, o problema agudiza-se. Apesar de existirem serviços de âmbito público e privado, as populações socioeconomicamente vulneráveis são aquelas que mais dificuldade têm em aceder a este tipo de cuidados. Este é um problema social que assume uma abrangência territorial nacional, dado que mais de 90% dos médicos dentistas em Portugal exerce a sua atividade no setor privado, o que leva a que a grande maioria da resposta médico-dentária seja dada aos indivíduos que possuem recursos financeiros para pagar esse serviço. E é aqui que as instituições de intervenção social, como é o caso da ONG Mundo A Sorrir [1], assumem um papel crucial no combate às desigualdades em saúde.

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Ana Simões – Coordenadora técnica do Centro de Apoio à Saúde Oral do Porto

Dos muitos projetos que a organização desenvolve, destacamos aqui o Centro de Apoio à Saúde Oral [3] – C.A.S.O. Este projeto incide a sua ação junto de pessoas que se encontram numa situação de vulnerabilidade socioeconómica e cujo estado de saúde oral é comprometedor do seu bem-estar e qualidade de vida. Articulando com um conjunto de parceiros sociais locais (Autarquias, IPSS’s, cooperativas, etc.), esta iniciativa está localizada nos concelhos do Porto, Braga, Lisboa e Cascais, tendo até ao momento beneficiado mais de 7 000 pessoas. Para a grande maioria destes parceiros sociais, que dão resposta alimentar, habitacional, na procura de emprego, entre outros, a saúde oral é indicada como das mais difíceis de conseguir. Neste sentido, a intervenção oral realizada neste projeto faz parte integrante de um processo mais abrangente de (re)integração social e que, em última análise, se orienta através da inclusão pela saúde.

O que torna este projeto uma resposta inovadora é, em primeiro lugar, tratar-se de uma solução complementar às medidas governamentais existentes. Todos os beneficiários que são elegíveis para usufruir da medida “cheque-dentista” não são atendidos neste projeto, sendo informados e aconselhados a utilizar essa resposta pública. Por outro lado, o C.A.S.O. contempla uma equipa multidisciplinar, que inclui não só os profissionais de saúde oral como também sociólogos e psicólogos, que realizam um acompanhamento de proximidade junto dos beneficiários, para que a intervenção dentária realizada seja complementada com um apoio psicossocial. Este tipo de apoio é fundamental, dadas as trajetórias sociais que os beneficiários apresentam. Em 2020, e tal como tem sido a realidade em anos anteriores, os beneficiários do projeto foram homens e mulheres acima dos 40 anos de idade, possuíam baixa escolaridade (1º ciclo do Ensino Básico), encontravam-se em situação de desemprego ou eram pensionistas. Apresentavam um rendimento per capita de 3 euros/dia ou não possuíam qualquer rendimento. Para aqueles que estavam empregados, na sua grande maioria desempenhavam funções de âmbito temporário e/ou precário. Existem muitas pessoas que são discriminadas devido à sua aparência e isso tem implicações diretas na procura de um trabalho. O Sr. “Pedro”, beneficiário do C.A.S.O. Porto, confidenciou: “tinha estabelecido como meta cuidar de mim e da minha imagem para poder reintegrar o mercado de trabalho. Sinto que agora posso candidatar-me a empregos no atendimento ao público. Não tenho dúvidas de que vou ter mais oportunidades”.

Além de tratamentos médico-dentários profundos, estas pessoas precisam igualmente de mudar os hábitos de higiene oral e de ficar consciencializados para os comportamentos de risco que afetam a saúde oral. É, por isso, um trabalho contínuo e progressivo da equipa médica, mas também é necessária uma grande cooperação do doente para o sucesso dos tratamentos.

Estefânia Paiva Martins – Coordenadora do Centro de Estudos Mundo A Sorrir e médica dentista da Mundo A Sorrir

Numa amostra de 73 842 procedimentos realizados nos últimos cinco anos, verificámos que as consultas de dentisteria (32%), de reabilitação por prótese dentária (15%) e cirurgia (14%) são aquelas que são mais realizadas. Em média, e de acordo com a distribuição do número de consultas por doente nos quatro C.A.S.O.’s, nos últimos cinco anos, das 46 780 consultas realizadas, cada utente realizou aproximadamente 11 consultas.

Todo o trabalho, quer de âmbito clínico ou social, pauta-se por elevados padrões de rigor e qualidade. Um dos exemplos disso é a aplicação do inquérito por questionário – Oral Health Impact Profile – OHIP, uma ferramenta usada internacionalmente. Este inquérito é aplicado no dia da primeira consulta e no dia da consulta de observação, quando é declarada a alta clínica. É através da recolha destes dados que é possível avaliar o impacto da intervenção clínica realizada junto dos nossos beneficiários, bem como delinear um acompanhamento de follow-up.

Além do impacto que é medido por indicadores, existe o impacto que é sentido e verbalizado pelos próprios utentes. A D. “Ana”, beneficiária do C.A.S.O. Braga, contou-nos a sua história: Tenho três filhos, mas uma é especial. Sempre gastei o que tinha, e o que não tinha com ela, e por isso nunca consegui arranjar os dentes. No C.A.S.O. recuperei o meu sorriso e deixei de esconder a boca com as mãos. Agora posso rir e falar sem complexos. Foi uma grande oportunidade que me deram!”

Este projeto tem-nos trazido ao longo dos anos dois grandes desafios clínicos. O primeiro está relacionado com a reabilitação oral com prótese acrílica removível. Em média, 8 em cada 10 beneficiários coloca próteses dentárias, existindo uma necessidade de substituição de dentes em boca na ordem dos 60%. Este é mais um dos pontos de inovação deste projeto. Inúmeros são os casos em que os beneficiários solicitam o nosso apoio na reabilitação oral com prótese porque não conseguem obter respostas através dos serviços públicos existentes.

O segundo desafio prende-se com a motivação para a higiene oral. Devido a trajetórias sociais marcadas por instabilidade, quer seja ela económica, social, emocional, familiar, muitos dos nossos utentes apresentam resistência em alterar os hábitos de higiene oral a médio/longo prazo. A prevenção é, por isso, um dos nossos pilares de atuação e de reforço contínuo em todo o plano de tratamento.

O trabalho contra as desigualdades sociais, nas quais se incluem as desigualdades em saúde, é inesgotável. Esta situação irá agravar-se com os efeitos dos tempos conturbados que vivemos devido à pandemia covid-19. Por esta razão, o acesso aos cuidados de saúde e saúde oral é crucial, sendo indispensável que projetos como o C.A.S.O. sejam valorizados.

* Ana Simões – Coordenadora técnica do Centro de Apoio à Saúde Oral do Porto

Estefânia Paiva Martins – Coordenadora do Centro de Estudos Mundo A Sorrir e médica dentista da Mundo A Sorrir

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 138 da revista SAÚDE ORAL [4], de maio-junho de 2021.